Contos

Combate ao tráfico

sexta-feira, 26 de setembro de 2008 Texto de

Os ho­mens do ba­ta­lhão de com­bate ao trá­fico vas­cu­lha­ram o pe­queno so­brado. O de­te­tor in­te­li­gente per­cor­reu cada canto da cons­tru­ção ins­ta­lada num bairro da cha­mada ne­o­classe mé­dia, sem nada en­con­trar. Den­tro de seus uni­for­mes de fi­bra fle­xí­vel de aço e mu­ni­dos com as tra­di­ci­o­nais pis­to­las a la­ser, os sol­da­dos apresentaram-se ao co­mando. A ope­ra­ção fra­cas­sara, ao me­nos até ali, com os mé­to­dos le­ga­li­za­dos. O Ca­pi­tão As­sí­ria deu-lhes or­dem para des­can­sar, e eles sa­biam dos pro­ce­di­men­tos a se­rem ado­ta­dos a par­tir da­quele mo­mento.

O co­man­dante era um su­jeito ro­busto, a pele da face ró­sea e pro­fun­da­mente sul­cada, ver­da­dei­ras cra­te­ras abriam-se nas ma­çãs do rosto de barba bem feita. Encaixava-se, por as­sim di­zer, na fac­ção mais ar­bi­trá­ria do exér­cito. Como ele mesmo di­zia, às ve­zes era pre­ciso re­sol­ver as coi­sas de seu jeito. Mas tam­bém di­ri­gia sua ba­te­ria li­nha dura em ou­tras di­re­ções, alheias à es­fera mi­li­tar.

O há­bito se­cu­lar de in­ver­são de no­mes mas­cu­li­nos e fe­mi­ni­nos, por exem­plo, o in­cen­di­ava nas dis­cus­sões do Con­se­lho Cons­ti­tuinte, do qual fa­zia parte há quase uma dé­cada. E ou­tras re­sis­tên­cias ao com­por­ta­mento da ne­o­so­ci­e­dade tam­bém com­pu­nham seu per­fil com­ba­tivo às trans­for­ma­ções da na­ção.

Dois pro­je­tos de lei de sua au­to­ria tra­mi­ta­vam no Con­se­lho. Um de­les con­ce­dia aos Ca­pi­tães de Cinco Es­tre­las, como ele, to­tal au­to­ri­dade para usar a força no com­bate ao trá­fico. O ou­tro proi­bia ter­mi­nan­te­mente bei­jos ou qual­quer ca­ri­nho pú­blico en­tre pes­soas do mesmo sexo. Am­bos en­fren­ta­vam re­sis­tên­cia por mo­ti­vos se­me­lhan­tes: e os ho­mens e mu­lhe­res do exér­cito, como fi­ca­riam? No so­brado, ser­viço pela me­tade, nada de trá­fico ainda, As­sí­ria pôs o quepe so­bre a mesa e voltou-se ao Jú­lia, um en­ge­nheiro quí­mico de meia-idade di­vor­ci­ado, dono da casa:

– Bem, meu caro, aqui es­ta­mos nós, exa­ta­mente no iní­cio, no mesmo ponto de par­tida. O se­nhor pôde ver o tra­ba­lho dos sol­da­dos e a ação frus­trada do nosso de­te­tor. Re­al­mente, a tec­no­lo­gia nunca será per­feita, não é? O ho­mem, prin­ci­pal­mente o ho­mem que se julga es­perto, como o se­nhor, sem­pre en­con­trará ma­nei­ras de dri­blar o po­de­rio tec­no­ló­gico para atin­gir seus ob­je­ti­vos es­cu­sos.

O ca­pi­tão fez uma breve pausa, um si­lên­cio ri­go­ro­sa­mente trei­nado para suas mis­sões de com­bate ao trá­fico, como quem de­seja trans­mi­tir ao in­ter­lo­cu­tor a gra­vi­dade da si­tu­a­ção. De­pois, con­ti­nuou:

– O se­nhor tem, ob­vi­a­mente, um ra­zoá­vel grau de co­nhe­ci­mento. Pode ima­gi­nar as con­seqüên­cias de seus atos. Não quer mesmo fa­ci­li­tar as coi­sas para nós to­dos? O go­verno com­pre­ende cer­tas fra­que­zas dos ci­da­dãos e, com sa­be­do­ria, uti­liza a dis­po­si­ção de co­la­bo­rar de­mons­trada pe­los cri­mi­no­sos. Na hora de julgá-los, esse es­pí­rito de co­la­bo­ra­ção serve como ate­nu­ante. O se­nhor não deve pen­sar nisso?

Jú­lia, mir­rado e le­ve­mente calvo, separara-se da mu­lher, com quem ti­nha dois fi­lhos, há quase um ano. O prin­ci­pal mo­tivo do rom­pi­mento fora a mi­li­tân­cia po­lí­tica do en­ge­nheiro. Ele par­ti­ci­pava das ações de um dos par­ti­dos jo­ga­dos na clan­des­ti­ni­dade pelo ne­o­go­verno. As pres­sões e as ame­a­ças co­ti­di­a­nas es­tra­ça­lha­ram qual­quer pos­si­bi­li­dade de uma re­la­ção es­tá­vel. Sen­tado, com as mãos al­ge­ma­das à ca­deira, Jú­lia, na ver­dade, gos­ta­ria de po­der agra­de­cer ao ca­pi­tão por ele não ter vindo an­tes. Enfrentá-lo so­zi­nho, com a fa­mí­lia dis­tante, cer­ta­mente se­ria mais fá­cil.

Aliás, essa con­tenda, na vi­são de Jú­lia, aca­ba­ria muito rá­pido. Por uma ques­tão ide­o­ló­gica, ele ja­mais se en­tre­ga­ria por von­tade es­pon­tâ­nea. Co­nhe­cia o pro­ce­di­mento co­mum em oca­siões as­sim: os sol­da­dos lhe apli­ca­riam a in­je­ção e ele con­ta­ria tudo – onde es­tava o pro­duto do trá­fico, como o con­se­guira e mais o que qui­ses­sem sa­ber. Em ra­zão de seus pró­prios co­nhe­ci­men­tos ci­en­tí­fi­cos, não lhe era di­fí­cil cons­ta­tar que nin­guém se­ria ca­paz de li­dar com aquela in­ven­ção di­a­bó­lica. O com­posto quí­mico pe­ne­trava na mente hu­mana e a tor­nava re­fém de seu in­ter­lo­cu­tor. Va­mos em frente, se­nhor ca­pi­tão. Teve von­tade de dizer-lhe algo as­sim, mas conteve-se a tempo. Qual­quer pa­la­vra fora de hora po­de­ria ser usada con­tra ele num even­tual jul­ga­mento. Calou-se, por­tanto.

Di­ante dele, o im­pas­sí­vel As­sí­ria levantou-se e fez um si­nal aos três sol­da­dos. Eles se apro­xi­ma­ram, en­quanto o ca­pi­tão, mais uma vez, dirigiu-se a Jú­lia:

– O se­nhor deve en­ten­der mi­nha po­si­ção, mas não posso com­pac­tuar com cer­tas ati­tu­des.

Jú­lia viu quando os ho­mens abri­ram a ma­leta e re­ti­ra­ram de lá as pe­ças que pas­sa­ram a aco­plar. As­sí­ria olhou-o de sos­laio e, pela pri­meira vez nas duas ho­ras em que es­ta­vam no so­brado, es­bo­çou um vago sor­riso, recompondo-se em se­guida:

– Eu po­de­ria pe­dir a um de meus ho­mens que lhe in­je­tasse o lí­quido, mas, o se­nhor sabe, é pre­ciso eco­no­mi­zar sem­pre que pos­sí­vel, e devo con­fes­sar tam­bém que pre­firo os mé­to­dos dos an­ti­gos.

O en­ge­nheiro quí­mico foi amor­da­çado e des­pido. Os ho­mens, en­tão, o pen­du­ra­ram no pau-de-arara. As­sí­ria sentou-se bem atrás dele:

– O se­nhor é quem sabe, não é mesmo?

Jú­lia fitava-o, de ponta-cabeça, com re­sig­na­ção. De­ci­diu encará-lo o quanto pu­desse. Achava que as­sim cons­tran­ge­ria o por­ten­toso ca­pi­tão. Mas, não. Logo foi-lhe per­cep­tí­vel a fi­si­o­no­mia nos­tál­gica do mi­li­tar. As­sí­ria ob­ser­vava o apa­re­lho com olhos ena­mo­ra­dos:

– Quem di­ria? Quem di­ria que o ve­lho pau-de-arara vol­ta­ria a ser efi­caz em pleno sé­culo XXII, con­cor­rendo com tan­tos ins­tru­men­tos de avan­çada tec­no­lo­gia? Meu caro en­ge­nheiro, o se­nhor é um ci­en­tista. Saiba que, com toda nossa tec­no­lo­gia, não so­mos nada perto dos an­ti­gos. Quanto mais avança nossa tec­no­lo­gia, mais de­mons­tra­mos a ca­pa­ci­dade dos an­ti­gos. Com muito pouco, eles fa­ziam tanto.

Quando aca­bou sua breve fi­lo­so­fia, man­dou os ho­mens tra­ba­lha­rem. Jú­lia su­por­tou bra­va­mente as atro­ci­da­des du­rante meia hora. Para sua com­plei­ção, a re­sis­tên­cia sur­pre­en­deu mesmo a As­sí­ria, que a cada golpe ou cho­que, mais ad­mi­rava seu opo­nente. De­ve­mos res­pei­tar o ad­ver­sá­rio, cos­tu­mava di­zer o ca­pi­tão a seus sol­da­dos. O en­ge­nheiro deu-se por ven­cido quando sen­tiu no ânus ex­posto o bico de um fu­nil. Pis­cou for­te­mente duas ve­zes, como lhe ori­en­tara As­sí­ria, caso de­se­jasse fa­lar. Um dos sol­da­dos, en­tão, retirou-lhe a mor­daça. Es­tava sem fô­lego, esforçando-se para não cho­rar de dor e de medo. Aos pou­cos, res­pi­rou e os mi­li­ta­res ou­vi­ram sua voz aguda:

– Se isso fosse uma di­ver­são, eu di­ria que vo­cês são in­ves­ti­ga­do­res in­com­pe­ten­tes.

As­sí­ria gar­ga­lhou, como se es­ti­vesse re­a­li­zado, levantando-se e aproximando-se do pau-de-arara:

– O se­nhor está duas ve­zes equi­vo­cado, meu caro en­ge­nheiro. Duas ve­zes…

Ao di­zer “duas ve­zes”, curvou-se um pouco so­bre a ca­beça de Jú­lia, mostrando-lhe dois de­dos, quase mesmo roçando-lhe os pê­los pre­tos nos olhos, para afastar-se ra­pi­da­mente dois ou três pas­sos:

– Vou di­zer ao se­nhor por que duas ve­zes…

E nisso, no­va­mente es­teve bem perto do pau-de-arara, com os de­dos das mãos es­ti­ra­dos perto da face de Jú­lia, pro­nun­ci­ando com sar­casmo “duas ve­zes”, ir­ri­tando o tor­tu­rado:

– Uma: isto é uma di­ver­são. Ao me­nos para mim, as­sim o é. Gosto do meu tra­ba­lho. Você nunca leu algo as­sim na­que­les li­vros idi­o­tas de mo­ti­va­ção do sé­culo pas­sado? Lá, eles di­zem que você deve cum­prir sua jor­nada como se fosse uma ótima di­ver­são. É o que eu es­tou fa­zendo, com­pre­ende?

En­quanto ex­pli­cou a Jú­lia o pri­meiro equí­voco, o ca­pi­tão man­teve ape­nas o in­di­ca­dor em riste. De­pois, er­gueu ou­tro:

– Duas: nós não so­mos in­ves­ti­ga­do­res. So­mos opres­so­res. Não vi­e­mos in­ves­ti­gar. Vi­e­mos opri­mir. A opres­são, em ca­sos como o do se­nhor, pro­por­ci­ona um ex­ce­lente re­sul­tado. Por exem­plo, agora mesmo o se­nhor vai di­zer a es­tes in­com­pe­ten­tes onde está o pro­duto tra­fi­cado.

An­tes que Jú­lia to­masse fô­lego, o ca­pi­tão ainda teve tempo de sor­rir com iro­nia e ba­lan­çar o fu­nil em sua di­re­ção:

– Ou o se­nhor pre­fere co­nhe­cer nos­sas re­ais com­pe­tên­cias?

A ca­beça de Jú­lia re­ti­nha boa parte do san­gue de seu corpo. So­mado à ten­são e agora ao ódio, um es­tado de tor­por invadiu-lhe por com­pleto. Di­ante de si, a vi­são tornou-se em­ba­çada. Ape­nas os den­tes gran­des do ca­pi­tão eram-lhe per­cep­tí­veis, os den­tes gran­des dis­pos­tos num sor­riso ma­qui­a­vé­lico, a su­pre­ma­cia co­varde de seu opo­si­tor. Quando ia abrir a boca para di­zer o pa­ra­deiro do trá­fico, fechou-a. Per­deu os sen­ti­dos e só recuperou-os de­pois de ser re­ti­rado do pau-de-arara e dei­tado ao chão.

Quando abriu os olhos, lá es­ta­vam bem di­ante dele as ma­çãs ró­seas es­bu­ra­ca­das de As­sí­ria, no­va­mente com o fu­nil à mão, com olhos de quem mostrava-se dis­posto a tudo. Com di­fi­cul­dade, Jú­lia pro­cu­rou sentar-se, encostando-se a um ar­má­rio. Os cinco es­ta­vam no an­dar tér­reo do so­brado, sob a es­cada reta que le­vava ao piso su­pe­rior. O ca­pi­tão, num ti­que de im­pa­ci­ên­cia, ba­tia le­ve­mente o fu­nil no cor­ri­mão. Ba­tia le­ve­mente e em se­guida, mais forte, apercebendo-se de algo, algo que re­ge­lou o resto de san­gue nas veias de Jú­lia. En­fim, As­sí­ria des­co­brira. O cor­ri­mão fora cons­truído com ca­nos de ra­zoá­vel di­â­me­tro. Os ca­nos ocos e blin­da­dos para im­pe­dir a ação dos de­te­to­res in­te­li­gen­tes ser­viam de re­ci­pi­en­tes ao trá­fico. O ca­pi­tão olhou Jú­lia e abriu um sor­riso, desta vez ape­nas sa­tis­feito:

– Você po­de­ria ter fa­ci­li­tado, meu caro. Veja no que deu. Você perde tudo: seu trá­fico e sua li­ber­dade.

Ves­tindo ou­tra vez o quepe, or­de­nou aos sol­da­dos a re­mo­ção dos ca­nos. Eram vá­rios, um in­ter­li­gado ao ou­tro. E re­al­mente lá es­tava o pro­duto do trá­fico, mas As­sí­ria surpreendeu-se:

– Não posso acre­di­tar! Só isso, se­nho­res?

Os in­for­man­tes dos mi­li­ta­res ti­nham ga­ran­tido “coisa grande”, mas como ha­via pouco! Cer­ta­mente, ape­nas para con­sumo pró­prio, cons­ta­tou As­sí­ria:

– Não posso ne­gar que es­tou de­cep­ci­o­nado, meu caro en­ge­nheiro, não posso ne­gar. Bem, como di­zem por aí, nem tudo pode ser per­feito.

Sem qual­quer ce­rimô­nia, di­ante de Jú­lia e dos três sol­da­dos, o Ca­pi­tão de Cinco Es­tre­las As­sí­ria An­ta­res Fi­lho sentou-se à mesa de vi­dro, no cen­tro da sala, e sim­ples­mente con­su­miu o pro­duto do trá­fico: uma gar­rafa de água mi­ne­ral de qui­nhen­tos mi­li­li­tros. Aban­do­nou ainda um fundo para seus ho­mens di­vi­di­rem em dois ou três go­les cada. De­pois disso, jun­ta­ram os apa­re­lhos e fo­ram em­bora, dei­xando Jú­lia a lam­ber seus lá­bios mo­lha­dos de san­gue, lí­quido que, ao con­trá­rio da água limpa, brota abun­dante das ruas bra­vias deste ne­o­tempo.

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