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Hipóteses

quinta-feira, 15 de março de 2018 Texto de

Deitado de costas, viu que, no meio do céu, a lua fatiava-se em duas conforme o movimento das pálpebras, às vezes ganhava uma coloração âmbar, depois empalidecia atrás de uma membrana oscilante. Virou a cabeça para seu lado esquerdo, de onde vinha um som de respiração lenta e pesada, mas estava escuro demais, além do que suas forças não inspiravam grandes projetos físicos. Sentia uma tontura extenuante, era difícil manter o mundo em ordem. Fechou os olhos e tentou por algum tempo entregar-se a uma imobilidade absoluta, interrompida apenas por espasmos dos membros. O plano beirava a algo infantil, mas sua condição deplorável limitava-o a esse estágio do pensamento, nesse caso a esperança, logo tornada vã, de despertar de um pesadelo qualquer. Ao certificar-se resignado de seu estado de vigília, empreendeu um movimento cauteloso, esticou o braço esquerdo até onde pôde no rumo da respiração ofegante. Na verdade, era nada mais que o resultado do vento rodopiando sobre um tecido que ele reconheceu como sendo o próprio casaco embolado no chão. Com o mesmo cuidado, recolheu o braço sobre o peito, puxando junto o casaco, e então o ruído dissipou-se e tornou-o único na imensidão escura.

Primeira hipótese: aceitou engalfinhar-se com o colega de escritório que sempre o desafiava para umas porradas, dessas que fazem bem aos punhos e ajudam a descarregar o estresse acumulado entre papéis, e-mails, chefes e burocracia. "Só entre nós", dissera-lhe Camilo, sem a menor intenção de espalhar o hobby que juntava meia dúzia de sujeitos dos mais diversos tipos. Foi vê-los logo que descobriu a coisa toda, uns dias depois de perguntar sobre o olho roxo. Camilo mandou uma mensagem pelo WhatsApp: "Tá mesmo a fim?". Ficou impressionado, e excitado, com o negócio. Uns caras bem magros podiam acertar golpes certeiros em corpos que, a princípio, aparentavam excelente condição física. "O lance", dissera-lhe Camilo, um dos bem magros, "é você explorar o que há de positivo em seu perfil". Por exemplo: Camilo investia suas fichas na agilidade. Podia girar em torno do adversário durante bons minutos sem ser acertado. "Mas não esquenta", acrescentara, "mesmo levando umas bordoadas, é melhor do que guardar a energia ruim no sangue".

Pontos contraditórios: ele não se lembrava de ter sido finalmente iniciado na rinha, que era como divertidamente Camilo e os outros denominavam as disputas. "Somos galos de briga, brother", dissera-lhe enquanto dava soquinhos e simulava movimentos de boxe correndo em volta dele no banheiro da firma. Havia estado com o pessoal em vários parques, praças, terrenos baldios e demais lugares de onde a noite paulistana por si só consegue afastar as pessoas. Também havia estado na ocasião em que um dos saradões deu-lhes um grande susto, estirado na grama sem qualquer movimento por segundos que pareceram equivaler à própria eternidade, até que se levantou e retomou o confronto sem maiores consequências. O fato é que não havia em sua memória qualquer fragmento de uma luta da qual tenha participado, vencedor ou vencido. O segundo ponto é que, supondo que seu ingresso no circuito tenha se dado exatamente hoje (ou ontem, pois na verdade perdera a noção do tempo), parecia-lhe incoerente ter sido deixado ali sem qualquer assistência. A não ser que (ao iniciar o pensamento teve um pequeno sobressalto) os outros o tivessem abandonado pelo mesmo motivo que o fariam quando o saradão pregou-lhes aquele susto. "Faz parte do acordo, meu velho", explicara-lhe Camilo. "Se rolar merda, é cada um por si". Piscara para ele e acrescentara com os olhos vidrados: "Adrenalina, sabe?".

Segunda hipótese: Maura. Procurou ajeitar o casaco sobre o corpo, estava esfriando e o vento às vezes soprava com mais força. A filha da puta contou tudo ao namoradinho quinze anos mais jovem, aquele filhote de crápula que vive debaixo das asas do deputado. Ela sempre dá mole quando bebe, fica com a língua solta. Entregou tudo: “Ele não sai do meu pé, mozinho, tive uma fraquezinha, perdão”. Depois costuma ficar revoltada consigo mesma, aí ninguém segura: “Foi mais de uma vez, não era isso que você queria ouvir? Então, foi exatamente isso!”. O pior é que o sujeito não dá conta do material, sabe como é? Ela própria confidenciou-lhe num dos últimos encontros. A Maura deve estar pisando no pescoço, e ele vai fazer o quê? Arriscar-se com a língua da maluca? Nada! Vai ficar quietinho até segunda ordem. E aí é que está o problema, pensou. Impotente (sob vários aspectos) diante dela, reuniu suas forças ocultas e partiu para estraçalhar o ex da namoradinha ou, no mínimo, para dar um recado definitivo. Lembrou-se de uma vez em que encontrou os dois casualmente num evento social e o rapaz apertou-lhe tão forte que sentiu os dedos partindo-se. Ali no meio do nada, abriu e fechou a mão várias vezes depois de tê-la colocado bem à frente dos olhos para tentar enxergá-la um pouco, constatou que os movimentos do braço respondiam razoavelmente bem. Olhando para Maura naquela noite, teve ganas de chutar a canela do namoradinho, chegou a mover as pernas em sua direção, mas um olhar da ex-mulher foi suficiente para interceptar a intenção. Agora, entretanto, ao tentar mexê-las, tudo rodou e ele desistiu sem ânimo suficiente sequer para chutar o vazio.

Pontos contraditórios: embora tivesse desmentido tudo algum tempo depois, Maura dissera-lhe, numa daquelas escapadas semanais, que o namoradinho “achava uma boa” saber de suas aventuras clandestinas. “Ele fica todo excitado”, contou-lhe a ex-mulher. Sim, Maura tinha tomado todas e poderia muito bem estar, ela mesma, criando fantasias para consumo próprio, mas também havia uma boa chance de estar dizendo a verdade, o que, no entanto, não garantia a inclusão do ex-marido nos mergulhos eróticos do namoradinho. Tentou respirar fundo, a noite (ou madrugada) seguia cada vez mais fria, suas costas doíam e a sensação de embriaguez continuava a atordoá-lo. Outro aspecto a ser considerado, retomou, era a discrição do deputado. O namoradinho atuava em sua equipe havia um bom tempo e fora dessa alçada sua vidinha certamente não seria fácil. Portanto, imaginá-lo metendo-se numa encrenca desse tipo, que talvez (e nisso ficou sem ar por alguns segundos) resultasse até mesmo em morte, parecia ser um despropósito, isso para dizer-se o mínimo (recuperou o fôlego).

Terceira e última hipótese (pois à medida que o tempo corria estava cada vez mais difícil ordenar as ideias): repetiram com ele o que haviam feito com o pai. Por um instante, parou de ventar e uma nuvem encobriu o luar. Ele fechou os olhos e procurou concentrar-se o máximo possível diante das péssimas condições físicas e mentais. Estava fodido como nunca havia estado. A última vez com o advogado, rememorou, trouxera-lhe novas preocupações, além das financeiras e políticas. “Devo alertá-lo”, dissera-lhe o advogado, “que recebi uma ameaça mais séria”, sorrira-lhe amargamente. Ele aguardou com apreensão enquanto o advogado perscrutava-o à espera de uma reação que não se estabeleceu. “Não foi dirigida a mim”, dissera-lhe o homem com uma mistura de alívio e pesar. Na verdade, como em todas as outras ocasiões de menor importância, também não teve medo da ameaça na ocasião, mas qualquer alusão envolvendo o desaparecimento do pai revolvia suas entranhas familiares. E nada ali era agradável. “Um dia você precisará entrar nesse pântano”, lembrou-se de repente do conselho do Doutor Cavablanco, mas fazia tempo que preferia remédios a comentários do médico a respeito do assunto. Levava o processo adiante por uma questão de princípios, mas se descobrisse uma fórmula que o fizesse ser capaz de deixar tudo para trás, ele o faria. “Você acha que isso resolveria?”, ouviu a voz possante do médico quebrar a noite ao meio, entretanto o vento reiniciara seu zunido e isso o ajudou a afastar-se do diálogo sem palavras.

Pontos contraditórios: pelo que compreendia, os tempos obscuros da repressão tinham se transformado em páginas de livros e jornais, além de documentários escondidos em nome da estabilidade política, ao menos de modo geral, pensou intrigado tão logo formulou a ideia. Sentiu o lado esquerdo formigar e ao erguer parcialmente o corpo percebeu que estava todo borrado, embora não sentisse qualquer cheiro além das emanações da vegetação. Não conseguia acreditar que ainda podiam adotar procedimentos extremos e cruelmente desumanos (ou podiam?). Além do mais, e essa era a questão fundamental, pouco importava para as atuais circunstâncias se os canalhas continuassem a agir como na idade da pedra (ou na Ditadura), pois ali o que realmente devia ser esclarecido era que diabos seria capaz de salvá-lo de uma queda iniciada talvez a dez mil pés de altura, caso fosse um avião de pequeno porte, calculou mal e mal. Também imaginava que atirassem desgraçados como ele no mar e não num descampado incerto, a não ser, refletiu, que quisessem economizar combustível, mesmo porque, ao contrário da época de seu pai, corpos hoje em dia encontram-se por aí a toda hora, gente é assassinada a toda hora, balas silvam a toda hora, confundem-se entre si sem saber de que lado saíram, se dos mocinhos ou dos bandidos, tanto faz.

A cabeça e agora também os ossos doíam-lhe terrivelmente. Fechou os olhos buscando aliviar as pontadas nas têmporas, mas recusava-se a sossegar enquanto não encontrasse uma explicação razoável para seu caso. Ter sido jogado de um avião, concluiu, era sem dúvida a pior de todas. Em seguida, considerou que uma briga com os rapazes não acabaria por moê-lo tanto assim. Por fim, deteve-se à segunda hipótese, e esta passou a ser tão provável que um minuto depois um tremor súbito muito semelhante à erupção do último orgasmo dividido com Maura sobrepujou todas as suas dores e levou-o a uma poderosa ereção que o fez flutuar acima do próprio corpo. Ali, sentiu-se protegido por uma certeza espessa e impenetrável que não soube traduzir. Depois, já desinteressado daquela e de outras possíveis ideias, abriu os olhos e viu que o escuro diluía-se dentro de outro escuro, e este por sua vez, dentro de outro, e mais outro, até que tanto fazia manter os olhos abertos ou fechados, pois tudo era uma só escuridão.

* Este conto integra o livro "O criador de tudo" (não publicado)
* Para ler "Índia", clique aqui
* Para ler "Cachecol", que faz parte do mesmo livro, clique aqui
* Para ler "Incidente no 21", clique aqui
* Para ler "Mãos à obra", clique aqui
* Para ler "Aparição no Rio Pinheiros", clique aqui
* Para ler "Núpcias", clique aqui
* Para ler "A casa de Montevidéu", clique aqui
* Para ler "Arrebentação", clique aqui

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