Crônicas

O graal e meus cachorros

sexta-feira, 2 de junho de 2017 Texto de

Blog graal e meus cachorros

Eu te­nho me­do de que me fal­te o prin­ci­pal: o tem­po.

É aque­la sen­sa­ção amar­ga da in­cer­te­za. Por­que o de­pois é al­go ab­so­lu­ta­men­te im­pre­vi­sí­vel. Sua fa­ce é inal­can­çá­vel, sem­pre. En­tão, so­bra a es­se res­pei­to ape­nas um va­zio incô­mo­do. O abis­mo as­sus­ta­dor en­tre In­di­a­na Jo­nes e o gra­al. Con­ve­nha­mos, to­dos de­ve­mos so­nhar com nos­so gra­al, in­de­pen­den­te­men­te do qui­la­te de seu me­tal ou da no­bre­za de sua ma­dei­ra. Ele pre­ci­sa es­tar lá, mes­mo dis­tan­te e pro­te­gi­do pe­lo gran­de vá­cuo, mes­mo sen­do às ve­zes qua­se ina­ces­sí­vel, ele pre­ci­sa es­tar lá, pois ine­vi­ta­vel­men­te sem­pre va­mos pa­ra lá.
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Mo­ro num bair­ro ri­co de São Pau­lo. Por con­ta da lo­ca­li­za­ção do es­cri­tó­rio de tra­ba­lho, re­sol­vi pa­gar um alu­guel mais ca­ro e fi­car bem per­to. Em com­pen­sa­ção, eco­no­mi­zei em ou­tros gas­tos com lo­co­mo­ção. E, cla­ro, com saú­de. Su­por­tar o trân­si­to di­a­ri­a­men­te por aqui é ar­ris­car co­ra­ção, fí­ga­do etc. Faz 21 me­ses que vim pra cá. E uma das coi­sas mais per­cep­tí­veis nas ru­as é o ver­ti­gi­no­so cres­ci­men­to de uma po­pu­la­ção in­vi­sí­vel pa­ra os car­ni­cei­ros que co­man­dam o país: pe­din­tes, de­sem­pre­ga­dos, mo­ra­do­res de rua.
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Crônicas

Das 20h às 23h28

quinta-feira, 17 de março de 2016 Texto de

Chu­pa, Lu­la! Às oi­to ho­ras, gri­ta­ram lá em­bai­xo no mo­men­to em que fe­chei o vi­dro do no­no, pen­du­rei a bol­sa no om­bro di­rei­to (pro­ce­di­men­to que se não me en­ga­no es­tá co­me­çan­do a me dar dor nas cos­tas) e des­ci a pé os qua­se du­zen­tos de­graus (ali­via um pou­co o pe­so da cons­ci­ên­cia), dei boa noi­te ao guar­da-no­tur­no que sem­pre me diz bom des­can­so pro se­nhor (pro se­nhor!), ga­nhei a cal­ça­da e dei de ca­ra com dois ca­ras, um ne­gro al­to e um bran­co bai­xo, am­bos pa­ra­dos ou­vin­do al­go no ce­lu­lar, que lo­go per­ce­bi co­mo sen­do a tal gra­va­ção Lula/Dilma.
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Personagens de Natal

domingo, 13 de dezembro de 2015 Texto de

Meus per­so­na­gens são tão sin­ge­los que dá até ver­go­nha.
Um é uma ca­de­li­nha vi­ra-la­ta. Ou­tro é uma mu­lher que não co­nhe­ço. Os dois, a es­mo, eu os en­con­trei na rua. Rua Ta­ba­puã.
Dis­se-me ela, de ca­be­los des­gre­nha­dos: so­mos só eu e ela.
Eu pa­rei.
Es­cu­re­cia e ga­ro­a­va às cin­co e pou­co. São Pau­lo ga­roa a to­da ho­ra.
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Observatório do impossível

quarta-feira, 14 de outubro de 2015 Texto de

Daguerreótipo de 1841 C: Divulgação

É no mí­ni­mo es­tra­nha a sen­sa­ção de olhar pa­ra si mes­mo de fo­ra, co­mo se vo­cê fi­zes­se par­te da lis­ta de per­so­na­gens de um re­la­to de fic­ção, co­mo se vo­cê, por me­nos im­por­tan­te que te­nha si­do seu pró­prio pas­sa­do, pu­des­se bis­bi­lho­tar seu pró­prio pas­sa­do, pu­des­se bis­bi­lho­tá-lo atra­vés do olhar de um ter­cei­ro.
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Show particular

terça-feira, 6 de outubro de 2015 Texto de

Pen­sou as­sim: co­mo é que po­de al­guém di­zer tan­ta coi­sa bo­ni­ta? Ah, a de­si­gual­da­de é re­al, e co­mo é! Per­ce­beu que ele aper­ta­va sua mão e aos pou­cos a le­va­va pa­ra pou­sar so­bre sua co­xa es­quer­da, sen­tiu aque­le ar­re­pio de sem­pre na nu­ca, um ar­re­pio que, fei­to có­li­ca de rim, vo­cê não sa­be di­rei­to on­de es­tá, sa­be? To­ma vo­cê in­tei­ra, não dá tem­po de con­cluir so­bre ori­gens e con­sequên­ci­as, é só mes­mo o rom­pan­te do fenô­me­no. E pron­to. Pra que ex­pli­car?
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Vivendo e (não) aprendendo a jogar

sábado, 1 de agosto de 2015 Texto de

macaco pensando

Es­tou apren­den­do a an­dar de me­trô em São Pau­lo.

Já sei que, ao su­bir a es­ca­da ro­lan­te, de­vo fi­car à di­rei­ta, per­mi­tin­do as­sim a pas­sa­gem pe­la es­quer­da de quem es­tá com pres­sa. Mi­nha fi­lha me en­si­nou na se­ma­na pas­sa­da. Aliás, dei­xar se con­du­zir, pre­gui­ço­sa­men­te, por al­guém (no meu ca­so, pe­la mi­nha fi­lha) tem seu pre­ço. Pa­guei ho­je. Ver­go­nho­sa­men­te, não sa­bia on­de en­fi­ar o bi­lhe­te na ca­tra­ca. Sor­te que bem atrás vi­nha uma mo­ça sim­pá­ti­ca e me mos­trou (cla­ro, de­ve ter pen­sa­do Que ba­ba­ca ou al­go as­sim).
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Um inesperado (e misterioso) reencontro

quarta-feira, 29 de julho de 2015 Texto de

Moça de chapéu preto

Eu sin­ce­ra­men­te nem lem­bra­va mais.

Uma noi­te, tal­vez uns dez anos atrás, fui trans­por­ta­do pa­ra um po­vo­a­do dis­tan­te. As ca­sas ti­nham te­lha­dos com ex­ten­sas caí­das, co­mo em cha­lés de in­ver­no, as ru­as eram es­trei­tas e o cal­ça­men­to, rús­ti­co. Di­an­te de uma das ha­bi­ta­ções, pes­so­as se aglo­me­ra­vam e fa­zi­am ges­tos cau­te­lo­sos, as vo­zes não pas­sa­vam de co­chi­chos, tal­vez as­sus­ta­dos, ao me­nos era es­sa a im­pres­são que eu ti­nha no so­nho.

Com pas­sos len­tos e he­si­tan­tes, eu me apro­xi­mei e me en­fi­ei en­tre a pe­que­na mul­ti­dão.
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To indo embora

segunda-feira, 16 de março de 2015 Texto de

Quan­do eu sair na Ron­don – acho que de­pois do Tre­vo da Eny, e de­pois tam­bém do Ala­me­da, acho que na­que­la des­ci­da on­de a gen­te qua­se se sen­te um pás­sa­ro, tal­vez por lá –, vou pre­ci­sar pen­sar em coi­sas ma­lu­cas, coi­sas cu­ri­o­sas, en­gra­ça­das, im­pos­sí­veis, sur­re­ais; afas­tar pen­sa­men­tos que me jo­guem nos bra­ços das lem­bran­ças; ten­tar a cri­a­ção de um va­zio mo­men­tâ­neo que pos­sa me sal­var do mer­gu­lho; vou pre­ci­sar men­tir pra mim mes­mo
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Renascidos do inferno

terça-feira, 3 de março de 2015 Texto de

O con­fron­to en­tre dois Bra­sis - o que gos­ta­ria de se ver li­vre de Dil­ma e do PT e o que a ele­geu e ain­da acre­di­ta na pre­si­den­te e na es­tru­tu­ra po­lí­ti­ca que a sus­ten­ta - faz bor­bu­lhar nes­te mo­men­to a ig­no­rân­cia que ge­ral­men­te per­ma­ne­ce en­co­ber­ta pe­la omis­são nas­ci­da de re­cei­os, as bra­va­tas sem sen­ti­do de gen­te de­sa­cos­tu­ma­da a dis­cu­tir po­lí­ti­ca, os ran­co­res for­mu­la­dos a par­tir de ba­ses frou­xas e os ódi­os ra­sos qua­se sem­pre ob­ti­dos pe­la fal­ta de ar­gu­men­tos. Tu­do is­so é ver­da­de, mas há al­go mais im­por­tan­te acon­te­cen­do: fi­nal­men­te abri­mos, em meio ao tor­por do fu­te­bol e de to­das as ba­na­li­da­des de nos­so co­ti­di­a­no, uma pe­que­na fres­ta pa­ra olhar o que re­al­men­te im­por­ta.
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