Archive for 2008

Viagem

quinta-feira, outubro 30th, 2008

Encontrei espaço numa curva do saguão e me sentei no chão, perto da loja de café. Naquelas alturas, o aeroporto Antonio Carlos Jobim não oferecia muito mais conforto do que isso para quem fosse pernoitar por ali. No meu cantinho improvisado já me sentia num razoável bed and breakfast, dada a proximidade da máquina de capuccino e dos pãezinhos de queijo para quando eu acordasse. Eu estava sozinha, esperava a chamada para meu embarque, adiado em muitas horas, e observar meus companheiros daquele albergue improvisado passou a ser uma distração, pois já devorara boa parte do livro que levava na bolsa “para ler na viagem”. (mais…)

Sotaque

domingo, outubro 19th, 2008

Meus amigos caipiras são tantos que nem sei. Os caipiras se atraem (rs). Puxamos a língua para trás para pronunciar o “r” e coisas assim. Para dizer a verdade, eu procuro me policiar quanto a esse detalhe, principalmente quando falo na TV. São os padrões, fazer o quê? Mas não deixa de ser curioso quando certas características são negadas com veemência, como se fosse um crime ser meio assim um “bicho do mato”. (mais…)

Futuro presente – Texto de Leonardo Brasiliense

sábado, outubro 18th, 2008

Ao pular ágil da cama no primeiro toque do despertador, João Alfredo de Moura e Andrade, pai de família exemplar, filho dedicado, amigo fiel, colega solícito, não tinha como adivinhar o que estava para acontecer naquele dia. Se pudesse, talvez não se levantasse, nem saísse de casa. Seria prudente? Covarde? A solução? Mas levantou, escovou os dentes, tomou café com leite, foi para o trabalho. Tudo bem, não havia como, era impossível prever, não há como culpá-lo. Porque não aconteceu nada. Como sempre.

E-mail: lbrasiliense@uol.com.br

Novo prefeito – Texto de Otávio Nunes

quinta-feira, outubro 9th, 2008

O novo prefeito de Beiradinha sentou-se na cadeira estofada e olhou através da janela. Lá fora, os cidadãos andavam de um lado para outro, à procura de seu destino. "A partir de hoje, eu os governo", pensou consigo mesmo o alcaide recém-eleito. (mais…)

Incoerências e caras-de-pau

segunda-feira, setembro 29th, 2008

Aos poucos, os candidatos e candidatas a Prefeito do Rio começam literalmente a mostrar a cara e, no momento em que escrevo, alguns deles já se destacam no noticiário. Ou porque nas pesquisas têm índice mais alto de intenção de votos ou porque seus cartazes aparecem mais pelas ruas da cidade. E é aí que entra a incoerência desses candidatos com sua interpretação muito particular sobre o que seja “cuidar da cidade” ou de pensar nela como seus futuros administradores. (mais…)

Combate ao tráfico

sexta-feira, setembro 26th, 2008

Os homens do batalhão de combate ao tráfico vasculharam o pequeno sobrado. O detetor inteligente percorreu cada canto da construção instalada num bairro da chamada neoclasse média, sem nada encontrar. Dentro de seus uniformes de fibra flexível de aço e munidos com as tradicionais pistolas a laser, os soldados apresentaram-se ao comando. A operação fracassara, ao menos até ali, com os métodos legalizados. O Capitão Assíria deu-lhes ordem para descansar, e eles sabiam dos procedimentos a serem adotados a partir daquele momento. (mais…)

Obrigada, poeta

sexta-feira, setembro 19th, 2008


Às vezes acontece. Você precisa desabafar, conversar, trocar umas figurinhas, e aqueles que estão sempre presentes pro que der e vier não estão disponíveis naquele exato momento, por uma razão qualquer. Numa dessas vezes, apelei para ele. Que está sempre lá, sentado no mesmo banco da praia de Copacabana, de pernas cruzadas, um livro no colo e aquele ar meio sério, meio pensativo, como esperando que alguém se sente a seu lado. E foi o que eu fiz. Sentei-me ali, pus meu braço no ombro dele e comecei a conversar. Só não digo que comecei a “nossa” conversa, porque falei muito mais do que ele, que só ouvia, e às vezes – juro! – esboçava um sorrisinho complacente. (mais…)

A hora da morte

terça-feira, setembro 16th, 2008

Contou-me esta história o magistrado Ilídio Fagundes Tourão, digno de um caráter fiduciário à prova de manobras e entrementes aferidos em razoável monta nos meandros do ofício. Por certo, e disso dou fé, não ocorre entre sua altiva história um só processo de que possa ter se saído assim escassamente, nem mesmo este derradeiro, no qual, aliás, meteu-se de jeito. Contou-me esta história o magistrado Ilídio Fagundes Tourão, cujo passamento deu-se às nove horas e um quarto do dia 10 de março último, uma manhã de sol brilhante, como o fora sempre quem ela, discretamente, ali socorria à velhice imposta pela doença e talvez por um sórdido destino. (mais…)

Iniciação – Texto de Leonardo Brasiliense

sábado, setembro 13th, 2008

Era uma caixa d’água virada para baixo, e lá de dentro espiávamos o mundo por um furinho quase de nada. Assim nós sabíamos de tudo. Por exemplo, quando mataram o galo Rico. Os adultos combinaram o assassinato no cochicho. Então o Rico apareceu na mesa do jantar, e nós sabíamos que era ele. Mas não deixamos sobrar nada no prato: mais nos importava manter o esconderijo, porque a prima e eu desconfiávamos, em silêncio, que dali a pouco ele teria outro fim.

E-mail: lbrasiliense@uol.com.br

Fui eu – Texto de Otávio Nunes

quarta-feira, setembro 10th, 2008

Estava eu a comer um pastel na feira de domingo, destes enormes que nos fazem almoçar às quatro da tarde, quando um homem passou por mim e deu-me um papelzinho. Um santinho de candidato. Quando ia jogar no lixo, reparei que a foto no papel era a do próprio homem que entregava. Era ele o candidato. Nunca tinha me acontecido isto antes e acredito que a poucos na cidade. Geralmente, a gente pega santinhos
das mãos de pessoas que trabalham para o político. Mas, das mãos do próprio, era novidade. (mais…)