Crônicas

O graal e meus cachorros

sexta-feira, 2 de junho de 2017 Texto de

Blog graal e meus cachorros

Eu te­nho medo de que me falte o prin­ci­pal: o tempo.

É aquela sen­sa­ção amarga da in­cer­teza. Por­que o de­pois é algo ab­so­lu­ta­mente im­pre­vi­sí­vel. Sua face é inal­can­çá­vel, sem­pre. En­tão, so­bra a esse res­peito ape­nas um va­zio incô­modo. O abismo as­sus­ta­dor en­tre In­di­ana Jo­nes e o graal. Con­ve­nha­mos, to­dos de­ve­mos so­nhar com nosso graal, in­de­pen­den­te­mente do qui­late de seu me­tal ou da no­breza de sua ma­deira. Ele pre­cisa es­tar lá, mesmo dis­tante e pro­te­gido pelo grande vá­cuo, mesmo sendo às ve­zes quase ina­ces­sí­vel, ele pre­cisa es­tar lá, pois ine­vi­ta­vel­mente sem­pre va­mos para lá.

No fundo, to­dos so­mos como o pro­ta­go­nista do “De­serto dos tár­ta­ros” (de Dino Buz­zati), bem ou mal to­dos vi­ve­mos em busca do con­fronto com nosso des­tino, ape­sar de es­tar­mos eter­na­mente ame­a­ça­dos por to­das as pe­ças que ele pode nos pre­gar. O des­tino é uma coisa cu­ri­osa. Por­que quando o afa­ga­mos, nunca sa­be­mos se re­al­mente se trata dele mesmo, do des­tino. Sua si­lhu­eta fan­tas­ma­gó­rica in­sí­pida ino­dora nos con­funde. De todo modo, as­sim mesmo nós o bus­ca­mos com o rabo en­fi­ado en­tre as per­nas. É que uma mu­lher ou um ho­mem sem um pro­jeto não vive. Ape­nas se en­trega. Não é. Ape­nas está.

Por isso, quando penso no meu des­tino, quero me­ter o be­de­lho em sua de­fi­ni­ção, do “d” ao “o”. Não quero fu­gir dessa res­pon­sa­bi­li­dade. Quero pen­sar que posso. Meu de­sejo é uma or­dem. Para mim mesmo, claro. Daí, o tal medo. Por­que sei que mi­nha luta é ca­paz de in­flu­en­ciar meu des­tino, mas tam­bém te­nho cons­ci­ên­cia de mi­nha com­pleta im­po­tên­cia para in­ter­vir na li­nha do tempo. Daí, a ori­gem do tal medo.

De­pois de uma noite em que os pra­ze­res fo­ram se dei­tar co­migo numa cama onde cor­pos ama­nhe­ce­ram fe­dendo a suor e a sê­men, es­tou ali sen­tado numa pe­dra de frente para o mato le­ve­mente mo­lhado que cheira a ar­dume e me­mó­ria, os fo­ci­nhos ge­la­dos dos meus três ca­chor­ros se re­ve­zam para me dar bom dia, ergo a ca­neca de alu­mí­nio acima da ca­beça para que a festa de­les não der­rame meu café, deixo es­ca­par um longo sus­piro, em se­guida bo­cejo e peido rui­do­sa­mente en­quanto ergo um pouco a bunda do lado es­querdo para dar pas­sa­gem aos ga­ses que se pro­je­tam rumo a um es­paço tão imenso de li­ber­dade que nada pode atra­pa­lhar o pró­ximo gole fu­me­gante, ahhhhh, não te­nho nada para fa­zer hoje, só fi­car me lem­brando de como foi boa a noite, nisso olho para a ca­si­nha com a porta ainda en­tre­a­berta, só te­nho que fi­car me lem­brando de como po­derá ser bom o dia, acho que nem vou pla­ne­jar meu ama­nhã, aca­ri­cio Pan­cho Villa Clint, um de cada vez para ser justo e não des­per­tar ciú­mes logo cedo, penso ou­tra vez: acho que nem vou pla­ne­jar meu ama­nhã, e nisso meu co­ra­ção dá um salto, não sei se de fe­li­ci­dade, apre­en­são, nos­tal­gia, amar­gura, re­ceio ou o quer que seja, bru­tal­mente essa bomba in­can­sá­vel me lem­bra aqui den­tro do meu des­tino, de que foi para isto que vivi, agora cu­ri­o­sa­mente já volta aquele medo do iní­cio, é que um ou­tro va­zio co­meça a se criar en­tre mim e um novo graal cuja som­bra vai sur­gindo lá adi­ante em meio aos ar­bus­tos e ao pio dos pas­sa­ri­nhos, sei que não posso fa­zer nada quanto ao tempo, mas é para lá que eu vou, a única coisa que pode dar er­rado é não encontrá-lo a tempo, o novo graal, mas caso as­sim seja já não es­ta­rei aqui para la­men­tar.

É desse jeito, ami­gos, que mato, um a um, to­dos os me­dos que me apa­re­cem pela frente. 

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