Contos

Aquela bala de hortelã (completo)

sexta-feira, 3 de abril de 2009 Texto de

Ca­pí­tulo 1 

O ve­rão de 1962 foi de der­re­ter os mi­o­los. Pelo me­nos era isso que cos­tu­má­va­mos ou­vir com freqüên­cia nas con­ver­sas pre­gui­ço­sas dos vi­zi­nhos e co­nhe­ci­dos quando an­dá­va­mos pe­las ruas logo após o al­moço. Não, isso não quer di­zer que não ha­via chu­vas. Cho­via cons­tan­te­mente. As en­xur­ra­das encarregavam-se de tra­zer muita terra das en­cos­tas e despejá-la nas cal­ça­das. Quando o sol res­sur­gia e as nu­vens de­sa­pa­re­ciam do céu, lá iam os mo­ra­do­res, es­pe­ci­al­mente os co­mer­ci­an­tes, com suas en­xa­das em pu­nho, ras­par os la­dri­lhos bar­ren­tos. Mas esse tra­ba­lho pouco adi­an­tava, por­que dali a al­gu­mas ho­ras ou no má­ximo em dois ou três dias, o agua­ceiro des­pen­cava no­va­mente e a lama co­bria tudo ou­tra vez. Para nós, es­tu­dan­tes do quarto ou quinto ano, tanto os dias de sol como os dias de chuva re­pre­sen­ta­vam oca­siões para aven­tu­ras, às ve­zes bem su­ce­di­das, em ou­tras…

Es­tu­dá­va­mos de ma­nhã, e as tar­des, cum­pri­das as ta­re­fas es­co­la­res, pa­re­ciam esperar-nos de bra­ços aber­tos com sua brisa quente e a cla­ri­dade in­tensa da época re­ser­vada ao ca­lor. Lembro-me de que es­co­vava os den­tes, no piso su­pe­rior de nosso pe­queno so­brado, en­quanto pelo vão da ja­nela do ba­nheiro ob­ser­vava an­si­oso se os ou­tros ga­ro­tos já es­ta­vam à mi­nha es­pera lá em­baixo, à beira do gra­mado limpo, com seus dois ou três pe­que­nos can­tei­ros de cra­vos e ro­sas, que se­pa­rava a rua e a va­randa de casa. Com nos­sas bi­ci­cle­tas, ro­dá­va­mos boa parte dos ar­re­do­res da di­mi­nuta ci­dade. Se nos­sos pais con­sen­tiam? Ah, sim! Você não pode ima­gi­nar como eram sos­se­ga­dos aque­les ar­re­do­res na­que­les tem­pos. Ha­via tre­chos em que sa­bía­mos onde des­viar de pon­tas de raí­zes ou de ga­lha­das pron­tas a sur­pre­en­der um fo­ras­teiro de­sa­vi­sado. Co­nhe­cía­mos uma in­fi­ni­dade de ro­tas em meio à pe­quena selva da parte alta, pouco an­tes do iní­cio das cons­tru­ções que com­pu­nham a zona ur­bana. Ali, muito perto, ha­via o acesso para quem vi­nha da ro­do­via. Era as­fal­tado.

Dois quilô­me­tros, tal­vez al­guns me­tros a mais, se­pa­ra­vam em grande de­clive a ro­do­via e a en­trada da ci­dade. Em cer­tos ho­rá­rios, o mo­vi­mento de pe­des­tres era maior nesse per­curso do que em qual­quer ou­tro lo­cal. Isso por­que as pes­soas vi­a­ja­vam muito mais de ôni­bus. Para ir a ci­da­des pró­xi­mas, bas­tava dirigir-se à ro­do­via e sentar-se no banco do ponto dos in­te­rur­ba­nos. Pou­cos en­tra­vam em Mi­rante Norte, mas mui­tos pas­sa­vam à sua porta e al­guns pro­gra­ma­vam pa­ra­das. Gos­tá­va­mos de apro­vei­tar es­sas ho­ras para exi­bir nos­sas ha­bi­li­da­des so­bre duas ro­das, dis­pu­tá­va­mos nosso grande prê­mio.

Em seis ou sete pri­vi­le­gi­a­dos do­nos de boas má­qui­nas, como fa­zía­mos ques­tão de chamá-las, pe­da­lá­va­mos com ex­trema di­fi­cul­dade rumo ao topo da es­trada de acesso. Nunca co­nheci ou­tros dois quilô­me­tros tão lon­gos como aque­les, mas su­bir mon­ta­dos nas bi­ci­cle­tas com­pu­nha re­qui­sito bá­sico para a dis­puta da cor­rida. Quem não su­por­tasse a la­deira bra­via, po­dia considerar-se des­clas­si­fi­cado. O Joca, ape­li­dado Joca Fan­gio por sua afei­ção ao au­to­mo­bi­lismo e por tratar-se de nossa sin­gela ho­me­na­gem ao grande cam­peão, con­tro­lava a pon­tu­a­ção. Nos­sas tem­po­ra­das eram se­mes­trais. A cada mês, cum­pría­mos no má­ximo dois gran­des prê­mios, em ra­zão de mo­ti­vos que ainda se­rão dis­pos­tos. Fan­gio ano­tava as co­lo­ca­ções em sua pran­cheta e orgulhava-se de ser tra­tado por “se­nhor juiz”. Cor­pu­lento aos 11 anos, ja­mais con­se­gui­ria su­bir a la­deira, e se pu­desse fazê-lo, tal­vez fosse muito pior. Onde da­ria uma bi­ci­cleta em­ba­lada la­deira abaixo por seus mais de cem qui­los?

A che­gada, aliás, constituía-se na nossa prin­ci­pal pre­o­cu­pa­ção. Logo ao fi­nal da via de acesso, às mar­gens da ci­dade, o as­falto sim­ples­mente aca­bava, seguindo-se algo em torno de cem me­tros até o iní­cio da ave­nida prin­ci­pal de Mi­rante Norte, pa­vi­men­tada com pa­ra­le­le­pí­pe­dos. Des­cer em alta ve­lo­ci­dade pelo as­falto e aden­trar um tre­cho de terra, em que na es­ta­ção das chu­vas os bu­ra­cos cres­ciam des­ca­ra­da­mente, sig­ni­fi­cava um grande risco de aci­den­tes. Tal­vez para vingar-se de sua frus­tra­ção por não po­der par­ti­ci­par das cor­ri­das, Fan­gio pro­cu­rava posicionar-se, como juiz, sem­pre muito pró­ximo ao fim do as­falto. Dali em di­ante, por mais que você ten­tasse frear, as di­fi­cul­da­des de pa­rar a bi­ci­cleta eram imen­sas.

Es­tá­va­mos po­si­ci­o­na­dos para a lar­gada, na ca­be­ceira da pista. Aguar­da­mos os pas­sa­gei­ros des­ce­rem do ôni­bus e per­cor­re­rem al­guns me­tros es­trada abaixo e, en­tão, ou­vi­mos o apito do Pi­nó­quio, um me­nino de na­riz grande, au­xi­liar de Fan­gio, e cujo im­pe­di­mento de par­ti­ci­par co­nosco dos gran­des prê­mios não era fí­sico, mas fi­nan­ceiro. Pi­nó­quio, de fa­mí­lia po­bre, não ti­nha bi­ci­cleta. Ao me­nos não na­quela época. Mais tarde, eu me re­cordo, ele teve uma, mas os pneus vi­viam na lona, a cor­rente mal encaixava-se aos den­tes e o gui­dão quase nunca obe­de­cia as ma­no­bras, o que sem­pre o dei­xava fora das com­pe­ti­ções.

Bem, mas quando soou o apito de Pi­nó­quio, nós lar­ga­mos. A es­trada de acesso se­guia, mais ou me­nos, as se­guin­tes ca­rac­te­rís­ti­cas: os pri­mei­ros du­zen­tos me­tros eram re­tos, em de­clive manso que pro­gre­dia su­ces­si­va­mente daí em di­ante. Nesse tre­cho, cos­tu­má­va­mos exibir-nos para aque­les que ti­nham des­cido do ôni­bus e a pé se­guiam para a ci­dade. Fa­zia parte do ri­tual. Era como se qui­sés­se­mos nos apre­sen­tar a eles e cha­mar a aten­ção para uma even­tual tor­cida. Fazia-nos bem fan­ta­siar que al­guém dispunha-se a tor­cer para um ou ou­tro du­rante o tra­jeto. Ao atin­gir os pri­mei­ros du­zen­tos me­tros, as bi­ci­cle­tas co­me­ça­vam a au­men­tar a ve­lo­ci­dade, até che­gar a meio quilô­me­tro. A essa al­tura, já ti­nham fi­cado para trás duas cur­vas aber­tas e fá­ceis de ma­no­brar.

Dos qui­nhen­tos me­tros até quase o pri­meiro quilô­me­tro, o ter­reno exi­gia muito dos ci­clis­tas, pois sua pla­ní­cie não pos­si­bi­li­tava man­ter a ve­lo­ci­dade ob­tida no forte de­clive an­te­rior. Era pre­ciso pe­da­lar muito para não per­der po­si­ções até o iní­cio do se­gundo e úl­timo quilô­me­tro. Di­fi­cil­mente al­guém que li­de­rasse a prova nessa al­tura con­se­guia perdê-la. Tudo co­me­çava com um arco à di­reita. A sen­sa­ção ali não pode ser des­crita para quem nunca cum­priu o per­curso numa bi­ci­cleta. A des­cida tornava-se ín­greme à me­dida que você con­tor­nava o arco. Na pri­meira vez, o mais cor­reto se­ria con­fes­sar de­ses­pero, mas quem vi­via esse de­ses­pero nunca dei­xa­ria de pen­sar em vivê-lo no­va­mente. Cum­prido o arco, o acesso se­guia à es­querda em ex­tensa curva leve, mas sem­pre em de­clive, até quase a qui­nhen­tos me­tros do fi­nal. E aí reuniam-se to­dos os pe­ri­gos.

A la­deira pa­re­cia afundar-se num pre­ci­pí­cio. Os no­va­tos, não pou­cas ve­zes, fre­a­vam de­ses­pe­ra­da­mente suas má­qui­nas e dei­xa­vam de cum­prir es­ses úl­ti­mos me­tros do per­curso. A im­pres­são co­mum era que você iria de ca­beça e a bi­ci­cleta sal­ta­ria so­bre suas cos­tas, atin­gindo so­li­tá­ria o grande fi­nal. Por es­ses ris­cos é que dis­pu­tá­va­mos ape­nas uma ou duas cor­ri­das por mês. Se o fi­zés­se­mos de ma­neira mais re­gu­lar, tal­vez nos­sos pais des­co­bris­sem os cam­pe­o­na­tos e até mesmo ven­des­sem nos­sas bi­ci­cle­tas. Não que as de­nún­cias dei­xas­sem de che­gar a um ou ou­tro, mas com muito jeito des­men­tía­mos tudo e cui­da­do­sa­mente pro­vi­den­ciá­va­mos a sus­pen­são tem­po­rá­ria das com­pe­ti­ções até que o as­sunto es­fri­asse.

Mas deixe-me vol­tar ao apito do Pi­nó­quio e ao grande prê­mio da­quela tarde de ve­rão, em fe­ve­reiro de 1962. Saí­mos em sete. A lar­gada obe­de­cia à co­lo­ca­ção da prova an­te­rior. Como eu ha­via ven­cido a única cor­rida que pu­de­mos re­a­li­zar em ja­neiro, posicionei-me à frente. Por as­sim di­zer, ti­nha a pole ga­ran­tida. À mi­nha es­querda, na se­gunda po­si­ção, vi­nha o fi­lho do dou­tor Al­ce­bía­des, mé­dico de Mi­rante Norte, um bom su­jeito, mas um tanto exi­bido de­mais para nosso gosto. Em ter­ceiro, posicionava-se o Arthur, que pelo fato de nunca ter ven­cido uma prova ga­nhara a al­cu­nha de Pa­lerma. De­pois, vi­nham o Neco Onça, meu me­lhor amigo da­quela época, cujo ape­lido originava-se nas inú­me­ras pin­tas que de­se­nha­vam todo seu corpo; o Sete e Meio, im­ba­tí­vel nesse jogo de car­tas e que to­dos nós tí­nha­mos como per­feito la­drão, por­que era certo que rou­bava, mas nin­guém con­se­guia flagrá-lo; e os gê­meos Síl­vio e Sál­vio, de apa­rên­cias tão se­me­lhan­tes que seus ad­ver­sá­rios de gran­des prê­mios, incluindo-me, des­con­fi­a­vam de uma sé­ria tra­paça no ano an­te­rior, quando Síl­vio pre­ci­sava ven­cer a úl­tima prova para con­quis­tar o tí­tulo. Se isso não ocor­resse, a vi­tó­ria se­ria do Pa­lerma, que sem­pre che­gava em se­gundo e por isso so­mava mui­tos pon­tos. As­sim, quando to­dos acha­vam que es­ta­ria que­brado o je­jum do Pa­lerma, pois Sál­vio ha­via cru­zado a li­nha fi­nal, bem di­ante do Fan­gio, eis que o ven­ce­dor se apre­senta como Síl­vio, para es­panto ge­ral. Mas como des­men­tir? A par­tir desse epi­só­dio, Fan­gio de­ter­mi­nou que os gê­meos de­ve­riam apresentar-se sem­pre com rou­pas dis­tin­tas du­rante as pro­vas, o que aca­bou com qual­quer sus­peita fu­tura, mas para o aza­rado do Pa­lerma, o es­trago já es­tava feito. 

Bem, o Pi­nó­quio api­tou e nós lar­ga­mos. Ao con­trá­rio do que vi­vía­mos fa­zendo, ou seja, des­per­di­çando tempo em acro­ba­cias e cum­pri­men­tos aos pas­san­tes, mi­nha es­tra­té­gia era en­fiar to­das as mi­nhas for­ças nos pri­mei­ros cem me­tros, abrir uma boa van­ta­gem, já que ha­via lar­gado na frente, e de­pois ape­nas ad­mi­nis­trar bem os me­an­dros do per­curso para al­can­çar a se­gunda vi­tó­ria da tem­po­rada. E as­sim o fiz. Quando ini­ci­a­mos o pri­meiro de­clive, per­cebi que os de­mais só agora co­me­ça­vam a per­ce­ber mi­nha boa di­an­teira. En­tão, con­forme a des­cida au­men­tava pro­gres­si­va­mente, pe­da­lei ainda mais forte, até não po­der mais. Mi­nha ve­lo­ci­dade foi es­tu­penda.

Ao con­cluir a se­gunda curva que le­vava aos pri­mei­ros qui­nhen­tos me­tros, olhei para trás e não vi qual­quer ou­tro com­pe­ti­dor ao meu en­calço. Per­cebi tam­bém, de re­lance, que su­biam a la­deira a se­nhora Wan­der, como apre­ci­ava que a cha­mas­sem, por tratar-se do so­bre­nome de seu se­gundo ma­rido, e seu fi­lho Ho­mero, de cinco ou seis anos, cujo pai, o pri­meiro es­poso da se­nhora Wan­der, ha­via fa­le­cido há dois anos. Esse ga­roto, coi­tado, sem­pre fora es­qui­sito. Eles eram nos­sos vi­zi­nhos de rua e dizia-se que às ve­zes até mesmo a mãe, o pa­drasto e a irmã mais ve­lha assustavam-se com suas re­a­ções inu­si­ta­das. Ao pas­sar pe­los dois, que de­certo to­ma­riam o pró­ximo ôni­bus lá em cima, ouvi o Ho­mero di­zer al­gu­mas pa­la­vras, o que tam­bém era muito raro, e voltar-se com o rosto co­berto pe­las mãos para o lado da mãe. Em mi­nha con­cen­tra­ção na cor­rida, le­vei al­gum tempo para de­co­di­fi­car os sig­nos pro­nun­ci­a­dos na­quela men­sa­gem. E ao fazê-lo, não houve tempo para mais nada. A se­nhora Wan­der e o Ho­mero fi­ca­ram para trás e mi­nhas pe­da­la­das, como era ne­ces­sá­rio na­quele tre­cho, fi­ze­ram com que a cor­rente bra­dasse forte no eixo tra­seiro, mas meus pen­sa­men­tos vi­a­ja­ram para o sem­blante in­qui­eto do ga­roto e tam­bém para suas pou­cas pa­la­vras di­tas à mar­gem da es­trada. Era tão raro ouvi-lo fa­lar… Nisso, detive-me à sua frase, com­pre­endi, mesmo com re­tardo, o que ele ha­via dito, e nada mais era do que isto: 

– Po­bre­zi­nho, ma­mãe. Que tombo feio!

Ao sabê-lo, uma re­a­ção es­tra­nha e au­to­má­tica incumbiu-me de ten­tar frear a bi­ci­cleta. Aper­tei como pude a haste es­querda sob o gui­dão. An­tes de qual­quer efeito, con­tudo, o pneu di­an­teiro chocou-se con­tra uma pe­dra, es­tou­rou e atirou-me, em meio a hor­ren­das cam­ba­lho­tas, a cinco ou seis me­tros abaixo. Tudo es­cu­re­ceu à mi­nha volta e eu per­ma­neci em coma por uma se­mana. Foi a pri­meira vez que eu soube por que de vez em quando a fa­mí­lia de Ho­mero assustava-se com ele.

Ca­pí­tulo 2

Ao re­cu­pe­rar a cons­ci­ên­cia, na santa casa de uma ci­dade vi­zi­nha, para onde fui le­vado na mesma hora em que me so­cor­re­ram du­rante o grande prê­mio, o ca­lor oprimia-me de tal ma­neira que tive a ní­tida im­pres­são de es­tar sendo co­zido para o jan­tar. Mi­nha mãe vigiava-me e não pôde con­ter as lá­gri­mas quando abri os olhos e sob a mais frá­gil das vo­zes disse aquela frase:

– Pre­ciso chu­par uma bala de hor­telã…

Era cu­ri­oso, mas sem­pre fui as­sim: en­quanto nos dias de muito ca­lor os ou­tros cos­tu­ma­vam banhar-se na pe­quena ca­cho­eira do re­gato que des­cia da mata, para mim bas­tava ti­rar do bolso uma bala verde de hor­telã e colocá-la na boca. Pronto. Uma sen­sa­ção re­fres­cante ocupava-me e eu fi­cava ali, de­baixo dos ga­lhos ape­nas ob­ser­vando a al­ga­zarra de­les den­tro da água. Sim, eu tam­bém apre­ci­ava a água, mas de­ci­di­da­mente o pa­la­dar já sig­ni­fi­cava uma es­pé­cie de con­du­tor de mi­nhas sen­sa­ções. Mi­nha mãe não car­re­gava con­sigo ne­nhuma bala de hor­telã no hos­pi­tal, e mesmo que a ti­vesse, cer­ta­mente não me te­ria dado an­tes de fa­zer o que fez: en­fiar o dedo na­quela cam­pai­nha que liga o quarto do pa­ci­ente à en­fer­ma­ria. Além do mais, ela foi to­mada por uma grande sur­presa ao cons­ta­tar um quase-milagre: mais tarde, muito mais tarde, pude sa­ber que as es­pe­ran­ças quanto à mi­nha re­cu­pe­ra­ção eram mí­ni­mas.

Dei­xei o hos­pi­tal duas se­ma­nas de­pois de cum­prir uma via cru­cis de exa­mes e de fi­car na fa­mosa ob­ser­va­ção, em que a úl­tima coisa que há é qual­quer ob­ser­va­ção, a não ser dos seus pa­ren­tes e ami­gos que vão visitá-lo. Claro, o mé­dico au­to­ri­zou que eu chu­passe quan­tas ba­las de hor­telã fossem-me pos­sí­veis. Quando a ci­da­de­zi­nha de Mi­rante Norte soube de meu re­torno, não houve dú­vi­das: o “quase” foi ex­tir­pado do termo que usei há pouco, per­ma­ne­cendo so­be­rano e in­dis­cu­tí­vel o “mi­la­gre”. Por al­gu­mas se­ma­nas, até que a po­eira bai­xasse, tornei-me uma certa ce­le­bri­dade. E foi até en­gra­çado, pois muita gente le­vou ao pé da le­tra os co­men­tá­rios so­bre a re­cu­pe­ra­ção mi­ra­cu­losa e, tal­vez obe­de­cendo in­cons­ci­en­te­mente a uma marca pró­pria da­que­les anos ses­senta, al­guns mo­ra­do­res, não ape­nas cri­an­ças, mas tam­bém adul­tos, pas­sa­ram a seguir-me em al­guns há­bi­tos. Por exem­plo, quando sou­be­ram que meu pri­meiro de­sejo ao acor­dar foi chu­par uma bala de hor­telã, cor­re­ram ao bar para es­to­car o pro­duto que de­ve­riam con­su­mir em nome de uma boa sorte. Se eu usava um boné cor de abó­bora, as ruas tingiam-se desse tom por um certo tempo. Na es­cola, eu po­dia mesmo re­cei­tar que tipo de ca­neta ou ca­derno meus co­le­gas de­ve­riam usar no de­cor­rer da­quele ano. 

E quanto a essa parte da his­tó­ria, acon­te­ceu algo inu­si­tado. Num certo dia, fui com­prar ba­las de hor­telã no bar mais pró­ximo de mi­nha casa e elas ti­nham aca­bado. Só no mês que vem, quando che­gar a pró­xima re­messa, disse-me o seu Ar­geu. Tudo bem, ha­via ou­tros ba­res e tam­bém dois ar­ma­zéns. Per­corri toda Mi­rante Norte, e nada. Os es­to­ques de ba­las de hor­telã es­ta­vam es­go­ta­dos. Desse modo, pa­rei de chupá-las, e per­cebi que meus co­le­gas e to­dos os ou­tros as­sim tam­bém agi­ram. Não sei que fim ti­ve­ram tan­tas ba­las nos es­to­ques ca­sei­ros, mas de­pois, quando che­gou a nova re­messa, o ve­rão já aca­bara e o fri­o­zi­nho do ou­tono re­que­ria uma boa bala de ca­nela.

De pouco em pouco, dei­xei de ser o dono das aten­ções. A ci­dade esqueceu-se do mi­la­gre e voltou-se ao seu sos­se­gado co­ti­di­ano. E nós apro­vei­ta­mos para re­to­mar nos­sos gran­des prê­mios. Mas, na mi­nha ca­beça, além de uma ra­zoá­vel ci­ca­triz e de umas do­res que, em­bora de­ca­den­tes, ainda incomodavam-me às ve­zes, uma in­qui­e­ta­ção to­mava corpo: a lem­brança de Ho­mero e de sua mãe, o me­nino com as mãos co­brindo o rosto, aque­las pa­la­vras: po­bre­zi­nho, ma­mãe, que tombo feio!

Ca­pí­tulo 3

Elisa. Esse é o nome da irmã mais ve­lha de Ho­mero. Na­quele ano que se ini­ci­ava, es­tu­da­ría­mos na mesma classe de pri­meira sé­rie gi­na­sial. En­gra­çado recordar-me disto, mas eu ja­mais ha­via re­pa­rado nela. Se­ria a idade? Na­quela época, es­tá­va­mos mais pre­o­cu­pa­dos com mui­tas ou­tras coi­sas an­tes de pen­sar­mos em ga­ro­tas. Se­ria a roupa de gi­na­si­ana: saia um pouco acima dos jo­e­lhos, com pre­gas que en­cor­pa­vam quem a ves­tisse, além de uma blusa branca que, fofa, em­pres­tava às me­ni­nas uma co­no­ta­ção de quase-mulher? Não sei di­zer o que se­ria, mas quando a vi sen­tada no pá­tio à es­pera da aula, chu­pei se­gui­da­mente um pa­cote in­teiro de ba­las de hor­telã.

Mi­nhas per­nas tre­me­ram no jan­tar da­quela noite quando, à mesa, eu disse a ma­mãe e pa­pai que Elisa es­tu­dava na mi­nha classe. Eles entreolharam-se de ma­neira es­tra­nha e de­pois, em si­lên­cio, não con­se­gui­ram dis­far­çar certo incô­modo. Ao meu lado, mi­nha irmã Helga fez, em meio às gar­fa­das, um co­men­tá­rio cu­jas con­seqüên­cias só ser­vi­ram para pi­o­rar as coi­sas:

– Ela está muito so­zi­nha este ano…

Helga é dois anos mais ve­lha do que eu e a ma­neira como se ex­pres­sou so­bre Elisa foi sin­to­má­tica, cra­vando no ar um olhar de co­mi­se­ra­ção. Eu sa­bia que ha­via algo er­rado, mas não po­dia in­ter­pe­lar mi­nha irmã ali, na frente de meus pais, cu­jas re­a­ções sus­ci­ta­das pela sim­ples men­ção ao nome de Elisa apre­sen­ta­ram um ar de ta­ma­nho des­con­forto. Até o fim do jan­tar, não se fa­lou mais so­bre o as­sunto. Tão logo Helga su­biu para o quarto, eu pude en­tão pedir-lhe al­gu­mas ex­pli­ca­ções.

Mi­nha irmã sem­pre foi muito dis­creta. Na­quela época, ela con­tava ca­torze anos, mas já pa­re­cia ser uma moça de de­zoito por seu com­por­ta­mento só­brio e não afeito a cri­an­ci­ces. Em­bora de iní­cio ela te­nha me cu­tu­cado so­bre o re­pen­tino in­te­resse por Elisa, já sus­pei­tando de meus sen­ti­men­tos, co­la­bo­rou con­forme mi­nhas in­ten­ções. Explicou-me que desde o ca­sa­mento da se­nhora Ma­da­lena com o re­pre­sen­tante co­mer­cial Da­mião Fausto, o que a tor­nou se­nhora Wan­der, em ra­zão do so­bre­nome dele, os mo­ra­do­res de Mi­rante Norte pas­sa­ram a afastar-se aos pou­cos de sua con­vi­vên­cia. Na ca­beça de mi­nha irmã, a ra­zão para isso era que a se­nhora Wan­der es­pe­rara muito pouco tempo para aban­do­nar a viu­vez e casar-se no­va­mente.

Ha­via, con­tudo, ou­tro mo­tivo, este sim de­ci­sivo para que o iso­la­mento da se­nhora Wan­der cres­cesse a cada dia: o tal Da­mião Fausto era visto com re­ser­vas pela so­ci­e­dade mi­ran­tina. Nin­guém sa­bia ao certo o que ele ven­dia e para qual em­presa tra­ba­lhava. Além disso, para alar­gar ainda mais a an­ti­pa­tia ge­ral, Da­mião Fausto ti­nha sido, há coisa de seis ou sete me­ses, res­pon­sá­vel di­reto pela morte do jo­vem pro­fes­sor Hil­de­brando, fi­lho do fa­zen­deiro To­nico For­tes, um dos ho­mens mais ri­cos de Mi­rante Norte. Re­su­mi­da­mente, o aci­dente deu-se as­sim: numa ma­dru­gada, Hil­de­brando dei­xava o clube so­cial, cuja sede localizava-se bem na en­trada da ci­dade, quando Da­mião Fausto apon­tou com seu au­to­mó­vel em alta ve­lo­ci­dade para os pa­drões da época. A rua es­tava de­serta e cho­via muito. Da­mião Fausto não pa­rou e o pro­fes­sor mor­reu ali mesmo, com a boca va­zando san­gue nos pa­ra­le­le­pí­pe­dos. No ou­tro dia, Da­mião Fausto ale­gou não ter per­ce­bido o atro­pe­la­mento em meio ao agua­ceiro, mesmo que o pára-choque de seu carro es­ti­vesse todo amas­sado. Bem, o fato é que mis­te­ri­o­sa­mente ele foi jul­gado e con­si­de­rado ino­cente. Com isso, a ci­dade, in­cluindo é claro o fa­zen­deiro To­nico For­tes, nunca se con­for­mou.

Es­sas in­for­ma­ções eu as ob­tive com mi­nha mãe. Ló­gico que os de­ta­lhes só che­ga­ram ao meu co­nhe­ci­mento muito mais tarde, mas grosso modo dava para com­pre­en­der por que sem­pre vi­ra­vam a cara para a po­bre se­nhora Wan­der e, de que­bra, para seus fi­lhos, Ho­mero e Elisa.

As se­ma­nas da­quele novo ano cor­re­ram feito lou­cas e, com o tempo e a ajuda de Helga, pude fa­zer ami­zade com Elisa. No in­ter­valo das au­las, sem­pre chu­pá­va­mos mui­tas ba­las de hor­telã. Meu Deus, eu nem me lem­brava mais das his­tó­rias a res­peito do Da­mião Fausto, tal era o meu de­sejo de per­ma­ne­cer ao lado dela. Um dia, to­mei co­ra­gem e pedi à mi­nha mãe para que me au­to­ri­zasse a fa­zer a li­ção de casa com ela, mas a res­posta foi ne­ga­tiva. Ló­gico, fui as­sim mesmo. A se­nhora Wan­der, que quase sem­pre encontrava-se so­zi­nha com Ho­mero e a fi­lha, pois o ma­rido vi­a­java cons­tan­te­mente, pas­sou a considerar-me muito. Po­bre­zi­nha, em to­das as ve­zes que lá es­tive na­que­les ou­tono, in­verno e co­meço de pri­ma­vera de 1962, acho que pre­sen­ciei ape­nas a vi­sita de uma ou duas pes­soas, as­sim mesmo uma sendo sua pa­rente de ou­tra ci­dade.

As­sim, en­quanto meus ami­gos acha­vam que eu es­tava em casa es­tu­dando, e mi­nha mãe pen­sava que eu ha­via saído com meus ami­gos, um ou dois dias por se­mana eu sem­pre dava um jeito de ir ver Elisa. Com essa freqüên­cia, foi im­pos­sí­vel não per­ce­ber al­gu­mas si­tu­a­ções es­tra­nhas pro­vo­ca­das pelo so­turno Ho­mero. Em­bora eu não pu­desse com­pre­en­der exa­ta­mente o que se pas­sava, por­que eu e Elisa es­tu­dá­va­mos longe dele, era algo per­cep­tí­vel o es­forço da se­nhora Wan­der para dis­far­çar cer­tas re­a­ções do fi­lho, pro­cu­rando des­fa­zer até mesmo o cons­tran­gi­mento que eu des­co­bria nos olhos de mi­nha amiga. 

Numa oca­sião, es­tá­va­mos com os li­vros aber­tos no es­cri­tó­rio de Da­mião Fausto, quando ou­vi­mos o choro co­pi­oso de Ho­mero em seu quarto. Elisa cor­reu para lá, en­quanto eu, tal­vez por res­peito a algo que ima­gi­nava cons­tran­ge­dor para a fa­mí­lia, per­ma­neci ali, qui­eto, ape­nas ou­vindo o me­nino la­men­tar:

– Po­bre­zi­nha da vovó, po­bre­zi­nha da vovó…

De­mo­rei so­mente al­guns se­gun­dos para en­ten­der que Ho­mero pos­suía uma es­pé­cie de sexto sen­tido. Dali a pouco, en­quanto a se­nhora Wan­der con­so­lava o fi­lho, o te­le­fone preto to­cou na sala. Do ou­tro lado da li­nha, co­mu­ni­ca­ram a morte da avó de Elisa. En­farte.

Ca­pí­tulo 4

Quando eles vol­ta­ram da vi­a­gem ao en­terro, re­to­ma­mos nos­sos en­con­tros, sem­pre à tarde. Para ser dis­creto, em vez de ir pela rua, eu saía pe­los fun­dos de mi­nha casa, atra­ves­sava um po­mar e to­mava o ca­mi­nho de terra à beira do re­gato que es­cor­ria da mata e se­guia seu curso por uma vasta pla­ní­cie até de­sa­pa­re­cer lá longe. Nos fun­dos da casa de Elisa, eu es­con­dia mi­nha bi­ci­cleta em meio à ve­ge­ta­ção e, cui­dando de modo a não ser fla­grado, vol­tava à rua para en­trar na re­si­dên­cia de acordo com a boa edu­ca­ção. Tal­vez me ti­ves­sem visto uma ou ou­tra vez, mas acre­dito que nunca dis­se­ram nada à mi­nha mãe. E se dis­se­ram, ela man­teve a ele­gân­cia de não me acu­sar por algo que, aliás, es­tava longe de ser um crime. 

Elisa manteve-se en­tris­te­cida por um bom pe­ríodo. Lembro-me que já che­ga­vam os dias mais frios e isso pa­re­cia co­la­bo­rar para mantê-la en­clau­su­rada em sua me­lan­co­lia. En­tão, num mo­mento de co­ra­gem, perguntei-lhe so­bre Ho­mero. Como ele pôde sa­ber da morte da avó an­tes do te­le­fo­nema? Elisa pro­cu­rou afas­tar a nu­vem cin­zenta que pai­rava so­bre sua ca­beça e, como sem­pre o fa­zia ao dirigir-se a mim, pôs no rosto ebúr­neo uma lu­mi­no­si­dade que con­tras­tou de ma­neira ex­tra­or­di­ná­ria com seus olhos ne­gros. Tomou-me pela mão, disse à mãe que me mos­tra­ria algo no “quar­ti­nho” e puxou-me com avi­dez aos fun­dos do quin­tal.

Nosso diá­logo lá foi mais ou me­nos o se­guinte:

– Você é meu amigo de ver­dade, Rô­mulo. Eu sei que é…

– Sim, claro que sou.

Ver­da­dei­ra­mente, con­fesso, eu pre­ten­dia ser bem mais do que um amigo de Elisa, mesmo aos doze anos. Eu que­ria ser seu na­mo­rado, seu noivo, seu ma­rido, o pai de seus fi­lhos, a avô de seus ne­tos, o com­pa­nheiro dela no qua­dro que os des­cen­den­tes cos­tu­ma­vam fi­xar na pa­rede re­tra­tando seus an­te­pas­sa­dos.

– É que ma­mãe me pede to­dos os dias para que nin­guém saiba so­bre Ho­mero.

– Mas em mim você sabe que pode con­fiar.

– Eu sei, em você eu con­fio.

– En­tão?

– Ho­mero está dois mi­nu­tos adi­an­tado…

Ao ou­vir isso, mi­nha pri­meira re­a­ção foi ob­ser­var lá fora do quar­ti­nho, na di­re­ção do quin­tal, onde se per­diam na­quele exato mo­mento os olhos ne­gros de Elisa. Por um lapso, pen­sei que ve­ria Ho­mero fa­zendo algo que ele de­ve­ria fa­zer so­mente dali a dois mi­nu­tos. Mas logo, e prin­ci­pal­mente quando me dei conta de que não ha­via nin­guém lá fora, muito me­nos o ga­roto, uma sen­sa­ção de medo percorreu-me o san­gue. Mesmo com o frio, pre­ci­sei sa­car duas ba­las de hor­telã e chupá-las im­pul­si­va­mente.

No quar­ti­nho dos fun­dos da casa de Elisa, eu soube que o ir­mão­zi­nho dela vi­via um tempo que não era o nosso. Ele sem­pre es­tava à frente, vi­vendo tudo an­tes de to­dos. Era isso que acon­te­cia com ele e que a se­nhora Wan­der não gos­ta­ria de re­ve­lar aos ou­tros. De­pois do golpe ini­cial, cu­jas con­seqüên­cias puseram-me a ima­gi­nar mil coi­sas so­bre­na­tu­rais so­bre Ho­mero, acalmei-me e muito de­pressa pas­sei a achar aquilo en­gra­çado. Eu já ou­vira fa­lar de pes­soas que ti­nham vi­sões, mas de al­guém que es­ti­vesse adi­an­tado no tempo, ja­mais. Ab­surdo. Im­pos­sí­vel. Foi o que me veio à ca­beça, mas não jun­tei co­ra­gem su­fi­ci­ente para ex­por essa opi­nião, o que po­de­ria re­sul­tar até mesmo em ofensa. Por ou­tro lado, que di­fe­rença fa­zia? O fato era que Ho­mero sa­bia de cer­tas coi­sas com de­ses­pe­ra­dora an­te­ce­dên­cia. Dei­xei que Elisa man­ti­vesse sua in­ter­pre­ta­ção, bas­tante ori­gi­nal que se diga, so­bre o fenô­meno vi­vido es­po­ra­di­ca­mente pelo ir­mão.

Aqui, abro pa­rên­tese para uma cons­ta­ta­ção. Quando a se­nhora Wan­der acei­tava o des­prezo das pes­soas de Mi­rante Norte, essa ati­tude parecia-me um tanto co­varde. Em to­dos aque­les dias junto de Elisa, eu pro­cu­rava, acho que in­vo­lun­ta­ri­a­mente, des­con­si­de­rar esse as­pecto do com­por­ta­mento da mãe de mi­nha amiga, que no mais mostrava-se uma pes­soa ca­ri­nhosa e de ótimo re­la­ci­o­na­mento. Con­tudo, ao to­mar co­nhe­ci­mento dessa fa­ceta inu­si­tada de Ho­mero, uma ver­go­nha tin­giu mi­nha alma. Quanto não so­fre­ria aquela mu­lher em seu iso­la­mento? So­fria e mesmo as­sim de­ve­ria de­se­jar a con­ti­nui­dade de seu so­fri­mento, pois, em tais cir­cuns­tân­cias, quanto maior fosse o grau de seu iso­la­mento, mais se­guro es­ta­ria seu se­gredo. En­tão, pas­sei a admirá-la com­ple­ta­mente, agora tam­bém por sua do­lo­rosa de­di­ca­ção como mãe. Fe­cho o pa­rên­tese.

Mas a res­peito de Ho­mero, contou-me Elisa que a mãe en­con­trara na ca­pi­tal um psi­qui­a­tra dis­posto a es­tu­dar a fundo o caso do fi­lho. Mas o pa­drasto, que, me di­zia ela, nem de longe mostrava-se má pes­soa, dera opi­nião con­trá­ria. Para Da­mião Fausto, caso esse con­tato fosse feito con­cre­ta­mente, eles per­de­riam o con­trole da si­tu­a­ção. Te­mia a cu­ri­o­si­dade das pes­soas, a me­di­cina, que po­de­ria tor­nar o ga­roto uma es­pé­cie de co­baia, a im­prensa sem­pre ávida por no­tí­cias sen­sa­ci­o­nais e, por fim, a pró­pria so­ci­e­dade de Mi­rante Norte, que po­de­ria am­pliar ainda mais seu des­gosto com aquela fa­mí­lia.

E desse modo ou­tros dias cor­re­ram, até que numa de mi­nhas vi­si­tas, ao che­gar à casa de Elisa, apres­sado em ra­zão da in­ter­mi­tente chuva de in­verno, avis­tei Ho­mero en­trando so­zi­nho no quar­ti­nho dos fun­dos. Não sei o que me le­vou a bis­bi­lho­tar as­sim a vida alheia, mas sal­tei a cerca do quin­tal e, cui­da­doso, aproximei-me da ja­nela do cô­modo iso­lado. Lá den­tro es­tava o Da­mião Fausto. Com ca­ri­nho, ele mos­trava al­guns nú­me­ros a Ho­mero e pe­dia para que o me­nino apon­tasse quais se­riam os sor­te­a­dos na lo­te­ria ou no jogo do bi­cho, sabe-se lá. Mas Ho­mero pouco com­pre­en­dia aquilo, as­sim como Da­mião Fausto tal­vez tam­bém não com­pre­en­desse a con­di­ção do en­te­ado. Dei­xei os dois ali e vol­tei à porta da frente da casa. 

Mais tarde, de­pois que o pa­drasto saiu para ver qual­quer coisa na ci­dade, Elisa disse-me que na­quele dia Ho­mero ti­nha pre­visto ou­tra des­graça e que de­vido a essa pre­vi­são a tra­gé­dia não se con­cre­ti­zara. De au­to­mó­vel, vi­nham da ci­dade vi­zi­nha, onde ti­nham feito com­pras, Da­mião Fausto e a se­nhora Wan­der, tra­zendo Ho­mero com eles. A pou­cos quilô­me­tros de Mi­rante Norte, Ho­mero des­pen­cara a cho­rar, en­quanto gri­tava algo como:

– Po­bre­zi­nha da ma­mãe, po­bre­zi­nha da ma­mãe… ôni­bus mal, ôni­bus mal…

Com os olhos en­char­ca­dos, Elisa contou-me que a cada pa­la­vra, Ho­mero aca­ri­ci­ava os ca­be­los da mãe, sob forte co­mo­ção. Nisso, Da­mião Fausto di­vi­sou vindo pela pista con­trá­ria um ôni­bus in­ter­mu­ni­ci­pal. Como sou­besse de acon­te­ci­men­tos an­te­ri­o­res, in­clu­sive o úl­timo, re­la­ci­o­nado à so­gra, freou o quanto pôde o au­to­mó­vel e con­se­guiu aces­sar uma es­trada de terra que li­gava a ro­do­via a uma en­trada de fa­zenda. Mal con­cluiu a ma­no­bra e ou­viu o es­touro cau­sado por um dos pneus do ôni­bus, que se des­go­ver­nou e in­va­diu a pista con­trá­ria. Pe­los cál­cu­los de Da­mião Fausto, o mo­to­rista le­vou ao me­nos tre­zen­tos me­tros para re­to­mar o con­trole do ôni­bus e pa­rar no acos­ta­mento.

– Pa­pai nos disse que se não ti­vesse saído da es­trada, o ôni­bus te­ria pas­sado por cima do nosso carro.

Elisa e o ir­mão cha­ma­vam Da­mião Fausto de “Pa­pai”. E acho que na­quele dia, “Pa­pai” convenceu-se de que po­de­ria ti­rar pro­veito de Ho­mero tam­bém para se dar bem na vida.

Ca­pí­tulo 5 

Numa das úl­ti­mas ve­zes em que fui à casa de Elisa, per­cebi que ha­via um clima di­fe­rente dos ou­tros dias. A se­nhora Wan­der tratou-me com edu­ca­ção, claro, mas não foi a mesma de sem­pre, preocupando-se muito em es­con­der os olhos ver­me­lhos de ter cho­rado re­cen­te­mente. Elisa deu a fi­cha: os pais ti­nham dis­cu­tido ou­tra vez. “Ou­tra vez”? Sim, as dis­cus­sões que nunca ha­viam ocor­rido, agora tornavam-se freqüen­tes. O mo­tivo era sim­ples: de­pois do quase-acidente na es­trada, a se­nhora Wan­der não su­por­tava mais vi­ver da­quela ma­neira e de­se­java a todo custo le­var o fi­lho para um tra­ta­mento psi­quiá­trico, em­bora não ti­vesse cer­teza de que algo as­sim pu­desse re­sul­tar em be­ne­fí­cios para ele. Já Da­mião Fausto interpunha-se. 

– Ma­mãe tam­bém re­cla­mou de umas coi­sas que o Pa­pai está pe­dindo ao Ho­mero. Ela o cha­mou de apro­vei­ta­dor.

Daí em di­ante, as coi­sas ape­nas pi­o­ra­ram. Elisa tam­bém vi­via cho­rando, o que me dei­xava ter­ri­vel­mente triste. Por vá­rias ve­zes, che­guei a de­se­jar que Da­mião Fausto fosse em­bora e nunca mais vol­tasse. Mas ele sem­pre vol­tava. Até que numa tarde, co­meço de pri­ma­vera, um sol es­cal­dante cla­re­ando ou­tra vez os ipês flo­ri­dos que di­vi­diam ao meio as duas ave­ni­das de Mi­rante Norte, es­tava com mi­nha bi­ci­cleta dei­xando o Ar­ma­zém Cen­tral, onde es­co­lhera al­gu­mas fru­tas a pe­dido de ma­mãe, quando Da­mião Fausto freou brus­ca­mente seu pe­queno ca­mi­nhão Che­vro­let, aqui­si­ção re­cente, e abriu um sor­riso em mi­nha di­re­ção:

– Va­mos lá, Rô­mulo, bote a bi­ci­cleta aí em cima e va­mos com a gente!

Ele ia ani­mado com seu novo veí­culo. Ho­mero es­tava ao seu lado, olhando-me com a face mais inex­pres­siva do mundo. En­tão, abri a porta, pus a cesta de fru­tas so­bre o banco, ao lado do ga­roto, e preparei-me para er­guer a bi­ci­cleta e instalá-la na car­ro­ce­ria. Nesse in­ter­valo po­rém, ouvi Ho­mero desesperar-se de­pois de um grito de pa­vor:

– Po­bre­zi­nho do Pa­pai, po­bre­zi­nho do Pa­pai… Não, Pa­pai… Não, Pa­pai…

Meu co­ra­ção ame­a­çou desgarrar-se de veias, va­sos e ar­té­rias. Quis mesmo comprimir-se e su­bir pela gar­ganta, sal­tando, apa­vo­rado, boca afora. En­quanto eu em­pre­en­dia mi­nha luta con­tra esse de­sejo en­fu­re­cido do co­ra­ção e con­tra to­dos os re­ceios que re­caíam so­bre mi­nha alma na­quela hora an­gus­ti­ante, ob­ser­vei que, num salto, Ho­mero agarrou-se a Da­mião Fausto, beijando-o com afli­ção, esfregando-se con­tra a face do pa­drasto e re­pe­tindo:

– Po­bre­zi­nho do Pa­pai, po­bre­zi­nho do Pa­pai… Não, Pa­pai… Não, Pa­pai…

Foi quando tive pena de Da­mião Fausto. Cer­ta­mente mais aflito do que eu e mais ago­ni­ado do que o pró­prio en­te­ado, tornou-se branco como cera. As­sim como eu, ele sa­bia que algo es­tava para acon­te­cer e tudo le­vava a crer que a ví­tima, dessa vez, se­ria ele mesmo: Da­mião Fausto. Num fio de voz que re­ti­nia fino de sua gar­ganta, ele ainda in­ter­pe­lou o me­nino:

– O que foi, Me­ri­nho? O que foi, Me­ri­nho?

Mas ia ser tarde. Do ou­tro lado da rua, de­baixo de um ipê cu­jos ga­lhos ar­ro­xe­a­dos sa­cu­diam le­ve­mente, fa­zendo dan­çar ao vento as pé­ta­las de suas flo­res vo­lup­tu­o­sas, o fa­zen­deiro To­nico For­tes em pes­soa, sem ca­panga ou ma­ta­dor, já er­guia na di­re­ção do Da­mião Fausto sua gar­ru­cha de dois ca­nos.

Ca­pí­tulo 6 – Epí­logo

De­pois da­quela tarde pa­vo­rosa, es­tive na casa de Elisa ape­nas uma vez, para despedir-me dela e tam­bém da mãe e do ir­mão. Com a morte de Da­mião Fausto, descobriram-se os me­an­dros de sua vida. Como suspeitava-se na­quela época em Mi­rante Norte, vi­via em meio a ati­vi­da­des cri­mi­no­sas, cu­jas ca­rac­te­rís­ti­cas pre­firo omi­tir neste mo­mento. Com a ajuda de fa­mi­li­a­res, a se­nhora Wan­der mudou-se para a ca­pi­tal, onde pas­sou a tra­tar o fi­lho com es­pe­ci­a­lis­tas. O ga­roto, no en­tanto, mor­reu pou­cos anos de­pois, por com­pli­ca­ções pul­mo­na­res.

Tudo isso fi­ca­mos sa­bendo ainda em Mi­rante Norte, nos dias em que se su­ce­de­ram às tra­gé­dias, a tra­gé­dia fa­mi­liar de­les e a tra­gé­dia amo­rosa mi­nha, se é que um ga­roto de doze anos pode ser le­vado a sé­rio quando se in­sere numa tra­gé­dia amo­rosa pró­pria. O que fi­quei sa­bendo há pouco foi que, ao mor­rer, Ho­mero tam­bém o fez de modo mis­te­ri­oso. So­mente os apa­re­lhos eram ca­pa­zes de mantê-lo res­pi­rando. Con­ven­cida pe­los mé­di­cos de que não ha­ve­ria re­torno, a se­nhora Wan­der, pen­sando, te­nho cer­teza disto, ape­nas no so­fri­mento do fi­lho, per­mi­tiu que fos­sem des­li­ga­dos. An­tes que isso ocor­resse, en­tre­tanto, Ho­mero recusou-se a se­guir as­pi­rando aquele ar que lhe era obri­ga­to­ri­a­mente en­fi­ado pe­las na­ri­nas. Mor­reu an­tes da hora. 

– Acho que se ti­ves­sem cro­no­me­trado o tempo en­tre a morte e o mo­mento em que os mé­di­cos iriam des­li­gar os apa­re­lhos, se­riam dois mi­nu­tos.

Disse-me as­sim a pró­pria Elisa. Por um des­ses aca­sos, encontrei-a saindo de uma loja. Eu a re­co­nheci por tê-la visto, psi­qui­a­tra fa­mosa que é, em no­tí­cias de jor­nais e numa opor­tu­ni­dade tam­bém na te­le­vi­são. Dessa vez, não pre­ci­sei de ba­las de hor­telã. Con­ver­sei com ela sen­tindo o gosto de uma es­tra­nha nos­tal­gia, não sei se mar­cada pela tris­teza ou pela fe­li­ci­dade, ape­nas uma nos­tal­gia. Mas o que me ator­menta desde en­tão é ou­tra coisa. Será que eu de­ve­ria ter con­tado a ela so­bre o que se pas­sou na­quela tarde fa­tí­dica? O que só eu pude ver e nin­guém mais? Que an­tes do dis­paro feito pelo fa­zen­deiro con­tra Da­mião Fausto, e logo de­pois que Ho­mero bei­jou e es­fre­gou sua face na do pa­drasto, que já nesse mo­mento tes­te­mu­nhei, ater­ro­ri­zado, os lá­bios do me­nino, e mesmo seu rosto, man­cha­dos de um san­gue que ainda es­gui­cha­ria?

(Fim)

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