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feira – Texto de Thiago Roque

terça-feira, 31 de março de 2009 Texto de

pode che­gar, fre­gue­sia. te­nha medo, não.
meu nome é so­corro, mas todo mundo me chama de dona so­corro.
por­que eu sou mu­lher de dá res­peito e ser res­pei­tada, viu?
essa aqui é a bar­ra­qui­nha da dona so­corro. aqui, tem de tudo.
de tudo mesmo. é fa­mosa por causa disso.
e ga­ranto pro­cês o preço mais ba­rato da ci­dade.
por exem­plo: quem com­pra hoje três amor por R$ 1,99?
só quem vem na mi­nha banca.
três por R$ 1,99! ba­rato de­mais!
e amor bom, viu? do­ci­nho, feito no dia, coisa chi­que.
num é es­sas coisa an­tiga que ne­gui­nho deixa guar­dado mais de 20 anos.
é pra lam­bu­zar os bei­ços. e pe­dir mais.
e tem de vá­rios sa­bo­res: amor platô­nico, de ve­rão, de Car­na­val, com dor…
só o pra toda vida que eu num faço mais, por­que tava en­ca­lhando e es­tra­gando.
se a fre­gue­sia num gos­tou, en­tão, não tem. o cli­ente que manda!
e to­dos acom­pa­nham calda de te­são… pra dei­xar o amor ainda me­lhor!
eu, pelo me­nos, acho que fica me­lhor. mas vai do gosto do fre­guês.
agora, quer do­ci­nho e, por acaso, acha que o amor tá caro?
en­tão, vai le­var pai­xão! é, pai­xão!
seis por R$ 2!
olha que be­leza. bo­li­nho de pai­xão.
mas, ó, não é tão gos­toso que nem o amor, viu? mas mata a von­tade, hehehe.
sai bas­tante pai­xão tam­bém. essa eu te­nho de to­dos os ta­ma­nhos, pe­quena, mé­dia, grande…
e hoje tô com uma pro­mo­ção: quem com­prar pai­xão leva a calda de te­são tam­bém.
só hoje, hein? seis por R$ 2!
e sau­dade? cês nunca ex­pe­ri­men­ta­ram sau­dade?
ô, gente, em que mundo cês vi­vem?
sau­dade – bolo an­tigo, re­ceita da mi­nha vó dis­tân­cia – que deus a te­nha, amém.
sau­dade eu vendo em fa­tia. R$ 2 cada pe­daço. der­rete na boca.
sa­tis­fa­ção ga­ran­tida! de­sa­fio al­guém a fa­zer um bolo mais gos­toso que esse.
olha, vou con­fes­sar um ne­gó­cio pro­cês: uma fa­tia de sau­dade com um copo do suco que tem na banca da dona re­cor­da­ção…
hum… que de­lí­cia.
qué sau­dade, moça? aê, moça es­perta!
se eu te­nho algo sal­gado? ô, sêo moço, e falta al­guma coisa na bar­ra­qui­nha da dona so­corro?
te­nho coisa sal­gada, sim.
ó, esse aqui é de­cep­ção, uma gos­to­sura. sabe porquê?
ó, vou te con­tar por­que cê pa­rece sê gente fina.
a massa é feita de con­fi­ança… fi­ni­nha, sabe? mas o re­cheio é po­de­roso, tem duas fa­tias de tris­teza e duas fa­tias de in­ge­nui­dade.
ó, e a tris­teza é coisa de pri­meira, vem do es­tran­geiro!
de­pois, frito tudo em ódio quente. fica uma be­le­zura.
os dou­tor de saúde aí vive fa­lando na tevê que faz mal pro co­ra­ção. fri­tura, sabe como é…
mas que é im­pos­sí­vel dei­xar de co­mer é, né? ê, o moço é dos meus! hehehe. tome, um ca­pri­chado procê.
e só R$ 2,50! se qui­ser, en­co­menda que você leva de­cep­ção pra casa, pra fa­zer pra fa­mí­lia toda.
tem tam­bém in­veja. mo­dés­tia à parte, mi­nha in­veja é di-vi-na.
coisa da­que­les chef de co­zi­nha, que nem a loira da globo, lá, sabe…
bato o re­cheio in­tei­ri­nho no li­qui­di­fi­ca­dor: ciúme, ci­nismo, frus­tra­ção, mal­dade…
mas o to­que fi­nal é uma pi­ta­di­nha de má­goa.
vai pro forno, meia hora e pronto!
vixi… cê num vai que­rer co­mer ou­tra coisa…
vai que­rer uma in­veja, moça? opa, duas? pra amiga tam­bém? olha que ma­ra­vi­lha…
cê sabe que, de sexta-feira, os cli­en­tes fa­zem fila pra pe­gar in­veja? é uma doi­deira…
e nesse ca­lor? quer coisa me­lhor do que sor­vete?
é, fre­gue­sia, aqui na bar­r­ra­qui­nha da dona so­corro tem sor­vete ca­seiro. re­ceita da fa­mí­lia!
são cinco sa­bo­res: culpa, de­sejo, en­canto, in­di­fe­rença e lou­cura.
quem vai que­rer?
posso dar uma su­ges­tão, moça? mis­tura de­sejo e culpa.
fica ma­ra­vi­lhoso – me­lhor que queijo e goi­a­bada, sabe? aliás, mil ve­zes me­lhor.
sor­vete é R$ 1 a bola. só uma mo­e­di­nha, gente.
ou­tra dica es­pe­cial: se você to­mar uma bola de de­sejo com um bo­li­nho de pai­xão, fica di­vino!
tem gente que diz que é mais gos­toso do que amor.
é que nem re­ceita fran­cesa, aquele pe­tit ga­teau lá. fica doce de rico, hahahahaha!
mas não aca­bou, não!
te­nho tam­bém ou­tras gos­to­su­ras, gente: vin­gança, ca­ri­nho, ver­go­nha, com­pre­en­são, va­zio, ran­cor…
e tudo numa pro­mo­ção es­pe­cial: por R$ 5, cês le­vam um saco com um monte de­las, tudo mis­tu­rado.
a ga­ro­tada adora! meus so­bri­nhos vi­vem pe­dindo.
vamo apro­veitá, mi­nha gente. tá tudo ba­ra­ti­nho, é tudo muito bão!
como é, se­nhor? se tem prato feito?
ô, moço, num faço pf, não.
mas se você pe­diu um pf na bar­ra­qui­nha da dona so­corro, cê num fica sem. tome o meu al­moço.
não, eu in­sisto, se­nhor.
faço R$ 3 pro se­nhor. e tá da hora a mar­mita, hein? eu mesma fiz.
ar­roz, fei­jão, pi­ca­di­nho de es­pe­rança, sa­lada de força de von­tade com de­ter­mi­na­ção e purê de am­bi­ção.
e o se­nhor ga­nha uma ba­li­nha de so­nho de so­bre­mesa.
vai di­zer que não deu água na boca?

E-mail: roque.thiago@hotmail.com

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