Crônicas

Vivendo e (não) aprendendo a jogar

sábado, 1 de agosto de 2015 Texto de

macaco pensando

Es­tou apren­dendo a an­dar de me­trô em São Paulo. 

Já sei que, ao su­bir a es­cada ro­lante, devo fi­car à di­reita, per­mi­tindo as­sim a pas­sa­gem pela es­querda de quem está com pressa. Mi­nha fi­lha me en­si­nou na se­mana pas­sada. Aliás, dei­xar se con­du­zir, pre­gui­ço­sa­mente, por al­guém (no meu caso, pela mi­nha fi­lha) tem seu preço. Pa­guei hoje. Ver­go­nho­sa­mente, não sa­bia onde en­fiar o bi­lhete na ca­traca. Sorte que bem atrás vi­nha uma moça sim­pá­tica e me mos­trou (claro, deve ter pen­sado Que ba­baca ou algo as­sim).

Numa das pa­ra­das, en­tra uma se­nhora com duas sa­co­las nas mãos. Não era idosa, mas ti­nha duas sa­co­las nas mãos. Quando se apro­xi­mou do banco, per­ce­beu que al­guém dis­pu­tava o lu­gar com ela: um ra­paz jo­vem, que me pa­re­ceu bas­tante sa­tis­feito ao ter ven­cido a dis­puta pelo lu­gar.

Ao lado dele, um se­nhor, este sim já idoso, um ho­men­zi­nho baixo, bi­gode branco, levantou-se e deu lu­gar à mu­lher com duas sa­co­las nas mãos. Já em pé, bem ao meu lado, ele não con­se­guiu al­can­çar aquela alça pen­du­rada pra gente se se­gu­rar e, acho que in­vo­lun­ta­ri­a­mente, se­gu­rou no meu braço quando o trem ar­ran­cou. De­pois, ten­tou no­va­mente al­can­çar o troço lá no alto, mas de novo não con­se­guiu. Pode se se­gu­rar em mim, eu disse a ele. 

En­quanto isso – o ra­paz que dis­pu­tou o lu­gar com a mu­lher que car­re­gava duas sa­co­las ainda ins­ta­lado tran­qui­la­mente em seu acon­che­gante as­sento – che­gou mi­nha es­ta­ção. Ou­tra pes­soa à mi­nha frente se le­van­tou e o ve­lho teve onde sen­tar. Ouvi um Obri­gado, moço às mi­nhas cos­tas, e saí com o pen­sa­mento zi­gue­za­gue­ando, sem sa­ber di­reito em que es­ta­ção do cé­re­bro pa­rar. Numa zona de cré­dito ao ser hu­mano? Numa zona de des­con­fi­ança? De­ses­pe­rança?

Ao sair à rua, ten­tei res­pi­rar um ar novo que pu­desse me aju­dar a abs­trair a cena do me­trô, mas an­tes de pu­xar o fô­lego uma mu­lher sen­tada, com uma cri­an­ci­nha dor­mindo apoi­ada em sua perna, me pe­diu um tro­cado. Mas quanto? Um real? Dois? Dez? O que pode apla­car a mi­sé­ria do mundo? O que pode apla­car esta an­gús­tia aqui den­tro?

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