Crônicas

Observatório do impossível

quarta-feira, 14 de outubro de 2015 Texto de

Daguerreótipo de 1841 C: Divulgação

É no mí­nimo es­tra­nha a sen­sa­ção de olhar para si mesmo de fora, como se você fi­zesse parte da lista de per­so­na­gens de um re­lato de fic­ção, como se você, por me­nos im­por­tante que te­nha sido seu pró­prio pas­sado, pu­desse bis­bi­lho­tar seu pró­prio pas­sado, pu­desse bisbilhotá-lo atra­vés do olhar de um ter­ceiro. Essa sen­sa­ção me atra­ves­sou por vá­rios mo­men­tos do úl­timo fim de se­mana e con­ti­nuou na terça-feira pós-feriado, quando na mesa ao lado no café um grupo de ra­pa­zes co­men­tava coi­sas que ti­nham lido ou visto em re­por­ta­gens na te­le­vi­são.

“Acho que foi no Globo Ru­ral”, disse um de­les, ainda com certa cu­ri­o­si­dade di­ante do que ti­nha visto. “Na­que­las fa­zen­das de café, não ha­via ba­nhei­ros den­tro de casa, as pes­soas le­va­vam jar­ras com água e tam­bém uma ba­cia para fa­zer o dois du­rante a noite”, con­ti­nuou. “Aí, quando usa­vam a ba­cia para fa­zer o dois, jo­ga­vam ser­ra­gem e tam­pa­vam”.

Eu não me lem­bro da ser­ra­gem, mas ainda sinto fu­gaz­mente o fri­o­zi­nho das bor­das do pe­nico nas mi­nhas per­nas de cri­ança fi­xa­das em al­gum lu­gar do tempo que con­sigo me­mo­ri­zar. Eu sou, afi­nal, um dos per­so­na­gens da his­tó­ria da mesa ao lado no café. Atra­vés dos olhos de­les, eu pude me ver num lapso.

A sen­sa­ção a que me re­firo deve ser a mesma da­que­las ex­pe­ri­ên­cias me­ta­fí­si­cas em que você dá uma es­ca­pada do corpo e pode olhar para si mesmo de fora. 

Mas, muito além do me­ta­fí­sico ou mesmo da sim­ples sen­sa­ção di­ante de uma per­cep­ção inu­si­tada ou à qual você não está ha­bi­tu­ado, situa-se o as­pecto his­tó­rico. Ge­ral­mente, olha­mos para trás como o nar­ra­dor e pou­cas ve­zes como um per­so­na­gem real da nar­ra­tiva. Quando nos tor­na­mos um per­so­na­gem real, ro­la­mos para o limbo da im­po­tên­cia. Es­ta­mos lá, me­ti­dos em meio ao caos que nos torna sim­ples bo­ne­cos de pano pen­du­ra­dos por cor­dõe­zi­nhos cuja ori­gem nos é des­co­nhe­cida.

No fim de se­mana, numa ex­tensa e de­li­ci­osa reu­nião fa­mi­liar, senti vi­vos os re­fle­xos de uma época so­bre a qual não posso mais exer­cer qual­quer fun­ção ativa. To­das aque­las pas­sa­gens, in­de­pen­den­te­mente de seu teor, com­põem hoje um ar­quivo de di­fí­cil e com­plexo acesso cuja se­nha na mai­o­ria das ve­zes não me vem fá­cil à ca­beça. São, em ge­ral, atos já cal­ci­na­dos pe­las in­tem­pé­ries do tempo, em­bora es­te­jam eter­na­mente vin­cu­la­dos à mi­nha ca­pa­ci­dade de in­te­ra­gir com o pas­sado.

Eu tento in­te­ra­gir com esse pas­sado que se pul­ve­riza en­tre as nu­vens do pre­sente e as lu­zes ra­las que pro­curo não per­der de vista lá na­quele tú­nel que cha­ma­mos de fu­turo. Eu tento, mas não é fá­cil. Por­que quase sem­pre me pego na vez do nar­ra­dor. As en­tra­nhas do per­so­na­gem, no fim das con­tas, pa­re­cem ser ina­ces­sí­veis. Por­que a sen­sa­ção de olhar para si mesmo de fora é abrupta e ve­loz, dura pouco. É como um so­nho que dura nada mais do que um se­gundo. Tal­vez haja uma ex­pli­ca­ção ci­en­tí­fica. Mas acho que é ape­nas uma de­fesa que nós mes­mos pro­vi­den­ci­a­mos in­cons­ci­en­te­mente. Para nos pri­var de nós mes­mos.

Como disse o ra­paz da mesa ao lado no café, “é di­fí­cil ima­gi­nar a gente dor­mindo com a merda toda bem ali, não é?”.

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