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Fui eu – Texto de Otávio Nunes

quarta-feira, 10 de setembro de 2008 Texto de

Es­tava eu a co­mer um pas­tel na feira de do­mingo, des­tes enor­mes que nos fa­zem al­mo­çar às qua­tro da tarde, quando um ho­mem pas­sou por mim e deu-me um pa­pel­zi­nho. Um san­ti­nho de can­di­dato. Quando ia jo­gar no lixo, re­pa­rei que a foto no pa­pel era a do pró­prio ho­mem que en­tre­gava. Era ele o can­di­dato. Nunca ti­nha me acon­te­cido isto an­tes e acre­dito que a pou­cos na ci­dade. Ge­ral­mente, a gente pega san­ti­nhos
das mãos de pes­soas que tra­ba­lham para o po­lí­tico. Mas, das mãos do pró­prio, era no­vi­dade.

Corri atrás dele e per­gun­tei se era ele mesmo o pos­tu­lante a um cargo em nossa câ­mara mu­ni­ci­pal. O ho­mem abriu um sor­riso e disse que sim. En­tão, questionei-lhe so­bre o inu­si­tado. Ele me disse que per­ten­cia a
um pe­queno par­tido po­lí­tico, que, como ele, pela pri­meira vez con­cor­ria às elei­ções. Não ti­nham di­nheiro. Cada can­di­dato ti­nha de se vi­rar so­zi­nho.

Ele me con­tou que ti­nha mui­tas pro­pos­tas para apre­sen­tar às pes­soas. No en­tanto, não ca­biam no pe­queno san­ti­nho. “Só deu pra co­lo­car mi­nha foto, meu nome, meu nú­mero e esta frase aqui: ‘con­tem co­migo’ “. Dito
isso, su­miu na mul­ti­dão es­ten­dendo a mão e os san­ti­nhos, que as pes­soas jo­ga­vam fora, sem ao me­nos ler.

Umas se­ma­nas de­pois das elei­ções en­con­trei o ho­mem no­va­mente na feira. Desta feita, es­tava com­prando um quilo de ba­ta­tas. Perguntei-lhe se ti­nha sido eleito. Con­tra­ri­ado, ele disse que não, mas que ia se
pre­pa­rar me­lhor para o pró­ximo pleito.

-“Puxa vida, vo­tei no se­nhor, pen­sando que se­ria eleito”, disse-lhe.

-“Muito obri­gado, meu fi­lho. En­tão, foi você?”

E-mail: otanunes@gmail.com « vol­tar

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