Arquivos de Contos

Contos

Vítimas do trem noturno

domingo, 22 de maio de 2016 Texto de

Só mais dez mi­nu­tos, eu disse bai­xi­nho sem quase mo­ver os lá­bios para que eles não me ou­vis­sem. Ape­sar de tudo, eu ten­tava mos­trar na­tu­ra­li­dade. Ju­li­ana aper­tava tão forte mi­nha mão que che­gava doer.
Leia mais

Compartilhe

Contos

O viúvo influenciável e a puta velha de García Márquez

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016 Texto de

Leu o conto de Gar­cía Már­quez so­bre a puta ve­lha que treina o ca­chor­ri­nho para cho­rar em seu tú­mulo por­que acha que vai mor­rer, e na­quela mesma noite so­nhou com uma im­pres­si­o­nante tris­teza ja­mais sen­tida. Es­tava em pé num lu­gar in­certo e va­zio, cer­cado pela es­cu­ri­dão, de onde ou­via la­ti­dos va­gos que ima­gi­nava ser do cão­zi­nho vira-lata com quem ha­via dez anos di­vi­dia seu apar­ta­mento de viúvo. In­flu­en­ciá­vel que era, acor­dou certo de sua pró­pria morte.
Leia mais

Compartilhe

Contos

Como a gente, não tinha igual

terça-feira, 29 de setembro de 2015 Texto de

An­tes que Lola lhe dis­sesse qual­quer pa­la­vra, ele com­pre­en­deu. Não sabe ex­pli­car se foi pura in­tui­ção, se foi o re­sul­tado de re­fle­xos apre­en­di­dos da fi­si­o­no­mia pe­sada da men­sa­geira ou, até, se foi algo tão pre­vi­sí­vel que ele pró­prio já sa­bia an­tes mesmo que acon­te­cesse. Num ato de de­ses­pero, ten­tou re­cons­truir os úl­ti­mos dias, tal­vez para enfiar-se num me­lo­drama ca­paz de esvaziá-lo da an­gús­tia que su­biu pela gar­ganta feito um ar­roto amargo.
Leia mais

Compartilhe

Contos

Quando morrem as pedras

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015 Texto de

Leu num pé de pá­gina qual­quer, com o corpo do­brado em cima do bal­cão en­gor­du­rado da pa­da­ria; leu e na mesma hora sen­tiu com certo as­som­bro um tipo de cha­ma­mento ou, como ela cos­tu­mava di­zer sem­pre que era afe­tada por acon­te­ci­men­tos ines­pe­ra­dos, teve uma pal­pi­ta­ção, Tu­ti­nha, mas uma pal­pi­ta­ção que só vendo!
Leia mais

Compartilhe

Contos

Carnaval

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015 Texto de

O braço apoi­ado so­bre a mesa da co­zi­nha, sob o co­to­velo as mi­ga­lhas do san­duí­che do jan­tar, a fu­maça do ci­garro nasce de­va­gar na boca, os lá­bios quei­mam com a raiva co­nhe­cida e in­de­se­jada, “vem co­migo, vem?”, a cin­tura co­lada na pia, mais um prato sujo amon­to­ado com co­pos, guar­da­na­pos caí­dos por en­gano, um fundo de água com es­puma ama­nhe­cida de de­ter­gente.

– Quis ir, foda-se.
Leia mais

Compartilhe

Contos

Conto erótico de Natal

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014 Texto de

Os dois jun­tos, so­zi­nhos em casa, ti­ra­mos a me­dida. En­quanto eu se­gu­rava, ela es­ti­cava a fita mé­trica. De­zes­seis cen­tí­me­tros, das bo­las à pon­ti­nha. Não era gi­gante, mas es­tava acima da mé­dia, ao me­nos se­gundo uma re­vista que tí­nha­mos lido. Era fin­zi­nho de tarde. Uma tarde que pas­sa­mos na pis­cina. Ela ainda ves­tia aquele biquíni.
Leia mais

Compartilhe

Contos

Combate ao tráfico (conto escrito em 2008)

terça-feira, 2 de dezembro de 2014 Texto de

Os ho­mens do ba­ta­lhão de com­bate ao trá­fico vas­cu­lha­ram o pe­queno so­brado. O de­te­tor in­te­li­gente per­cor­reu cada canto da cons­tru­ção ins­ta­lada num bairro da cha­mada ne­o­classe mé­dia, sem nada en­con­trar. Den­tro de seus uni­for­mes de fi­bra fle­xí­vel de aço e mu­ni­dos com as tra­di­ci­o­nais pis­to­las a la­ser, os sol­da­dos apresentaram-se ao co­mando. A ope­ra­ção fra­cas­sara, ao me­nos até ali, com os mé­to­dos le­ga­li­za­dos. O Ca­pi­tão As­sí­ria deu-lhes or­dem para des­can­sar, e eles sa­biam dos pro­ce­di­men­tos a se­rem ado­ta­dos a par­tir da­quele mo­mento.
Leia mais

Compartilhe

Contos

Questão glútea

sábado, 22 de novembro de 2014 Texto de

Nem mesmo as duas li­ga­ções te­lefô­ni­cas aten­di­das si­mul­ta­ne­a­mente fo­ram su­fi­ci­en­tes para impedir-me o es­panto e logo, a cu­ri­o­si­dade. Dona Hen­rica ha­via mar­cado a con­sulta ju­rí­dica há dois dias, li­gara na vés­pera e na­quela ma­nhã tam­bém, an­tes de dirigir-se ao es­cri­tó­rio onde ad­vogo. Ha­via uma ex­trema an­si­e­dade em seu rosto quando a se­cre­tá­ria, des­cum­prindo uma or­dem ex­pressa de mi­nha parte, enfiou-a su­bi­ta­mente sala aden­tro. Mi­nha sur­presa, en­tre­tanto, não re­si­diu em sua ex­pres­são, mas na parte do corpo que se­para as cos­tas das per­nas, ou seja, a re­gião glú­tea.
Leia mais

Compartilhe

Contos

Um fantasma para Maria

quarta-feira, 22 de outubro de 2014 Texto de

Como co­me­çou eu não sei di­reito. Sei só como aca­bou. Ma­ria, na frente, com a cri­ança no colo, protegendo-se da po­eira aver­me­lha­dona das ruas to­das de terra. Ali o as­falto era coisa de ro­do­via. Eu, ao lado, ca­mi­nhava la­te­jando fe­li­ci­dade. Atrás da gente, a uns pou­cos pas­sos, vi­nha sem­pre o Ar­naldo, in­teiro bê­bedo, meio caído. Tí­nha­mos, dali a pouco, o ba­ti­zado co­le­tivo.
Leia mais

Compartilhe

Contos

Dona Deusinha

terça-feira, 1 de abril de 2014 Texto de

A fu­maça en­tope o ar. Na pla­ta­forma 12, en­costa a pri­meira li­nha do li­to­ral. A tampa do ba­ga­geiro range até tra­var com o so­la­vanco do Bor­ges. O co­bra­dor já manda as ma­las ao chão. No acesso pela ave­nida, aponta o carro que desce de Belo Ho­ri­zonte, en­quanto os pas­sa­gei­ros que vi­e­ram da praia se­guem em fila ner­vosa que se es­tende até às ba­ga­gens. Bem ao lado, o bê­bado dá a úl­tima cus­pa­rada an­tes de vol­tar ao sono in­qui­eto, res­mun­gando o que nunca se en­tende. O de Mi­nas en­costa. Desce o Mathias com h. Este é mais cui­da­doso: es­pera pe­los vi­a­jan­tes an­tes de dis­tri­buir os per­ten­ces. Ao con­trá­rio do Bor­ges, acena e até canta um bom-dia sin­cero. Ela res­ponde. Ela sem­pre res­ponde a to­dos eles.
Leia mais

Compartilhe