Archive for 2009

Aquela bala de hortelã (completo)

sexta-feira, abril 3rd, 2009

Capítulo 1

O verão de 1962 foi de derreter os miolos. Pelo menos era isso que costumávamos ouvir com freqüência nas conversas preguiçosas dos vizinhos e conhecidos quando andávamos pelas ruas logo após o almoço. Não, isso não quer dizer que não havia chuvas. Chovia constantemente. As enxurradas encarregavam-se de trazer muita terra das encostas e despejá-la nas calçadas. Quando o sol ressurgia e as nuvens desapareciam do céu, lá iam os moradores, especialmente os comerciantes, com suas enxadas em punho, raspar os ladrilhos barrentos. Mas esse trabalho pouco adiantava, porque dali a algumas horas ou no máximo em dois ou três dias, o aguaceiro despencava novamente e a lama cobria tudo outra vez. Para nós, estudantes do quarto ou quinto ano, tanto os dias de sol como os dias de chuva representavam ocasiões para aventuras, às vezes bem sucedidas, em outras... (mais…)

feira – Texto de Thiago Roque

terça-feira, março 31st, 2009

pode chegar, freguesia. tenha medo, não.
meu nome é socorro, mas todo mundo me chama de dona socorro.
porque eu sou mulher de dá respeito e ser respeitada, viu?
essa aqui é a barraquinha da dona socorro. aqui, tem de tudo.
de tudo mesmo. é famosa por causa disso.
e garanto procês o preço mais barato da cidade. (mais…)

Beijo de moça

domingo, março 22nd, 2009

Na primeira vez, ela desceu os dois lances de escadas vestindo jeans e blusa branca colada à pele, um fio moreno claro de cintura à mostra. Nos pés, um salto médio. Pendurava bolsa a tiracolo. Abriu o portão, foi para a rua. Até dobrar a esquina, trinta e cinco passos, contados. Esperei. (mais…)

Sem forma

quinta-feira, março 19th, 2009

SEM FORMA

Quero dizer muitas coisas, mas os moldes não estão prontos. São flexíveis e mudam de formatos rapidamente. Atrevidas, desaparecem no inconsciente; tento chamá-las, mas não me ouvem. Acho que preferem os mistérios das regiões ainda não exploradas. Tomara que não removam muita porcaria, senão vai feder pra caramba. (mais…)

Bilhete

quarta-feira, março 18th, 2009

“Fui fazer uma viagem. Volto já. Ass: sonho”

E-mail: dudu.oliva@uol.com.br

Vozelindo

sexta-feira, março 13th, 2009

Alvorecer. Ele parece pisar em falso em seu progresso pela estradinha que liga o pequeno sítio à cidade. Vai meio assim, de banda. O primeiro sol bate em meia face. No encalço, emendam-se os netos pequenos: o Pedro e a Lúcia. De manhã, sempre é assim. Leva as crianças e as verduras. Enquanto estudam umas, vendem-se as outras. (mais…)

Oito de março – Texto de Otávio Nunes

domingo, março 8th, 2009

“Maria, Maria, quem traz na pele
essa marca possui a estranha mania
de ter fé na vida”

(Milton Nascimento e Fernando Brant)

Maria Aurelina levanta cedo, faz o café, vai à padaria comprar pães, acorda as crianças para irem à escola e prepara o café com leite delas. Despede-se dos filhos e se encaminha ao tanque, onde quilos de roupa a esperam. Na hora do almoço, refoga dois copos de arroz, pega na geladeira a vasilha com o feijão cozido no dia anterior, frita um ovo e come sozinha, na mesa da cozinha. (mais…)

Fotografia número 1 – Texto de Leonardo Brasiliense

domingo, março 8th, 2009

É noite, e o ar da estação, amarelo. Ao fundo, o trem parado. Na gare há somente um casal de velhos sentados numa grande mala. Um baú atrás. Olham baixo, imóveis. Dali a dois metros as formigas carregam sobras de um inseto morto.

E-mail: lbrasiliense@uol.com.br

Guerra e paz

domingo, março 8th, 2009

Nelson Rodrigues dizia que em vez de lermos muitos livros, devemos reler alguns. Reler sempre. Já até escrevi uma crônica sobre o tema. Discordo em alguns aspectos. Mas isso não vem ao caso agora. O fato é que saí à procura de uma edição de “Guerra e paz” para reler. Não tenho esse livro em casa. A obra, de Tolstói, foi publicada em meados da década de 1860. Eu a li quando estava na faculdade. Já faz tempo. Mas isso também não vem ao caso agora (rssss). (mais…)

Flash! – Texto de Leonardo Brasiliense

quinta-feira, fevereiro 26th, 2009

O porta-retratos tem uma vinheta banhada a ouro sobre madeira lisa. 21 x 14 cm. A fotografia colorida não engana: não era bonita nem feia, a mulher de testa pequena, sobrancelhas grossas, olhos difíceis de interpretar. Tinha ali uns trinta anos, morreu aos quarenta e dois. (mais…)