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Obrigada, poeta

sexta-feira, 19 de setembro de 2008 Texto de


Às ve­zes acon­tece. Você pre­cisa de­sa­ba­far, con­ver­sar, tro­car umas fi­gu­ri­nhas, e aque­les que es­tão sem­pre pre­sen­tes pro que der e vier não es­tão dis­po­ní­veis na­quele exato mo­mento, por uma ra­zão qual­quer. Numa des­sas ve­zes, ape­lei para ele. Que está sem­pre lá, sen­tado no mesmo banco da praia de Co­pa­ca­bana, de per­nas cru­za­das, um li­vro no colo e aquele ar meio sé­rio, meio pen­sa­tivo, como es­pe­rando que al­guém se sente a seu lado. E foi o que eu fiz. Sentei-me ali, pus meu braço no om­bro dele e co­me­cei a con­ver­sar. Só não digo que co­me­cei a “nossa” con­versa, por­que fa­lei muito mais do que ele, que só ou­via, e às ve­zes – juro! – es­bo­çava um sor­ri­si­nho com­pla­cente.

Pois é, po­eta. Acho que es­tou me ali­e­nando. As­sumo que me aves­tru­zei de vez. Há muito pa­rei de ler os pri­mei­ros ca­der­nos dos jor­nais, há al­guns anos não vejo mais aquele te­le­jor­nal fa­moso e deixo que as no­tí­cias che­guem a mim pelo rá­dio, di­luí­das em en­tre­vis­tas e co­men­tá­rios. A alma eu ali­mento com li­te­ra­tura, mú­sica e informando-me so­bre ci­nema, ex­po­si­ções, te­a­tro e balé. É tão mais gra­ti­fi­cante, po­eta. Ora, ima­gina se você não sabe disso… (nessa hora ele deu um li­gei­rís­simo sor­riso, tão leve, que ali em volta só eu per­cebi). O fato é que eu es­tava ter­mi­nando a lei­tura dos jor­nais tão pre­o­cu­pada e re­vol­tada, que a saúde co­me­çou a re­cla­mar. Pode isso, po­eta? É nor­mal al­guém sen­tir ta­qui­car­dia de­pois de ler as no­tí­cias do dia? Se pelo me­nos o co­ra­ção dis­pa­rasse por pai­xão, se­ria até gos­toso. Mas por de­ses­pero e im­po­tên­cia…?

A tal da mi­nha aves­tru­za­ção não é uma es­co­lha lá muito co­e­rente para al­guém que sem­pre leu e se in­for­mou, que gos­tava de acom­pa­nhar as no­tí­cias, con­ver­sar so­bre elas com as fi­lhas, os alu­nos e os ami­gos. Mas sabe o que é, po­eta? Não es­tava mais dando pra ler so­bre ido­sos mor­rendo todo dia em fi­las de hos­pi­tais pú­bli­cos, so­bre ci­da­dãos nem um pouco con­fiá­veis con­se­guindo habeas-corpus como al­face em hora de xepa para se sa­far das res­pon­sa­bi­li­da­des, so­bre de­sas­tres no meio am­bi­ente, evi­tá­veis e sem­pre re­pe­ti­dos por­que não dão em nada e vão con­ti­nuar acon­te­cendo, e tan­tos ou­tros fa­tos igual­mente re­vol­tan­tes. Acre­dita que até o di­nheiro ofi­cial da me­renda es­co­lar volta e meia fi­nan­cia sen­ten­ças de juí­zes, vi­a­gens e pis­ci­nas par­ti­cu­la­res? Ler isso todo dia não deu pra se­gu­rar. Você se­gu­ra­ria, po­eta? (Dessa vez ele não mo­veu um só mús­culo. Pa­re­cia ainda mais mer­gu­lhado em seus pen­sa­men­tos).

Mas eu con­ti­nuei. Afi­nal, eu es­tava ali pra con­ver­sar ou pra ver na­vios? É, po­eta, sem­pre acre­di­tei que pelo voto se po­dem mu­dar as coi­sas. Mas nem nisso mais eu acre­dito. Será que sou a res­pon­sá­vel in­di­reta por tudo o que acon­tece por­que vo­tei er­rado a vida toda? E quem acha que vo­tou di­fe­rente, está sa­tis­feito? En­tão onde está o erro? Mui­tas per­gun­tas, não é? O pior – ou o me­lhor, não sei – é que pra es­sas e mui­tís­si­mas ou­tras ainda não te­nho res­pos­tas. Por isso vim hoje aqui te vi­si­tar e alu­gar sua aten­ção. E você que pen­sou que aqui no banco da praia fi­ca­ria em paz, hein? To­li­nho…

Mas já foi bom esse de­sa­bafo, po­eta. Nunca ima­gi­nei que um dia nós con­ver­sa­ría­mos as­sim, tão à von­tade e em plena Prin­ce­si­nha do Mar. E já que hoje acon­te­ceu esse mi­la­gre, quem sabe se eu, que nunca mais me ima­gi­nei par­ti­ci­pando da vida po­lí­tica do país, tam­bém con­siga en­con­trar uma ma­neira de trans­for­mar a im­po­tên­cia e a in­dig­na­ção em ações úteis, sem in­ter­me­diá­rios. Tudo é pos­sí­vel nes­sas al­tu­ras. Obri­gada por sua ge­ne­ro­si­dade em ou­vir pes­soas meio de­ses­pe­ran­ça­das no seu banco de praia. Até a volta.

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

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