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Guil­lermo Je­sus pi­sou em Ca­fe­lân­dia numa ma­nhã po­ei­renta de 1926, dia em que a pe­quena ci­dade recém-emancipada co­me­mo­rava a festa de sua pa­dro­eira, Nossa Se­nhora da As­sun­ção. Ha­ve­ria, logo mais à tarde, uma pro­cis­são. Desde a ma­nhã, sob os ro­jões es­po­cando no ar seco de agosto, co­me­ça­vam a che­gar da zona ru­ral pu­nha­dos de si­ti­an­tes e co­lo­nos. O do­mingo pro­me­tia ser su­pimpa, como lem­brou Dona Car­mem Ver­me­lha quase duas dé­ca­das de­pois, em 2 de se­tem­bro de 1945, tam­bém um do­mingo, oca­si­o­nal­mente mar­cado pelo fim da Se­gunda Guerra Mun­dial. Ela se ani­mava en­tão a con­tar a um enig­má­tico fre­guês os acon­te­ci­men­tos da­quele lon­gín­quo e fa­tí­dico dia em que tudo se pas­sou exa­ta­mente aqui, disse ela, den­tro des­tas mes­mas pa­re­des.
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Crônicas

O graal e meus cachorros

sexta-feira, 2 de junho de 2017 Texto de

Blog graal e meus cachorros

Eu te­nho medo de que me falte o prin­ci­pal: o tempo.

É aquela sen­sa­ção amarga da in­cer­teza. Por­que o de­pois é algo ab­so­lu­ta­mente im­pre­vi­sí­vel. Sua face é inal­can­çá­vel, sem­pre. En­tão, so­bra a esse res­peito ape­nas um va­zio incô­modo. O abismo as­sus­ta­dor en­tre In­di­ana Jo­nes e o graal. Con­ve­nha­mos, to­dos de­ve­mos so­nhar com nosso graal, in­de­pen­den­te­mente do qui­late de seu me­tal ou da no­breza de sua ma­deira. Ele pre­cisa es­tar lá, mesmo dis­tante e pro­te­gido pelo grande vá­cuo, mesmo sendo às ve­zes quase ina­ces­sí­vel, ele pre­cisa es­tar lá, pois ine­vi­ta­vel­mente sem­pre va­mos para lá.
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Moro num bairro rico de São Paulo. Por conta da lo­ca­li­za­ção do es­cri­tó­rio de tra­ba­lho, re­solvi pa­gar um alu­guel mais caro e fi­car bem perto. Em com­pen­sa­ção, eco­no­mi­zei em ou­tros gas­tos com lo­co­mo­ção. E, claro, com saúde. Su­por­tar o trân­sito di­a­ri­a­mente por aqui é ar­ris­car co­ra­ção, fí­gado etc. Faz 21 me­ses que vim pra cá. E uma das coi­sas mais per­cep­tí­veis nas ruas é o ver­ti­gi­noso cres­ci­mento de uma po­pu­la­ção in­vi­sí­vel para os car­ni­cei­ros que co­man­dam o país: pe­din­tes, de­sem­pre­ga­dos, mo­ra­do­res de rua.
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Contos

Vítimas do trem noturno

domingo, 22 de maio de 2016 Texto de

Só mais dez mi­nu­tos, eu disse bai­xi­nho sem quase mo­ver os lá­bios para que eles não me ou­vis­sem. Ape­sar de tudo, eu ten­tava mos­trar na­tu­ra­li­dade. Ju­li­ana aper­tava tão forte mi­nha mão que che­gava doer.
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Crônicas

Das 20h às 23h28

quinta-feira, 17 de março de 2016 Texto de

Chupa, Lula! Às oito ho­ras, gri­ta­ram lá em­baixo no mo­mento em que fe­chei o vi­dro do nono, pen­du­rei a bolsa no om­bro di­reito (pro­ce­di­mento que se não me en­gano está co­me­çando a me dar dor nas cos­tas) e desci a pé os quase du­zen­tos de­graus (ali­via um pouco o peso da cons­ci­ên­cia), dei boa noite ao guarda-noturno que sem­pre me diz bom des­canso pro se­nhor (pro se­nhor!), ga­nhei a cal­çada e dei de cara com dois ca­ras, um ne­gro alto e um branco baixo, am­bos pa­ra­dos ou­vindo algo no ce­lu­lar, que logo per­cebi como sendo a tal gra­va­ção Lula/Dilma.
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Contos

O viúvo influenciável e a puta velha de García Márquez

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016 Texto de

Leu o conto de Gar­cía Már­quez so­bre a puta ve­lha que treina o ca­chor­ri­nho para cho­rar em seu tú­mulo por­que acha que vai mor­rer, e na­quela mesma noite so­nhou com uma im­pres­si­o­nante tris­teza ja­mais sen­tida. Es­tava em pé num lu­gar in­certo e va­zio, cer­cado pela es­cu­ri­dão, de onde ou­via la­ti­dos va­gos que ima­gi­nava ser do cão­zi­nho vira-lata com quem ha­via dez anos di­vi­dia seu apar­ta­mento de viúvo. In­flu­en­ciá­vel que era, acor­dou certo de sua pró­pria morte.
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Crônicas

Personagens de Natal

domingo, 13 de dezembro de 2015 Texto de

Meus per­so­na­gens são tão sin­ge­los que dá até ver­go­nha.
Um é uma ca­de­li­nha vira-lata. Ou­tro é uma mu­lher que não co­nheço. Os dois, a esmo, eu os en­con­trei na rua. Rua Ta­ba­puã.
Disse-me ela, de ca­be­los des­gre­nha­dos: so­mos só eu e ela.
Eu pa­rei.
Es­cu­re­cia e ga­ro­ava às cinco e pouco. São Paulo ga­roa a toda hora.
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Impressões

Sobre Mariana e Paris

sábado, 14 de novembro de 2015 Texto de

Des­cas­cá­va­mos as la­ran­jas miú­das e do­ces, e as cas­cas des­pren­dendo sumo que im­preg­nava as mãos e os bra­ços caíam so­bre o ca­pim, onde aos pou­cos, e com o pas­sar dos dias, misturavam-se ao solo, tal­vez ali­men­tando suas raí­zes ou ape­nas fundindo-se na­tu­ral­mente com a his­tó­ria de seu bi­oma, por as­sim di­zer, num sexo ele­men­tar em que a terra ime­mo­rial pe­ne­tra o ve­ge­tal úmido, ou vice-versa, tanto faz
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Crônicas

Observatório do impossível

quarta-feira, 14 de outubro de 2015 Texto de

Daguerreótipo de 1841 C: Divulgação

É no mí­nimo es­tra­nha a sen­sa­ção de olhar para si mesmo de fora, como se você fi­zesse parte da lista de per­so­na­gens de um re­lato de fic­ção, como se você, por me­nos im­por­tante que te­nha sido seu pró­prio pas­sado, pu­desse bis­bi­lho­tar seu pró­prio pas­sado, pu­desse bisbilhotá-lo atra­vés do olhar de um ter­ceiro.
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Crônicas

Show particular

terça-feira, 6 de outubro de 2015 Texto de

Pen­sou as­sim: como é que pode al­guém di­zer tanta coisa bo­nita? Ah, a de­si­gual­dade é real, e como é! Per­ce­beu que ele aper­tava sua mão e aos pou­cos a le­vava para pou­sar so­bre sua coxa es­querda, sen­tiu aquele ar­re­pio de sem­pre na nuca, um ar­re­pio que, feito có­lica de rim, você não sabe di­reito onde está, sabe? Toma você in­teira, não dá tempo de con­cluir so­bre ori­gens e con­sequên­cias, é só mesmo o rom­pante do fenô­meno. E pronto. Pra que ex­pli­car?
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