Contos

Beijo de moça

domingo, 22 de março de 2009 Texto de

Na pri­meira vez, ela des­ceu os dois lan­ces de es­ca­das ves­tindo je­ans e blusa branca co­lada à pele, um fio mo­reno claro de cin­tura à mos­tra. Nos pés, um salto mé­dio. Pen­du­rava bolsa a ti­ra­colo. Abriu o por­tão, foi para a rua. Até do­brar a es­quina, trinta e cinco pas­sos, con­ta­dos. Es­pe­rei.

Vol­tou às seis e pouco, dia claro ainda. Su­biu os de­graus, a calça justa con­tor­nando os glú­teos bem de­se­nha­dos. – “Que pe­daço!”, tes­te­mu­nhou o Cór­doba. Fi­ca­mos olhando até ela fe­char a porta. O ar­gen­tino me fi­tou com cara de ta­rado. – “Sai pra lá”, em­pur­rei meu co­lega de re­pú­blica e fui to­mar ba­nho. De­mo­rei.

No dia se­guinte, logo ao acor­dar, con­sul­tei mi­nhas fi­nan­ças. Res­ta­vam uns tro­ca­dos, su­fi­ci­en­tes para com­prar um bi­nó­culo de ca­melô. Le­van­tei, me vesti e vi que o Cór­doba já ha­via saído. Não sei por que, mas foi um alí­vio, como se ele pu­desse des­co­brir mi­nhas in­ten­ções se­cre­tas. Saí.

Às seis e pouco, ainda so­zi­nho em casa, fui para a vi­draça, ajo­e­lhei no sofá e afas­tei um pouco a cor­tina. Para um bi­nó­culo de ca­melô, até que aquele não era mau. Na va­randa da casa dela, um ta­pete com de­ta­lhes apa­ren­te­mente egíp­cios co­bria um re­tân­gulo de la­dri­lhos li­sos an­tes da porta. Sorri.

Dali a pouco, em frente à casa, ela des­ceu do carro de ou­tra ga­rota. Disse qual­quer coisa, sor­riu e fi­cou dando tchau. A mi­nis­saia era branca, a ca­mi­seta, de uma des­sas ban­das de rock, preta. Uma pre­si­lha er­guia o ca­belo e re­ve­lava o pes­coço per­feito, sem ser longo nem curto, cor­res­pon­dente à sua es­ta­tura mé­dia. Aper­tei os den­tes de cima con­tra o lá­bio in­fe­rior. San­grei.

Não posso afir­mar com cer­teza, mas quando ela pas­sou pelo por­tão, an­tes de es­ca­lar os dois lan­ces de de­graus, tive a im­pres­são de vê-la se vol­tar na di­re­ção da mi­nha ja­nela. Le­vei um susto. Sem que­rer, afrou­xei a mão e o bi­nó­culo caiu so­bre o sofá. Dei­xei a cor­tina se fe­char in­tei­ra­mente. Suei.

Muito rá­pido, vol­tei à mi­nha po­si­ção an­te­rior, de jo­e­lhos so­bre o es­to­fado, bi­nó­culo em pu­nho, mas agora no ou­tro ex­tremo da vi­draça. Ela ainda es­tava lá fora, me­xendo com algo atrás da mu­reta da va­randa. Um gato ra­jado, meio ama­relo meio branco. Logo ima­gi­nei que aquela cena de­ve­ria ser ma­ra­vi­lhosa se vista do pé da es­cada. Excitei-me.

Tão logo ela en­trou, o que não de­mo­rou muito, de­sa­bei so­bre o sofá, exausto, como se ti­vesse aca­bado de cum­prir uma pe­sada ati­vi­dade fí­sica. Nisso, bem ao lado, o Cór­doba afa­gou meu om­bro, sor­rindo: – “É sé­rio, hein?” Al­guém pode me di­zer de onde esse cara apa­rece nas pi­o­res ho­ras? Dormi.

Tarde da noite, o ar­gen­tino de­certo nas ba­la­das, eu acor­dei todo mo­lhado de suor. Por vias de dú­vida, abri de­va­gar a cor­tina e olhei a casa dela. Es­tava fe­chada, a luz da frente, acesa. Li­guei a TV e fi­quei za­pe­ando. Lá pe­las duas, o mesmo carro da tarde es­ta­ci­o­nou. Ela des­ceu e logo en­trou. O Gol se afas­tou. So­nhei.

Vol­tei da aula, o Cór­doba sem­pre saía à tarde. Ou­tra vez, fi­quei so­zi­nho em casa. De­cidi ser mais ou­sado, se é que algo as­sim pode ser con­si­de­rado uma ou­sa­dia. Es­pe­rei por ela. Quando a vi do­brando a es­quina, adiantei-me, muito ágil, a porta já aberta, e atra­ves­sei a rua. – “Oi, es­tou mo­rando aí em frente. Será que você tem açú­car?”. Ad­mi­rei.

Ela não se as­sus­tou, mas foi pega de sur­presa. Sabe quando a ga­rota dá aquele sus­piro an­tes do cum­pri­mento? Pois foi as­sim que ela fez. Nisso, foi vi­rando a ca­beça aos pou­cos, as­sim por de­trás de mim. Acom­pa­nhei o mo­vi­mento, até ver, se­guindo a su­til in­di­ca­ção de seus olhos ver­des, a loja de con­ve­ni­ên­cia es­can­ca­rada para cli­en­tes como eu. Co­rei.

Vol­tei a encará-la. Ela es­tava rindo um pouco. En­tão, ri mais ainda. Ela se apre­sen­tou, a Jo­ana. Muito sim­pá­tica. E linda, linda mesmo. Eu lhe disse meu nome, Mi­guel. – “Você quer açú­car?”. Cons­tran­gido, eu dei uma des­culpa qual­quer, que ha­via me es­que­cido da loja bem ao lado de casa, coi­sas as­sim, e fui saindo. Vol­tei.

Quando fe­chei a porta atrás de mim, meu co­ra­ção co­me­çou a ace­le­rar, cada vez mais forte. Vou di­zer uma coisa: deu medo a ve­lo­ci­dade com que ba­tia. Per­ma­neci es­tá­tico, os olhos fe­cha­dos, não sei por quanto tempo. Na mi­nha ca­beça, só ha­via o sor­riso da Jo­ana. –“Está apai­xo­nado mesmo, cara?” O Cór­doba já ti­nha che­gado. Es­tou.

Eu fa­zia com­pu­ta­ção, o ar­gen­tino, ar­qui­te­tura. Ele me disse: – “Você quer ar­qui­te­tar um plano ou ir di­reto ao pro­grama?” Meu co­lega era sem­pre bem-humorado, em­bora eu não es­ti­vesse a fim des­sas ti­ra­das to­las. Eu só que­ria al­guém que me dis­sesse o que fa­zer, nada mais. – “Cara, não perca tempo, não perca tempo!” Perdi.

Fi­quei dois dias nesse chove-não-molha, numa hora com o bi­nó­culo es­tra­te­gi­ca­mente ins­ta­lado em meio à cor­tina, nou­tra, di­zendo oi ou tchau, ape­sar de meu de­sejo ser um só: se­gu­rar a Jo­ana pela cin­tura e bei­jar sua boca, bei­jar como nunca nin­guém a bei­jou, como ja­mais eu bei­jei al­guém. Tremi.

À noite, es­ta­ci­o­na­ram em frente, a porta da casa se abriu, vi quando ela bei­jou a mãe e des­ceu. En­trou num carro es­porte, des­ses ba­da­la­dos, che­gou muito perto do cara que es­tava ao vo­lante e en­cos­tou a boca na dele. O na­mo­rado ou sei lá o quê ace­le­rou e os dois se fo­ram. Ati­rei o bi­nó­culo ao chão. Pi­sei.

O Cór­doba ou­viu, mais tarde, meu la­mento. “Você de­mo­rou, cara. Eu te disse, não te disse?” Ele ha­via dito. Entreguei-me ao de­sa­lento. Eu só que­ria po­der bei­jar a Jo­ana. Não di­zem que um beijo é ca­paz de re­ve­lar todo o seu amor? Sei lá se di­zem isso, mas eu acre­dito. Cho­rei.

Fo­ram duas se­ma­nas in­fe­li­zes as que se pas­sa­ram. Quase sem­pre, lá es­tava o na­mo­rado para bus­car a Jo­ana. A mim, res­tava ima­gi­nar para onde eles iam to­dos os dias, o que fa­ziam, se es­ta­vam se dando bem. Con­fesso que eu não pen­sava em ou­tra coisa, em casa, na fa­cul­dade ou onde es­ti­vesse. Pi­rei.

Ao fi­nal de duas se­ma­nas, nem um dia a mais, o su­jeito não veio. Quem a pe­gou foi a amiga, aquela do Gol. Che­gou à noi­ti­nha, como sem­pre, e saí­ram jun­tas. Acho que cur­sa­vam in­glês ou algo as­sim, já que a fa­cul­dade a Jo­ana fa­zia de ma­nhã. No dia se­guinte, foi o mesmo, e no ter­ceiro dia, e no quarto. Eles ter­mi­na­ram. De­cre­tei.

Ti­nha de ser agora. A Jo­ana sem nin­guém, eu com­ple­ta­mente apai­xo­nado. Re­solvi cercá-la ou­tra vez. Ela foi muito sim­pá­tica, um doce. Se eu ti­vesse um pouco mais de co­ra­gem, te­ria abra­çado aquela cin­tura de um­bigo raso e me ar­ris­cado. Tudo ou nada. Tome meu beijo e veja se gosta. Fa­lhei.

Quando mi­nha in­su­por­tá­vel ti­mi­dez me per­mi­tiu, tive a bri­lhante idéia de convidá-la para sair. Puxa, como eu não ha­via pen­sado nisso an­tes? E as­sim foi. Nós saí­mos, só que com todo o pes­soal dela, ami­gos, ami­gas, ca­chor­ros, pa­pa­gaios, en­fim, vol­ta­mos sem qual­quer chance para mim, em­bora ti­vés­se­mos tro­cado olha­res cúm­pli­ces. Quer sa­ber? As coi­sas es­ta­vam an­dando. Sos­se­guei.

O dia em que eu, fi­nal­mente, a bei­jei foi as­sim: saí de casa de­ci­dido que o fa­ria, me ar­ru­mei o me­lhor que pude, vesti pa­letó e gra­vata, che­guei pró­ximo a ela, ha­via um cheiro doce de flo­res no ar, aca­ri­ciei sem cons­tran­gi­mento suas mãos, dobrei-me so­bre seu rosto e, am­bos de olhos fe­cha­dos, co­lei meus lá­bios aos dela. Mais tarde, fe­cha­ram o cai­xão e a le­va­ram. Morri.

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