Crônicas

Show particular

terça-feira, 6 de outubro de 2015 Texto de

Pen­sou as­sim: como é que pode al­guém di­zer tanta coisa bo­nita? Ah, a de­si­gual­dade é real, e como é! Per­ce­beu que ele aper­tava sua mão e aos pou­cos a le­vava para pou­sar so­bre sua coxa es­querda, sen­tiu aquele ar­re­pio de sem­pre na nuca, um ar­re­pio que, feito có­lica de rim, você não sabe di­reito onde está, sabe? Toma você in­teira, não dá tempo de con­cluir so­bre ori­gens e con­sequên­cias, é só mesmo o rom­pante do fenô­meno. E pronto. Pra que ex­pli­car?

No ins­tante se­guinte, tal­vez um mi­nuto a mais, tal­vez dois, sabe-se lá, teve a im­pres­são de que ele ha­via, sem que ela ti­vesse per­ce­bido, avan­çado um pou­qui­nho além na sua pro­posta de um con­tato mais ín­timo. Mas, pra di­zer a ver­dade, fi­cava quase em êx­tase sem­pre que ou­via to­das aque­las pa­la­vras cheias de um não sei quê. Pa­re­ciam im­preg­na­das, as pa­la­vras, de al­guma es­sên­cia ca­paz de im­por ao mundo um novo sen­tido ou à Terra, uma nova ro­ta­ção.

Fá­bu­las apai­xo­nan­tes, his­tó­rias de amor, con­cei­tos so­ci­ais, crí­ti­cas po­lí­ti­cas, o que mais ha­ve­ria de in­te­res­sante em tudo aquilo que ele di­zia? Perguntava-se e perguntava-se em meio a um en­levo que a dei­xava muda en­quanto sob a mão pul­sava aquele vo­lume quente que ela agar­rava quase in­vo­lun­ta­ri­a­mente, apertando-o com um sor­riso de sa­tis­fa­ção es­tam­pado na face. Tam­bém não sa­bia de onde vi­nha o sor­riso, como nunca se sabe de onde vêm os sor­ri­sos sin­ce­ros.

Os olhos ver­des, o ca­belo en­ca­ra­co­lado, o corpo ainda es­guio, o jeito de li­dar com ela, tudo con­ti­nu­ava tão ní­tido desde a pri­meira vez. Se­ria im­pres­são ou a mão agora es­tava mo­lhada?

Esqueceu-se disso, esqueceu-se do po­bre­zi­nho do na­mo­rado bem ali ao seu lado, esqueceu-se de tudo. Entregou-se a um ím­peto in­con­tro­lá­vel e ergueu-se da pol­trona para aplau­dir o Chico quando ou­viu Não, não fuja não, finja que agora eu era o seu brin­quedo, eu era o seu pião, o seu bi­cho pre­fe­rido, vem, me dê a mão e, pronta para dar a ele sua mão e tudo o mais que ele qui­sesse, pronta as­sim é que, bo­ba­mente, co­me­çou a cho­rar.

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