Crônicas

Das 20h às 23h28

quinta-feira, 17 de março de 2016 Texto de

Chupa, Lula! Às oito ho­ras, gri­ta­ram lá em­baixo no mo­mento em que fe­chei o vi­dro do nono, pen­du­rei a bolsa no om­bro di­reito (pro­ce­di­mento que se não me en­gano está co­me­çando a me dar dor nas cos­tas) e desci a pé os quase du­zen­tos de­graus (ali­via um pouco o peso da cons­ci­ên­cia), dei boa noite ao guarda-noturno que sem­pre me diz bom des­canso pro se­nhor (pro se­nhor!), ga­nhei a cal­çada e dei de cara com dois ca­ras, um ne­gro alto e um branco baixo, am­bos pa­ra­dos ou­vindo algo no ce­lu­lar, que logo per­cebi como sendo a tal gra­va­ção Lula/Dilma.

Avan­cei um pouco e, nas me­sas de cal­çada em beira-bar, fer­vi­lha­vam vo­zes e sons so­bre o tema. En­tre tan­tas coi­sas que nos vêm à mente de uma só vez, sobreveio-me o pen­sa­mento cu­ri­oso de que, puxa, não é sem­pre que o fu­te­bol dá lu­gar à po­lí­tica nos pa­pos de por aí. Mas o pen­sa­mento voa, e nisso me dei conta de re­pente que não se tra­tava bem disso. Na ver­dade, a tal gra­va­ção era, mais do que uma ques­tão po­lí­tica, um epi­só­dio vul­gar de mo­tel. Por­que as­sim é que me pa­re­ceu ser tra­tado. Como aquele cara que não sei onde pe­gou a mu­lher no fla­gra com um amigo en­trando no mo­tel e teve a pa­chorra de gra­var tudo. Em torno de ce­lu­la­res, era as­sim que ab­sor­viam a con­versa en­tre a pre­si­dente e o novo mi­nis­tro.

O si­nal abriu pra mim. Quase sem per­ce­ber, ru­mi­nei a co­brança que so­fri à tar­de­zi­nha. A co­lega, in­dig­nada com a no­me­a­ção de Lula, me­diu mi­nha pes­soa e de re­pente sol­tou acho que você é pe­tista, fi­cou qui­eto o dia in­teiro! Te­nho pre­guiça, mas ex­pli­quei que não sou pe­tista, não sou mi­li­tante po­lí­tico, sou ape­nas jor­na­lista. Mas aquilo pa­rece que gru­dou em mim. O que é que eu sou nesta hora? Ou­tro dia, vi um post de um ami­gão meu no fa­ce­book. Di­zia (não en­de­re­çado a mim, mas em ter­mos ge­rais) algo as­sim: é hora de você di­zer de que lado está. Con­fesso que me deu um certo frio na bar­riga. Não que de al­gum modo eu te­nha me sen­tido ame­a­çado, mas por­que de al­gum modo pen­sei que pu­desse ha­ver al­guém ame­a­çando.

O que eu sou?

Sou um cara, jor­na­lista ou não, de­sen­can­tado com a po­lí­tica e, em no­venta e cinco por cento do dia, com a pró­pria hu­ma­ni­dade. E isso tal­vez me ajude a aden­trar a sen­sa­ção de li­ber­dade para mer­gu­lhar aqui e ali em busca de res­pos­tas, ou me­lhor, em busca de com­pre­en­der o que está ro­lando ao meu re­dor.

Ao mesmo tempo em que fico de­cep­ci­o­nado cada vez que ouço uma des­sas gra­va­ções to­das, por­que no fundo, por mais que me sen­tisse pre­pa­rado, eu ja­mais ima­gi­nava a pos­si­bi­li­dade de tanto lixo, tam­bém me per­gunto até que ponto um juiz, so­zi­nho com sua re­les cons­ci­ên­cia, pode ser tão ir­res­pon­sá­vel e di­ta­dor. Ao mesmo tempo em que me per­turba uma frase des­res­pei­tosa de um dos gra­va­dos, tam­bém me per­gunto o que há ali de alheio ao nosso pró­prio co­ti­di­ano. Aliás, achei cu­ri­o­sas as ca­ras dos apre­sen­ta­do­res do Jor­nal Na­ci­o­nal quando da­vam aquela pa­ra­di­nha para di­zer que fu­lano ou bel­trano ha­via sol­tado um pa­la­vrão. Nossa! Fu­lano ou bel­trano disse um pa­la­vrão. Que as­sep­sia!

O jor­na­lismo de­ve­ria, isto sim, preocupar-se um pouco mais com a qua­li­dade de seu con­teúdo. Se al­guém sem au­di­ção as­sis­tisse hoje ao JN, po­de­ria achar, das oito e meia às nove e pouco, que es­tá­va­mos a mi­nu­tos de um jogo qual­quer da se­le­ção bra­si­leira. Por­que é as­sim que tra­ta­ram um mo­mento im­por­tante da his­tó­ria, sem­pre um po­vão pu­lando no fundo e um re­pór­ter atro­pe­lando as pa­la­vras à frente. Aliás, nes­sas ho­ras é que é pre­ciso um pouco de isen­ção. Apre­sen­ta­do­res er­rando a toda hora de­mons­tra­vam o ner­vo­sismo que vi­nha de onde mesmo? Tro­ca­ram no­mes, car­gos e até in­ven­ta­ram um novo tri­bu­nal no in­ter­valo do jogo do Co­rinthi­ans, quando o ân­cora do Jor­nal da Globo tas­cou “Su­premo Tri­bu­nal de Jus­tiça”. To­dos sa­be­mos (?) que é ou Su­pe­rior Tri­bu­nal de Jus­tiça ou Su­premo Tri­bu­nal Fe­de­ral, não é ver­dade?

Mas não foi só isso, claro. Du­rante todo o dia – lembrei-me en­quanto dava mais uma go­lada – vi nos por­tais de in­for­ma­ção o modo abrupto como mui­tos jor­na­lis­tas de re­nome con­du­zi­ram a ten­são em Bra­sí­lia. Hoje, a ver­dade é que o no­ti­ciá­rio vi­rou uma sa­vana que as­sus­ta­ria até mesmo as hi­e­nas. Não é pre­ciso de­se­nhar, é?

Bom, já eram mais de nove. Es­queci de di­zer que quando che­guei em casa e li­guei a TV, ainda com a bolsa no om­bro, es­pe­rei o pri­meiro bloco do JN e corri na es­tante pe­gar um vi­nho de vinte e nove re­ais. Pe­guei tam­bém o abri­dor, mas não pre­ci­sou. Para mais uma de­cep­ção, era da­que­les que você só de­sen­rosca a tam­pi­nha. Fui be­be­ri­cando. Às nove e pouco, o Ro­drigo San­toro che­gou numa en­cru­zi­lhada. Se não me en­gano, era Sal­va­dor ou zona ru­ral, algo as­sim. Co­me­cei a za­pear ainda sen­tado no sofá. Pa­la­vras, ce­nas, gra­va­ções, pa­la­vrões, tudo se em­ba­ra­lhando aqui den­tro. Nada nos ca­nais de fil­mes, já ti­nha visto o epi­só­dio dos Simp­sons, South Park ainda não es­tava pas­sando. Comi uma sa­lada e um san­duí­che vendo vá­rios no­ti­ciá­rios, um cro­co­dilo sal­tou e tor­ceu algo com sua man­dí­bula va­ga­bunda, uma mu­lher loira ex­pli­cava como se­car não sei o quê (se não me en­gano, al­guma parte do corpo), um nar­ra­dor de voz grave anun­ci­ava a des­co­berta de um sar­có­fago do ano um an­tes de Deus e, por fim, me deu von­tade de ca­gar.

De­pois do ba­nho, can­sado, fui me dei­tar, en­saiei le­var adi­ante o Joyce que es­tou lendo, mas não sei por que, exa­ta­mente às onze e vinte e oito, tive que me le­van­tar, li­gar o com­pu­ta­dor e me por a es­cre­ver, obe­de­cendo a essa he­rança mal­dita, essa co­mi­chão que in­cen­deia o peito e nos faz gri­tar pe­las fa­lan­ges. E agora, desde o se­gundo an­dar, ouço que ali em­baixo um ca­mi­nhão está pa­rado e uns ca­ras uni­for­mi­za­dos pa­re­cem fa­zer al­gum tipo de ne­bu­li­za­ção. Deve ser con­tra a den­gue, ape­nas um dos mui­tos ma­les in­cu­rá­veis deste país. 

O ar está tão pe­sado, quase ir­res­pi­rá­vel. Acho que vou me fe­char aqui den­tro. Acho que é o me­lhor para al­guém como eu. 

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