Contos

A hora da morte

terça-feira, 16 de setembro de 2008 Texto de

Contou-me esta his­tó­ria o ma­gis­trado Ilí­dio Fa­gun­des Tou­rão, digno de um ca­rá­ter fi­du­ciá­rio à prova de ma­no­bras e en­tre­men­tes afe­ri­dos em ra­zoá­vel monta nos me­an­dros do ofí­cio. Por certo, e disso dou fé, não ocorre en­tre sua al­tiva his­tó­ria um só pro­cesso de que possa ter se saído as­sim es­cas­sa­mente, nem mesmo este der­ra­deiro, no qual, aliás, meteu-se de jeito. Contou-me esta his­tó­ria o ma­gis­trado Ilí­dio Fa­gun­des Tou­rão, cujo pas­sa­mento deu-se às nove ho­ras e um quarto do dia 10 de março úl­timo, uma ma­nhã de sol bri­lhante, como o fora sem­pre quem ela, dis­cre­ta­mente, ali so­cor­ria à ve­lhice im­posta pela do­ença e tal­vez por um sór­dido des­tino.

Por dois me­ses ou mais, es­tive a ve­lar sua ago­nia. Ca­sado já em al­tas ho­ras, como será ex­pli­cado adi­ante, não con­tava fi­lhos e, daí, nem ne­tos. Sua mo­ci­dade atravessou-a nos es­tu­dos para ocu­par, se­gui­da­mente, dis­tin­tas fun­ções na car­reira do Di­reito. Quando des­per­tou para a vida fora dos ga­bi­ne­tes, os anos já o ha­viam traído. Restou-lhe, en­fim, a con­vi­vên­cia ze­losa com a so­li­dão. Eu o co­nheci nos cor­re­do­res do tri­bu­nal. Sua fi­gura cir­cuns­pecta, de certa forma som­bria, não cos­tu­mava en­can­tar, mas ao sabê-lo Dou­tor Tou­rão, de ex­tra­or­di­ná­ria car­reira, de­sisti de meus re­ceios e pro­cu­rei uma apro­xi­ma­ção que po­de­ria me tra­zer gran­des pro­gres­sos.

Numa certa oca­sião, en­quanto eu re­lia o pro­cesso de um cli­ente, es­co­rado no bal­cão do café, ele avizinhou-se sem ro­deios e cumprimentou-me com um tra­di­ci­o­nal e quase sim­pló­rio “boa tarde, dou­tor”. Con­fesso meu ma­rasmo mo­men­tâ­neo. Em mui­tos da­que­les dias, eu ten­tei fazer-me ver para, en­tão, tal­vez, ini­ciar um con­tato. E agora, ali, be­bendo café des­pre­ten­si­o­sa­mente, o ho­mem destinava-me uma afá­vel sau­da­ção. De iní­cio, é fato, sobreveio-me um breve tor­por, mas tam­bém reabilitei-me a tempo de oferecer-lhe uma água e um café. Acei­tas as be­bi­das, foi ine­vi­tá­vel que eu uti­li­zasse mi­nha ca­pa­ci­dade nata de per­su­a­são para envolvê-lo numa pe­quena teia re­tó­rica que, posso ga­ran­tir, acen­deu uma chama de ami­zade na­quela li­geira re­la­ção.

De­certo pou­pa­rei o lei­tor de abor­re­ci­men­tos que po­de­riam nas­cer dos de­ta­lhes do que cha­mei de “ca­pa­ci­dade nata de per­su­a­são”. Basta as­se­gu­rar que nossa ami­zade du­rou os úl­ti­mos vinte anos, dez dos quais nosso pro­e­mi­nente Dou­tor Tou­rão go­zou na sua justa apo­sen­ta­do­ria. Por acaso, aliás, duas dé­ca­das tam­bém per­fa­zem a di­fe­rença de nos­sas ida­des. Ao conhecê-lo pes­so­al­mente, du­rante um ca­fe­zi­nho, ele con­tava 54 anos; eu, 34. Re­su­mi­da­mente, devo re­la­tar que nos en­con­trá­va­mos com certa frequên­cia fora do ex­pe­di­ente, quase sem­pre na re­si­dên­cia dele ou na mi­nha. Como é praxe em se tra­tando de fi­gu­ras im­por­tan­tes do Po­der Ju­di­ciá­rio, Ilí­dio não era afeito a ex­po­si­ções pú­bli­cas. No má­ximo, ia às reu­niões pe­rió­di­cas de um clube de juí­zes, pro­mo­to­res e ad­vo­ga­dos, cuja sala so­cial estabelecia-se muito pró­ximo ao edi­fí­cio de nosso tri­bu­nal. Lá, após os jan­ta­res, os as­so­ci­a­dos pegavam-se no pô­quer até al­tas ho­ras. Fora isso, res­ta­vam pou­cas e dis­cre­tas re­cep­ções.

Le­vava as­sim a vida o Dou­tor Tou­rão, quando num des­ses jan­ta­res mi­nha es­posa acenou-me com a se­guinte pos­si­bi­li­dade: “seu amigo pa­rece es­tar apai­xo­nado”. O quê? Se­ria pos­sí­vel algo as­sim? Aquele ho­mem se­vero, de uma al­ti­vez as­sus­ta­dora a even­tu­ais pre­ten­den­tes, po­de­ria es­tar olhando da­quela forma para uma mu­lher? Um su­jeito de um sor­riso des­co­nhe­cido como aquele? Um quase ve­lho de es­pi­nhaço já um tanto cur­vado pela sua com­plei­ção e pela pró­pria ati­vi­dade des­pen­de­ria seu co­ra­ção àquela al­tura? E a uma moça ainda? To­das es­sas per­gun­tas, que en­cer­ram fi­lo­so­fia, com­por­ta­mento, as­pecto fí­sico e pre­con­cei­tos, acudiram-me num ins­tante. Mas logo eva­po­ra­ram. Ao meu braço, mi­nha pers­pi­caz se­nhora lembrou-me disto: não acre­dito que essa moça linda possa se in­te­res­sar pelo Ilí­dio!

Bem, o fato é que ela se in­te­res­sou, sim. Aliás, interessou-se tanto que se ca­sou com ele al­guns me­ses de­pois. Ele, aos 59. Ela, aos 32. Juntaram-se como mui­tos ca­sais de ida­des se­me­lhan­tes não ex­pe­ri­men­tam. Revelou-se, o Dou­tor Tou­rão, nas pa­la­vras da pró­pria Ge­rusa, um ma­rido e tanto. No tri­bu­nal, fie-se, o ma­gis­trado não se des­viou um só mi­lí­me­tro de sua pos­tura de sol­teiro. Se­guiu car­ran­cudo, quase mudo mesmo com os mais pró­xi­mos, o tí­pico arqué­tipo de um res­pei­tado juiz. Fora do ex­pe­di­ente, en­tre­tanto, permitiu-se a cer­tas ex­tra­va­gân­cias, como ele mesmo no­me­ava os jan­ta­res em res­tau­ran­tes re­quin­ta­dos ou a frequên­cia a uma ou duas ca­sas no­tur­nas. Fo­mos, eu e mi­nha es­posa, a vá­rios des­ses lu­ga­res com Ilí­dio e Ge­rusa. Tam­bém não dei­xa­mos de nos en­con­trar em nos­sas ca­sas. Am­bos eram-nos muito agra­dá­veis; sua pre­sença, pra­ze­rosa.

Dois anos passaram-se, até que no dia xx de fe­ve­reiro, en­tre 23h e meia-noite se­gundo a pe­rí­cia, houve a tra­gé­dia: Ge­rusa, jo­vem e linda, foi morta a fa­ca­das em sua casa. Foi o pró­prio ma­rido quem a en­con­trou numa ma­dru­gada, de­pois de che­gar do clube de ma­gis­tra­dos onde jo­gava pô­quer uma vez por se­mana. Um ras­tro de sus­pei­tas in­va­diu a vida até en­tão ex­tre­ma­mente re­ser­vada de Ilí­dio. Pouco tempo de­pois do crime, ele aposentou-se na ten­ta­tiva de ar­re­fe­cer o as­sé­dio que so­fria di­a­ri­a­mente. O pro­ce­di­mento, con­tudo, não amai­nou a vo­ra­ci­dade da im­prensa nem as pres­sões da po­lí­cia e pos­te­ri­or­mente da pró­pria Jus­tiça. O caso, como o lei­tor deve se re­cor­dar, ga­nhou as pá­gi­nas po­li­ci­ais dos jor­nais e in­co­mo­dou so­bre­ma­neira o Po­der Ju­di­ciá­rio. O meu ve­lho amigo so­freu na carne as con­sequên­cias do epi­só­dio. En­ve­lhe­ceu em pou­cos me­ses os anos que pa­re­cia ter re­mo­çado na com­pa­nhia de Ge­rusa. Não saía mais de casa. Re­ce­bia dois ou três ami­gos, en­tre os quais es­tava eu. Não ha­via mais tra­ba­lho nem la­zer par ele. En­fim, isolou-se. 

En­tre idas e vin­das, o inqué­rito estendeu-se por quase um ano. Em sua peça, a au­to­ri­dade po­li­cial apon­tou Ilí­dio como o prin­ci­pal sus­peito, mas tam­bém aler­tou: fal­ta­vam pro­vas con­clu­si­vas so­bre o crime. Ha­via im­pres­sões di­gi­tais de Ilí­dio no quarto e até mesmo na faca uti­li­zada no as­sas­si­nato, mas isso fa­cil­mente po­dia ser con­tes­tado, afi­nal ele mo­rava na­quela casa, dor­mia na­quele quarto e te­o­ri­ca­mente po­de­ria ter usado aquela faca mui­tas ve­zes. En­tre­tanto, o que in­vi­a­bi­li­zou qual­quer pos­si­bi­li­dade de con­de­na­ção fo­ram os áli­bis de Ilí­dio, to­dos eles de res­pei­tada re­pu­ta­ção: eram os pró­prios ma­gis­tra­dos e ad­vo­ga­dos que atu­a­vam no tri­bu­nal e à noite dirigiam-se ao clube. Pois na­quela noite, dois ad­vo­ga­dos e um pro­mo­tor dei­xa­ram o tri­bu­nal ao lado de Ilí­dio. Os qua­tro en­tra­ram em seus car­ros e to­ma­ram di­re­ções dis­tin­tas. Foi o que, de ma­neira unâ­nime, eles dis­se­ram à po­lí­cia e é o que consta dos au­tos: “…às 22h50, o juiz Ilí­dio Fa­gun­des Tou­rão dei­xou as de­pen­dên­cias do tri­bu­nal…” Do mesmo do­cu­mento, cons­tam os de­poi­men­tos de ou­tros qua­tro juí­zes e pro­mo­to­res do clube. To­dos vi­ram quando Ilí­dio en­trou na sala so­cial, exa­ta­mente às 23h, que foi o ho­rá­rio, se­gundo a ata dos tra­ba­lhos, em que o pre­si­dente da as­so­ci­a­ção en­cer­rou seu breve dis­curso se­ma­nal. Ilí­dio che­gou nesse pre­ciso mo­mento e lá per­ma­ne­ceu até quase duas da ma­dru­gada.

Chega a oca­sião de se fa­zer ao lei­tor um im­por­tante es­cla­re­ci­mento: a re­si­dên­cia de Ilí­dio fi­cava, de carro, a pelo me­nos qua­renta mi­nu­tos do tri­bu­nal. Mesmo num he­li­cóp­tero, se­ria im­pos­sí­vel para meu amigo locomover-se até a sua casa, en­trar, as­sas­si­nar sua mu­lher e vol­tar ao clube no prazo de dez mi­nu­tos, tempo en­tre sua saída do tri­bu­nal e sua che­gada ao clube. Eis o nó que o li­vrou de­fi­ni­ti­va­mente das sus­pei­tas. O crime, co­me­tido den­tro da casa do ma­gis­trado, fora cer­ta­mente le­vado a cabo mi­nu­ci­o­sa­mente pelo seu pro­ta­go­nista. Mas cabe ainda uma in­for­ma­ção im­por­tante, que ex­plica as sus­pei­tas ini­ci­ais da po­lí­cia e que será o com­bus­tí­vel para o epí­logo desta his­tó­ria. As in­ves­ti­ga­ções che­ga­ram a um certo pu­bli­ci­tá­rio cujo nome pro­po­nho pre­ser­var­mos aqui. Jo­vem de pouco mais de vinte anos, ele es­ta­ria, na época do crime, en­vol­vido num ro­mance com Ge­rusa. Ilí­dio te­ria des­co­berto e, para a po­lí­cia, tra­mado o as­sas­si­nato da es­posa, o que, permita-me re­cor­dar, nunca fi­cou pro­vado.

Ao cabo de treze anos após o iní­cio do epi­só­dio, che­ga­mos ao fa­tí­dico 10 de março pas­sado. Meu amigo, que eu vi­si­tava fre­quen­te­mente no hos­pi­tal, animando-o a lu­tar con­tra o cân­cer que lhe cor­roía as en­tra­nhas, man­dou chamar-me numa ma­nhã ca­lo­renta. Ló­gico, muito de­pressa aban­do­nei toda a pa­pe­lada so­bre a mesa da sala que ocupo no tri­bu­nal e voei ao seu en­con­tro. Quando en­trei no quarto e o en­ca­rei, nós dois sa­bía­mos o que de­ve­ria acon­te­cer muito em breve. Sua face, que vi­nha ama­re­lada nos úl­ti­mos dias, já descoloria-se numa al­vura sig­ni­fi­ca­tiva. Os apa­re­lhos, e ape­nas os apa­re­lhos, o man­ti­nham vivo, sob uma res­pi­ra­ção lenta e a cada se­gundo mais de­fi­ci­ente. Por um lapso, apa­rei as lá­gri­mas nas cos­tas das mãos, mas logo recompus-me di­ante da­quele ho­mem digno até à beira do úl­timo pre­ci­pí­cio. Permita-me o lei­tor ape­nas uma ob­ser­va­ção: mi­nha co­mo­ção era me­nos pela sua morte, que àquela al­tura agia como um alí­vio, do que com sua so­li­dão. Meu amigo Ilí­dio es­tava mor­rendo sem nin­guém da fa­mí­lia por perto. Confortou-me, na­quela hora, acre­di­tar que eu era sua fa­mí­lia no ins­tante der­ra­deiro.

Dei-lhe a mão, ele mal a se­gu­rou. Que­ria dizer-me algo. Fez si­nal para que a en­fer­meira nos dei­xasse a sós e, em se­guida, com muito es­forço, disse es­tas pa­la­vras: “fui eu, meu caro; fui eu…” Ao pro­fe­rir essa con­fis­são, ne­nhuma lá­grima desceu-lhe dos olhos ba­ços. Era a se­gunda vez em vinte anos que aquele ve­lho se­nhor me sur­pre­en­dia. A pri­meira, no ca­fe­zi­nho, ao cumprimentar-me quase efu­si­va­mente. A se­gunda, ali, em seu leito de morte, ao con­fes­sar um crime de treze anos an­tes. Di­ante de meu em­ba­raço, ele me disse que não ha­via tempo para de­ta­lhes. Seu de­sejo era ape­nas este mesmo: par­tir sem o peso do crime nas cos­tas. Um mi­nuto an­tes de mor­rer, ele espantou-me ainda pela ter­ceira vez: avistou-me com uma ex­pres­são cuja le­veza eu nunca en­con­trara ali, e sor­riu. Foi, en­tão, que in­di­cou, so­bre a mesa da ca­be­ceira, um pe­queno ca­len­dá­rio de bolso. Cu­ri­oso, tomei-o às mãos apres­sa­da­mente, pro­cu­rando com­pre­en­der o quebra-cabeças. O ca­len­dá­rio era de treze anos an­tes, e um cír­culo feito com ca­neta es­fe­ro­grá­fica mar­cava exa­ta­mente o dia xx de fe­ve­reiro, a data do crime co­me­tido por ele. Eu con­ti­nuei, por as­sim di­zer, a ver na­vios, até que meu amigo si­na­li­zou para que eu olhasse o verso do ca­len­dá­rio. E lá, com a le­tra dele, es­tava gra­fado: “fim do ho­rá­rio de ve­rão”. Na­quele dia, to­dos os re­ló­gios fo­ram atra­sa­dos em uma hora. Pasmo, eu não sa­bia o que pen­sar. Quando voltei-me, nosso Dou­tor Tou­rão dor­mia se­reno, para sem­pre é ver­dade, mas muito se­reno.

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