Contos

Cachecol

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018 Texto de

Cru­zou com ele em frente ao Masp. Era um dia frio em que a mai­o­ria das pes­soas ves­tia blu­sas e ja­que­tas. Ele es­tava tam­bém de ca­che­col cuja franja de lã es­cor­re­gou com o vento e lam­beu o om­bro es­querdo de Lu­ci­ana. Do ins­tante em que ela o avis­tou até perdê-lo na li­nha fi­nal do olhar pe­ri­fé­rico, fo­ram ape­nas al­guns se­gun­dos, mas as­sim mesmo reconheceu-o. Não ti­nha como não reconhecê-lo. Seu rosto ainda per­ma­ne­ceu por um bom tempo como uma más­cara en­fi­ada em to­das as ca­be­ças dos pe­des­tres à me­dida que ela avan­çava pela Ave­nida Pau­lista. A sur­presa absorveu-a de tal modo que che­gou ao Me­trô Tri­a­non sem ter pla­ne­jado. Só en­tão lembrou-se do café, lá atrás, onde ti­nha a en­tre­vista de tra­ba­lho. Se­gu­rou a bolsa com força e co­me­çou a fa­zer o ca­mi­nho de volta. A cada passo, vas­cu­lhava an­gus­ti­ada em meio à mul­ti­dão. Não sa­bia ex­pli­car a si mesma o porquê de de­se­jar vê-lo no­va­mente. Era uma sen­sa­ção des­con­for­tá­vel e ao mesmo tempo de um pra­zer bru­tal. Já à mesa, de­pois de cum­pri­men­tar a ge­rente de no­vos ne­gó­cios da em­presa onde pre­ten­dia tra­ba­lhar, abar­cou dis­far­ça­da­mente o en­torno com um rá­pido olhar e, sem qual­quer ex­pec­ta­tiva, deparou-se com o ca­che­col.
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Contos

Índia

terça-feira, 9 de janeiro de 2018 Texto de

Tre­mia feito vara verde. Em­bora nunca ti­vesse pres­tado aten­ção a uma vara verde. Na ver­dade, co­nhe­cia ape­nas va­ras pre­tas. Sor­riu para si mesma com um de­sa­lento mór­bido. Não adi­an­tava fa­zer graça com a pró­pria des­graça. Ca­çoar da gente, como re­cei­tava a avó, para ali­viar a vida. O medo que sen­tia acos­sava sua re­ta­guarda, seus flan­cos, o pró­ximo passo. Vi­nha de to­dos os la­dos. Ela pi­sava com in­se­gu­rança como se cor­resse o risco de de­sa­bar a qual­quer mo­mento, mantinha-se de ca­beça abai­xada, o pró­prio ar pa­re­cia pressioná-la como o bafo de um ini­migo no es­curo. Pen­sa­men­tos ruins iam pas­sando fu­gaz­mente pelo san­gue de Ín­dia. Só que ne­nhum de­les po­dia ser com­pa­rado a esta sen­sa­ção, aqui, no meio da rua. Nem o que sen­tiu na pri­meira vez, quando per­ce­beu to­dos os olha­res em cima dela e de seu corpo, de seu je­ans aper­tado, nem quando teve a cer­teza de sua sorte, nada disso che­gou a incomodá-la como agora. Aos tran­cos e bar­ran­cos for­mu­lou uma tese que lhe pa­re­ceu acei­tá­vel. O medo quando a pe­ga­ram pela pri­meira vez era ape­nas o re­sul­tado de um pro­cesso na­tu­ral de seu co­ti­di­ano. Quase to­das as me­ni­nas que ela co­nhe­cia tam­bém ti­nham sido sub­ju­ga­das. Com raiva, lembrou-se de como de­po­si­tara a des­graça toda na pra­te­leira dos epi­só­dios ba­nais de sua exis­tên­cia.
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Guil­lermo Je­sus pi­sou em Ca­fe­lân­dia numa ma­nhã po­ei­renta de 1926, dia em que a pe­quena ci­dade recém-emancipada co­me­mo­rava a festa de sua pa­dro­eira, Nossa Se­nhora da As­sun­ção. Ha­ve­ria, logo mais à tarde, uma pro­cis­são. Desde a ma­nhã, sob os ro­jões es­po­cando no ar seco de agosto, co­me­ça­vam a che­gar da zona ru­ral pu­nha­dos de si­ti­an­tes e co­lo­nos. O do­mingo pro­me­tia ser su­pimpa, como lem­brou Dona Car­mem Ver­me­lha quase duas dé­ca­das de­pois, em 2 de se­tem­bro de 1945, tam­bém um do­mingo, oca­si­o­nal­mente mar­cado pelo fim da Se­gunda Guerra Mun­dial. Ela se ani­mava en­tão a con­tar a um enig­má­tico fre­guês os acon­te­ci­men­tos da­quele lon­gín­quo e fa­tí­dico dia em que tudo se pas­sou exa­ta­mente aqui, disse ela, den­tro des­tas mes­mas pa­re­des.
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Crônicas

O graal e meus cachorros

sexta-feira, 2 de junho de 2017 Texto de

Blog graal e meus cachorros

Eu te­nho medo de que me falte o prin­ci­pal: o tempo.

É aquela sen­sa­ção amarga da in­cer­teza. Por­que o de­pois é algo ab­so­lu­ta­mente im­pre­vi­sí­vel. Sua face é inal­can­çá­vel, sem­pre. En­tão, so­bra a esse res­peito ape­nas um va­zio incô­modo. O abismo as­sus­ta­dor en­tre In­di­ana Jo­nes e o graal. Con­ve­nha­mos, to­dos de­ve­mos so­nhar com nosso graal, in­de­pen­den­te­mente do qui­late de seu me­tal ou da no­breza de sua ma­deira. Ele pre­cisa es­tar lá, mesmo dis­tante e pro­te­gido pelo grande vá­cuo, mesmo sendo às ve­zes quase ina­ces­sí­vel, ele pre­cisa es­tar lá, pois ine­vi­ta­vel­mente sem­pre va­mos para lá.
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Moro num bairro rico de São Paulo. Por conta da lo­ca­li­za­ção do es­cri­tó­rio de tra­ba­lho, re­solvi pa­gar um alu­guel mais caro e fi­car bem perto. Em com­pen­sa­ção, eco­no­mi­zei em ou­tros gas­tos com lo­co­mo­ção. E, claro, com saúde. Su­por­tar o trân­sito di­a­ri­a­mente por aqui é ar­ris­car co­ra­ção, fí­gado etc. Faz 21 me­ses que vim pra cá. E uma das coi­sas mais per­cep­tí­veis nas ruas é o ver­ti­gi­noso cres­ci­mento de uma po­pu­la­ção in­vi­sí­vel para os car­ni­cei­ros que co­man­dam o país: pe­din­tes, de­sem­pre­ga­dos, mo­ra­do­res de rua.
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Contos

Vítimas do trem noturno

domingo, 22 de maio de 2016 Texto de

Só mais dez mi­nu­tos, eu disse bai­xi­nho sem quase mo­ver os lá­bios para que eles não me ou­vis­sem. Ape­sar de tudo, eu ten­tava mos­trar na­tu­ra­li­dade. Ju­li­ana aper­tava tão forte mi­nha mão que che­gava doer.
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Crônicas

Das 20h às 23h28

quinta-feira, 17 de março de 2016 Texto de

Chupa, Lula! Às oito ho­ras, gri­ta­ram lá em­baixo no mo­mento em que fe­chei o vi­dro do nono, pen­du­rei a bolsa no om­bro di­reito (pro­ce­di­mento que se não me en­gano está co­me­çando a me dar dor nas cos­tas) e desci a pé os quase du­zen­tos de­graus (ali­via um pouco o peso da cons­ci­ên­cia), dei boa noite ao guarda-noturno que sem­pre me diz bom des­canso pro se­nhor (pro se­nhor!), ga­nhei a cal­çada e dei de cara com dois ca­ras, um ne­gro alto e um branco baixo, am­bos pa­ra­dos ou­vindo algo no ce­lu­lar, que logo per­cebi como sendo a tal gra­va­ção Lula/Dilma.
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Contos

O viúvo influenciável e a puta velha de García Márquez

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016 Texto de

Leu o conto de Gar­cía Már­quez so­bre a puta ve­lha que treina o ca­chor­ri­nho para cho­rar em seu tú­mulo por­que acha que vai mor­rer, e na­quela mesma noite so­nhou com uma im­pres­si­o­nante tris­teza ja­mais sen­tida. Es­tava em pé num lu­gar in­certo e va­zio, cer­cado pela es­cu­ri­dão, de onde ou­via la­ti­dos va­gos que ima­gi­nava ser do cão­zi­nho vira-lata com quem ha­via dez anos di­vi­dia seu apar­ta­mento de viúvo. In­flu­en­ciá­vel que era, acor­dou certo de sua pró­pria morte.
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Crônicas

Personagens de Natal

domingo, 13 de dezembro de 2015 Texto de

Meus per­so­na­gens são tão sin­ge­los que dá até ver­go­nha.
Um é uma ca­de­li­nha vira-lata. Ou­tro é uma mu­lher que não co­nheço. Os dois, a esmo, eu os en­con­trei na rua. Rua Ta­ba­puã.
Disse-me ela, de ca­be­los des­gre­nha­dos: so­mos só eu e ela.
Eu pa­rei.
Es­cu­re­cia e ga­ro­ava às cinco e pouco. São Paulo ga­roa a toda hora.
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Impressões

Sobre Mariana e Paris

sábado, 14 de novembro de 2015 Texto de

Des­cas­cá­va­mos as la­ran­jas miú­das e do­ces, e as cas­cas des­pren­dendo sumo que im­preg­nava as mãos e os bra­ços caíam so­bre o ca­pim, onde aos pou­cos, e com o pas­sar dos dias, misturavam-se ao solo, tal­vez ali­men­tando suas raí­zes ou ape­nas fundindo-se na­tu­ral­mente com a his­tó­ria de seu bi­oma, por as­sim di­zer, num sexo ele­men­tar em que a terra ime­mo­rial pe­ne­tra o ve­ge­tal úmido, ou vice-versa, tanto faz
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