Contos

Vozelindo

sexta-feira, 13 de março de 2009 Texto de

Al­vo­re­cer. Ele pa­rece pi­sar em falso em seu pro­gresso pela es­tra­di­nha que liga o pe­queno sí­tio à ci­dade. Vai meio as­sim, de banda. O pri­meiro sol bate em meia face. No en­calço, emendam-se os ne­tos pe­que­nos: o Pe­dro e a Lú­cia. De ma­nhã, sem­pre é as­sim. Leva as cri­an­ças e as ver­du­ras. En­quanto es­tu­dam umas, vendem-se as ou­tras.

Cul­ti­var al­fa­ces, cou­ves e chu­chus foi o que lhe res­tou de­pois do der­rame. Um lado só, res­ponde aos que per­gun­tam dos efei­tos. O ou­tro mexe como an­tes.

Para os ne­tos, a fa­mí­lia e os ou­tros, junta à apa­rên­cia todo o ânimo que so­brou, mas as­sim mesmo é pre­ciso bus­car mais, não se sabe onde. De si para si, põe-se re­ni­tente. Ar­ras­tar o peso dum lado não lhe con­vence nem um pouco.

Atende com a cor­te­sia de sem­pre às fe­li­ci­ta­ções pelo res­ta­be­le­ci­mento, mas in­ti­ma­mente pede a Deus que lhe mande a ou­tra parte do cas­tigo. En­quanto es­pera o fim da ma­nhã e da aula dos ne­tos, senta-se num banco di­ante da qui­tanda.

Ali, põe-se a pen­sar na vida, em seus dias de saúde, no tra­ba­lho pe­sado do campo, na man­gueira de va­cas lei­tei­ras, no es­tá­bulo com os ca­va­los mas­ti­gando mi­lho, nas sa­ca­rias em­pi­lha­das das tu­lhas.

Tam­bém as coi­sas ruins so­bre­vêm: a ge­ada brava, a es­ti­a­gem rude, a morte da mu­lher An­to­nia, a sau­dade doída. Mas nada disso jus­ti­fica tornar-se me­tade, pensa ele. Olha com des­dém para a mão re­tor­cida, tem von­tade de chu­tar a perna ador­me­cida. Queixa-se a um com­pa­dre. De que me vale ainda a vida as­sim?

Dali a pouco, vem a qui­tan­deira. Te­resa é seu nome. Foi ela quem lhe su­ge­riu o cul­tivo das hor­ta­li­ças, um tra­ba­lho leve e que dis­trai. Disse-lhe isso na­quela vez, e ele acei­tou. Sem­pre acei­tava o que lhe di­zia Te­resa. Os dois já es­tão ve­lhos, é ver­dade. Mas têm his­tó­rias para guar­dar. Até ou­tro dia, ainda misturavam-se de­baixo dos len­çóis.

Quando ainda nova, a mu­lher An­to­nia tinha-lhe olhos gru­da­dos, des­con­fi­ava de suas pe­ri­pé­cias, mas as­sim mesmo ele es­ca­pava para ir ver a Te­resa de ma­rido vi­a­jante. De­pois, na beira da ve­lhice, a mu­lher An­to­nia, aos pou­cos, desviou-se des­ses de­se­jos. Mas ele não. A qui­tan­deira tam­bém não. O ma­rido vi­a­jante vi­a­jou para sem­pre, e os dois en­tão viram-se li­vres de uma vez.

Agora, en­tre­tanto, o cas­tigo do der­rame tomou-lhe a pre­ci­são. Te­resa o con­sola. Até se di­verte: já se fez muito. E sorri. Mas para ele, resta só um meio ho­mem, as­sim mesmo: de que me vale ainda vi­ver? A Te­resa sa­code o aven­tal e en­tra.

Lá adi­ante, na di­re­ção da es­cola, des­ponta a fi­gura do Pe­dro. Vem em dis­pa­rada o me­nino. Cadê a Lú­cia? É o que pensa o ve­lho, erguendo-se com di­fi­cul­dade – quando ele se senta por muito tempo, os mo­vi­men­tos pa­re­cem di­mi­nuir. Geme para res­ga­tar a perna de seu ca­la­bouço.

An­tes que o neto che­gue, ele vai ao seu en­con­tro, arrastando-se, ofe­gando. Vai meio as­sim, de banda, o lado es­querdo en­du­re­cido. Ape­sar de in­tri­gado, não es­quece de se mal­di­zer e à sua con­di­ção. Pede sem­pre a Deus pelo res­tante do cas­tigo man­dado a pres­ta­ção.

E a sua irmã? Mas o Pe­dro só olha para o avô, está quase sem fala. Com es­forço, bal­bu­cia umas pa­la­vras: o moço, o ho­mem cha­mou… Agora, o ve­lho des­preza seu es­tado, ar­re­mete à frente num ím­peto do­en­tio, mas não pode agir como de­seja, esforça-se como um burro que con­duz o arado, puxa com brio sua me­tade des­fa­le­cida.

Onde? Onde? Se­gura o braço do neto sem ter tempo de mirá-lo. Por ali. O me­nino aponta um ter­reno bal­dio. Há mato alto em meio a es­com­bros de an­ti­gas cons­tru­ções aban­do­na­das. O per­curso torna-se ainda mais in­justo para um ve­lho do­ente. Já lhe falta o fô­lego, tanto que ha­via para ele em ou­tros tem­pos.

Avan­çam os dois, avô e neto, por en­tre o ca­pim e a al­ve­na­ria des­pe­da­çada. O pe­queno tro­peça, voa por so­bre ti­jo­los e ma­dei­ras apo­dre­ci­das, o risco de san­gue na testa, po­rém, não sus­pende sua in­ves­tida. Se­gue atrás do ve­lho, que já não pode com as pa­la­vras. Por pouco, não se sus­tenta mais so­bre a perna sa­dia. O can­saço transforma-se em dor, uma dor que se es­pa­lha de­pressa. A vi­são se em­baça. Ele per­cebe, en­tão, que pode lhe fal­tar o tempo.

Es­tão quase no fundo do ter­reno. A força se es­vai, ele tem plena cons­ci­ên­cia. Foi as­sim que co­me­çou o ou­tro, ele se lem­bra. Seu pe­dido, en­fim, será aten­dido, mas agora clama por um prazo maior, só um pouco mais. Di­ante dele, os fei­xes de ca­pim são ape­nas fi­nas som­bras es­cu­ras que pen­dem à brisa. Mas as­sim mesmo ele con­ti­nua. E ali está a Lú­cia. O ve­lho sabe que aquela cri­ança que ele não pode mais dis­tin­guir é sua neta. Preparando-se para atirar-se so­bre ela, há um vulto qual­quer. Ele sabe que se trata do moço, o ho­mem ao qual se re­fe­riu o Pe­dro. Num ins­tante ab­surdo, salta so­bre ele e engancha-se em seu pes­coço. Com o au­xí­lio do ou­tro, o braço alei­jado serve como ala­vanca. Um pes­coço é es­pre­mido. O peso do corpo meio-morto cai so­bre o vulto. E ali per­ma­nece. A ou­tra parte do cas­tigo recaiu-lhe, en­fim. O Pe­dro re­tira o lenço que amor­daça a irmã. Logo, sob sua ex­pres­são de de­ses­pero, a voz rouca que brama pelo Vo­ze­lindo atrai a aten­ção dos vi­zi­nhos. Vem a Te­resa, vem o com­pa­dre, vêm um e ou­tro co­nhe­cido. Di­ante de to­dos, atarracam-se dois ho­mens que mor­re­ram há pou­cos se­gun­dos, su­fo­ca­dos, as­fi­xi­a­dos, sem com­pre­en­der por que vi­vem mais ou vi­vem me­nos.

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