Contos

O criador de tudo

terça-feira, 4 de setembro de 2018 Texto de

“Las manos del terror”. do pintor Oswaldo Guayasamín

“Eu criei tudo”, respondeu o Doutor Cavablanco à medida que erguia o braço direito e com um movimento rápido abarcava todo o ambiente em torno de si, “mas qualquer um poderia ter feito o mesmo”.

“Até certo ponto”, ressalvou o jornalista, entregando-se a uma fraqueza de espírito momentânea cuja origem dava-se naquele projeto comum a muitos profissionais do ramo dispostos a conquistar o entrevistado com uma bajulaçãozinha aparentemente graciosa. "Nem todos têm um conhecimento amplo como o senhor", completou enquanto deteve ainda no início um sorriso irônico de cujo resultado ele mesmo duvidou a tempo.

"Mas a criação nem sempre exige um conhecimento amplo", observou o Doutor Cavablanco, com uma ponta de suspense salpicado nos pequenos vazios entre as palavras.
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Véspera

terça-feira, 28 de agosto de 2018 Texto de

Dez anos haviam se passado e ela ainda sentia-se constrangida ao falar sobre o assunto. Na verdade, não apenas ela, mas todos de seu círculo mais íntimo, pois eles sabiam, ou pelo menos imaginavam, como fora difícil. Marianinha ainda não tinha seios quando, categórico, o professor de balé projetou seu futuro: uma joia a ser lapidada. O corpo esguio, a agilidade dos movimentos, a postura elegante, a capacidade de absorver as técnicas, tudo se encaixava sob a perspectiva expressada com euforia contida pelo veterano de dança clássica. "Além do mais, é ambiciosa e de uma disciplina infalível", disse confiante aos pais da aluna quando os chamou para inscrevê-la no concurso internacional. "Tem grandes possibilidades", animou-se quanto a vencer ou perder. "De todo modo, é bagagem que não se extraviará", sorriu com imenso carinho, de modo que ali mesmo recebeu a autorização para as providências formais.
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Transtorno

segunda-feira, 20 de agosto de 2018 Texto de

Sentiu dois fios líquidos descerem até o canto dos lábios. Resolveu parar. Entrou na primeira porta que viu, um bar espremido entre dois prédios antigos em cujas calçadas havia pelo menos três moradores de rua dormindo sob uma tralha indefinível de cobertores, roupas e até panelas. Estava perfeitamente consciente, mas não fazia ideia de como viera parar ali. Na semiescuridão do ambiente, além do balcão instalado ao longo de toda a parede do lado direito, viu quatro mesas à esquerda, todas ocupadas por um estranho emaranhado de figuras que ele não definiu se eram corpos, gravuras ou sombras. O lugar desenhava-se num L, contornando o balcão, onde um velho e uma garota com trapos sebosos nos ombros ocupavam-se entre copos e garrafas. Sentou-se aos fundos e tentou restabelecer o processo respiratório enquanto certificava-se de que havia perdido, além do rumo, o celular.
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As vozes

terça-feira, 14 de agosto de 2018 Texto de

Depois de tudo, parecia fácil deduzir o desfecho, como num enigma onde as respostas escondem-se em névoa, embora estejam tão claras diante dos olhos. De fato, haviam restado algumas dúvidas intrigantes, mas afeitas apenas ao caráter fenomenológico das coisas. Essas impressões, no entanto, não seriam tão simples para quem acompanhasse o caso ao vivo, por assim dizer. Por exemplo: ao contrário do que geralmente move uma investigação, a pergunta que poderia ter sido feita no decorrer dos acontecimentos não era quem matou, mas quem iria morrer. Quando os policiais encontraram o corpo da vítima, claro que adotaram todos os procedimentos normais, inclusive a busca por impressões digitais. Mas o resultado foi bastante constrangedor. Ao menos até que o Doutor Cavablanco entrasse em cena e, diante das evidências, desse seu veredito: "Na verdade, não sei se esse caso pode ser esclarecido".
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Borboleta

terça-feira, 7 de agosto de 2018 Texto de

I
Egídio olhou demoradamente para a frase em letras garrafais do cartaz colado à parede, bem ao lado do balcão onde a atendente havia anotado seus dados: “Bullying, essa brincadeira mata!”. Na mesma hora decidiu grafitar sobre o tema. A ideia caiu-lhe inteira, de uma vez só: o muro, as cores, o movimento, uma borboleta rajada vítima da pecha do mau agouro, dessas enormes, levando uma cruel vassourada. Quase se levantou e correu pegar o spray, chegou mesmo a iniciar o movimento do corpo, mas conseguiu controlar-se a tempo. Vinha melhorando aos poucos nesse aspecto, a ansiedade brutal que o levava a atos inconsequentes vencia-o agora apenas em momentos extremos, e mesmo assim ele passara a ter consciência de sua fraqueza ocasional e imediatamente dispunha-se a combatê-la mentalmente.
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Depois do jantar

quarta-feira, 18 de abril de 2018 Texto de

“Quando eu falava dessas cores mórbidas
Quando eu falava desses homens sórdidos
Quando eu falava deste temporal
Você não escutou
Você não quer acreditar, mas isto é tão normal”

(Trecho de "Paisagem na janela", de Lô Borges e Fernando Brant)

“E sua irmã?”, perguntou o pai. Não tirou os olhos do prato.

Miriam apenas balançou a cabeça negativamente. Arrastava o garfo para lá e para cá em meio ao arroz.

“Você sabe para que é seu celular, não sabe?”

“Sei”, mastigou a comida sem perceber. Concentrava-se para pensar em coisas distantes que lhe exigissem toda a capacidade de abstração. Naquele momento esculpia pedras flutuantes no espaço sideral.

“Deixa ver.”

Miriam empurrou o aparelho até bem perto dele. O pó das rochas zanzava na escuridão. Refletia vagos brilhos estelares. Desenhos de todos os tipos.

“Quem é Silvinho?”

“Trabalho de escola, tá escrito aí.”

O homem olhou para Miriam por alguns segundos. Depois correu os olhos pelas mensagens.

“Não me esconda nada”, ele voltou a comer em silêncio.

Miriam puxou o telefone de volta. A rocha transformara-se num pequeno amuleto. Mas desapareceu quando, sem querer, ela viu um grão de arroz dançando por entre os fios do bigode do pai. Teve nojo.
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Cavalo Branco

terça-feira, 20 de março de 2018 Texto de

Trouxeram-lhe a bebida, mas Natália mal notou. Estava tão absorta pelo ambiente e, claro, pela música, que disse “obrigada” quando o garçom já tinha desaparecido. Observou com curiosidade as silhuetas dançantes sob as poucas luzes instaladas próximas ao teto elevado e estiloso, cujas telhas francesas entremeadas por algumas de vidro filtravam um pouco da claridade externa, às vezes até mesmo a lua alta e cheia. Tudo parecia como antes, pensou ao dar uma olhada geral pelas dependências. Talvez a maior diferença estivesse situada nela própria, rodou o copo entre as mãos com uma mistura de nostalgia e apreensão. Queria evitar uma comoção estúpida, mas ao mesmo tempo sentia o peito contrair-se, o coração batia levemente descompassado à medida que sua respiração oscilava. Molhou os lábios com a esperança de resgatar a estabilidade emocional, mas o máximo que conseguiu foi sentir o álcool queimar a garganta, depois um calorzinho entusiasmou-a momentaneamente. Perguntou-se se teria tomado a decisão certa. Virou um trago e tentou avistar o palco. Sentara-se bem lá atrás, o velho bar estava lotado e muita gente dançava na pista e entre as mesas.
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Hipóteses

quinta-feira, 15 de março de 2018 Texto de

Deitado de costas, viu que, no meio do céu, a lua fatiava-se em duas conforme o movimento das pálpebras, às vezes ganhava uma coloração âmbar, depois empalidecia atrás de uma membrana oscilante. Virou a cabeça para seu lado esquerdo, de onde vinha um som de respiração lenta e pesada, mas estava escuro demais, além do que suas forças não inspiravam grandes projetos físicos. Sentia uma tontura extenuante, era difícil manter o mundo em ordem. Fechou os olhos e tentou por algum tempo entregar-se a uma imobilidade absoluta, interrompida apenas por espasmos dos membros. O plano beirava a algo infantil, mas sua condição deplorável limitava-o a esse estágio do pensamento, nesse caso a esperança, logo tornada vã, de despertar de um pesadelo qualquer. Ao certificar-se resignado de seu estado de vigília, empreendeu um movimento cauteloso, esticou o braço esquerdo até onde pôde no rumo da respiração ofegante. Na verdade, era nada mais que o resultado do vento rodopiando sobre um tecido que ele reconheceu como sendo o próprio casaco embolado no chão. Com o mesmo cuidado, recolheu o braço sobre o peito, puxando junto o casaco, e então o ruído dissipou-se e tornou-o único na imensidão escura.
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Arrebentação

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018 Texto de

Murilo trabalha numa multinacional de respeito. Nos últimos anos, para atender às novas exigências de mercado, uma moderna gestão reduziu os quadros da empresa e implantou o que, nas reuniões, os executivos chamaram de mecanismos inéditos de produção sob a chancela de uma revolucionária metodologia baseada em parâmetros de grandes conglomerados chineses. Claro que, no fim das contas, cresceram as exigências por mais empenho e comprometimento dos colaboradores (termo sub-reptício empregado para amenizar as disparidades socioeconômicas entre os que mandam e os que obedecem, igualando-os fantasiosamente dentro da engrenagem profissional, segundo explicou Murilo a amigos num tom entre divertido e resignado, já com os lábios entorpecidos pelo uísque semanal).
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A casa de Montevidéu

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018 Texto de

Desligou o celular depois de ter visto as horas. Onze e meia. Queria andar um pouco na região do hotel. Fazia uma noite bonita embora ele não soubesse de onde vinha o encanto. Nunca tinha ido a Montevidéu, e parecia-lhe uma grande chatice participar apenas dos passeios programados. Buscava um pouco de liberdade. Talvez na manhã seguinte nem fosse atravessar o Prata com os outros até Buenos Aires. De que iria valer a curta viagem ao sul se não conseguisse desligar-se de seu cotidiano?
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