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Viagem

quinta-feira, 30 de outubro de 2008 Texto de

En­con­trei es­paço numa curva do sa­guão e me sen­tei no chão, perto da loja de café. Na­que­las al­tu­ras, o ae­ro­porto An­to­nio Car­los Jo­bim não ofe­re­cia muito mais con­forto do que isso para quem fosse per­noi­tar por ali. No meu can­ti­nho im­pro­vi­sado já me sen­tia num ra­zoá­vel bed and bre­ak­fast, dada a pro­xi­mi­dade da má­quina de ca­puc­cino e dos pãe­zi­nhos de queijo para quando eu acor­dasse. Eu es­tava so­zi­nha, es­pe­rava a cha­mada para meu em­bar­que, adi­ado em mui­tas ho­ras, e ob­ser­var meus com­pa­nhei­ros da­quele al­ber­gue im­pro­vi­sado pas­sou a ser uma dis­tra­ção, pois já de­vo­rara boa parte do li­vro que le­vava na bolsa “para ler na vi­a­gem”.

No­tei que no meio da mul­ti­dão que se es­pa­lhava pelo sa­guão e das per­gun­tas sem res­pos­tas aos pas­sa­gei­ros de­ses­pe­ra­dos, ele per­ma­ne­cia ca­lado na sua ca­deira, às ve­zes lendo um jor­nal, às ve­zes bai­xando a ca­beça como que num co­chilo, mas não se mo­via muito mais do que isso. Numa das ve­zes em que le­van­tou a ca­beça e olhou em volta, sorri para ele, que sor­riu de volta e, para mi­nha sur­presa, levantou-se de sua ca­deira e veio ca­mi­nhando em mi­nha di­re­ção. Agachou-se para fi­car na mi­nha al­tura e per­gun­tou se eu ti­nha um ci­garro, a ta­ba­ca­ria es­tava fe­chada e os dele ti­nham ter­mi­nado na longa es­pera. Eu não ti­nha, ofe­reci pas­ti­lhas de hor­telã, que ele acei­tou ime­di­a­ta­mente e se sen­tou no chão ao meu lado. 

Contou-me que es­tava indo para Roma e que fi­ca­ria por lá um bom tempo, mas que ainda não sa­bia se que­ria mesmo ir. Não disse o que fa­ria em Roma e não pa­re­cia à von­tade em fa­lar so­bre isso. Contei-lhe que eu ia a Ca­sa­blanca, pro­cu­rar o Ricky´s Bar, onde, com um pouco de sorte, eu en­tra­ria no exato mo­mento em que os fre­gue­ses, li­de­ra­dos por Vic­tor Lazlo, es­ta­riam can­tando La Mar­seil­laise; e, pela cen­té­sima vez, eu cho­ra­ria de emo­ção di­ante da cena. Ele riu da mi­nha fan­ta­sia e en­tão me dei conta de que nunca ti­nha visto olhos tão tris­tes num sor­riso tão bo­nito. Pres­senti nele um de­sa­lento que com­bi­nava bem com a tris­teza dos olhos. Falei-lhe, en­tão, de um lu­gar onde po­de­ría­mos nos sen­tir no pa­raíso. Ele me agra­de­ceu com o mesmo sor­riso, nos le­van­ta­mos e par­ti­mos.

Ele, em di­re­ção ao ba­nheiro mas­cu­lino, onde dei­xa­ria para sem­pre a incô­moda e es­cura ba­tina e a tro­ca­ria por uma roupa me­nos pe­sada. Eu, em di­re­ção ao bal­cão do café, onde em pou­cos mi­nu­tos ele e eu co­me­ça­ría­mos a pla­ne­jar a ida ao nosso Ricky´s Bar. 

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

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