Crônicas

Personagens de Natal

domingo, 13 de dezembro de 2015 Texto de

Meus per­so­na­gens são tão sin­ge­los que dá até ver­go­nha.
Um é uma ca­de­li­nha vira-lata. Ou­tro é uma mu­lher que não co­nheço. Os dois, a esmo, eu os en­con­trei na rua. Rua Ta­ba­puã.
Disse-me ela, de ca­be­los des­gre­nha­dos: so­mos só eu e ela.
Eu pa­rei.
Es­cu­re­cia e ga­ro­ava às cinco e pouco. São Paulo ga­roa a toda hora.
En­gra­çado, sou só eu. Pen­sei.
E eu mesmo sorri com mi­nha es­pi­ri­tu­o­si­dade mo­men­tâ­nea, mas ela nem per­ce­beu o sor­riso, pois con­ti­nuou como se es­ti­vés­se­mos fa­lando fa­zia um bom tempo: olha, disse-me, às ve­zes ela me dá nos ner­vos, apon­tou para a ca­de­li­nha.
Ver­dade? O que eu po­dia di­zer? Não sei, eu ti­nha pa­rado, a ca­de­li­nha es­tava quase me lam­bendo as ca­ne­las, a mu­lher que não co­nheço en­ta­bu­lava um papo firme etc.
Vem cá, disse ela para a ca­de­li­nha, e a ca­de­li­nha virou-se e cor­reu para ela. Tá vendo? Agora ela é as­sim, mas da­qui a pouco fica brava.
A ca­de­li­nha se en­cai­xou sen­tada en­tre os dois pés da dona e, não sei, pa­rece que me en­ca­rou com ou­tros olhos, não era mais a brin­ca­lhona de agora há pouco.
A se­nhora é de onde, eu per­gun­tei de re­pente, sem sa­ber o que di­zer. Sou de lá, e apon­tou com a mão para um lado qual­quer. A ca­de­li­nha co­çou o pes­coço com a pata tra­seira e tam­bém olhou para o mesmo lado.
Dois ca­ras de mãos da­das pas­sa­ram en­tre nós, na cal­çada.
Por que eu não ia em­bora? De­pois fi­quei me per­gun­tando. Por que eu não ia em­bora?
Não sei se era por causa da mu­lher que não co­nheço, por causa da ca­de­li­nha, por mi­nha causa.
A ca­chorra tem quan­tos anos?
Ela me dá nos ner­vos. Pas­sou a mão nos ca­be­los.
Duas ga­ro­tas e um ra­paz pas­sa­ram en­tre nós, na cal­çada.
O jor­na­lista é cu­ri­oso. De­pois, quando con­ti­nuei an­dando de volta pra casa, pen­sei: acho que eu fi­quei es­pe­rando uma his­tó­ria.
Mas o que mais me abor­re­ceu – e isso eu soube quando es­tava no ba­nho e aos pou­cos re­ca­pi­tu­lava os acon­te­ci­men­tos – foi que não pude sa­car meu ce­lu­lar e fa­zer uma foto por­que a mu­lher que não co­nheço fi­cou puta da vida.
Foi as­sim: eu disse a ela “posso fa­zer uma foto da se­nhora e da sua ca­chorra?” e foi o que bas­tou para ela chu­tar a ca­de­li­nha e me di­zer, en­quanto se afas­tava ra­pi­da­mente, “você pro­me­teu, você pro­me­teu”.
Bem atrás dela e da ca­de­li­nha ha­via uma vi­draça cheia de en­fei­tes de Na­tal. Eu achei que o re­sul­tado da ima­gem se­ria in­te­res­sante, o con­traste de uma vi­trine chi­que da zona sul pau­lis­tana com a po­breza, o Na­tal, as lu­zes, os ca­be­los des­gre­nha­dos, o olhar in­gê­nuo do ani­mal.
“Você pro­me­teu, você pro­me­teu”.
Na ver­dade, eu não ti­nha pro­me­tido nada. O que eu posso pro­me­ter? O que al­guém pode pro­me­ter?
No ba­nho, como já disse, fi­quei pen­sando so­bre o epi­só­dio. Pla­ne­jei es­cre­ver algo, como faço agora. E, sob a água quen­ti­nha, disse a mim mesmo: vou aca­bar o texto fa­zendo a se­guinte re­fle­xão: eu que­ria le­var a mu­lher que não co­nheço e a ca­de­li­nha para casa. Agasalhá-las e confortá-las de sua vida des­gra­çada. De al­gum modo, livrá-las da rua. O texto, en­tre­tanto, ter­mi­na­ria com a con­fis­são de que não tive co­ra­gem.
Isso eu pla­ne­jei du­rante o ba­nho. Mas agora, es­cre­vendo, con­fesso que ja­mais me pas­sou pela ca­beça le­var para casa uma mu­lher da rua e uma ca­de­li­nha sua. Aqui em casa tem co­mida pra mim, umas cer­ve­jas ge­la­das que guar­dei para to­mar en­quanto faço esse texto bo­ni­ti­nho etc e tal. Fe­liz Na­tal!

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