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Flash! – Texto de Leonardo Brasiliense

quinta-feira, fevereiro 26th, 2009

O porta-retratos tem uma vinheta banhada a ouro sobre madeira lisa. 21 x 14 cm. A fotografia colorida não engana: não era bonita nem feia, a mulher de testa pequena, sobrancelhas grossas, olhos difíceis de interpretar. Tinha ali uns trinta anos, morreu aos quarenta e dois. (mais…)

Herói de guerra – Texto de Leonardo Brasiliense

sábado, janeiro 31st, 2009

Treinou tiro de fuzil, pistola, bazuca. Arrastou-se no chão, atravessou rios, escalou paredões. Sabia obedecer às ordens e entendia de pronto as estratégias superiores. Na trincheira, morreu de frio.

E-mail: lbrasiliense@uol.com.br

Futuro presente – Texto de Leonardo Brasiliense

sábado, outubro 18th, 2008

Ao pular ágil da cama no primeiro toque do despertador, João Alfredo de Moura e Andrade, pai de família exemplar, filho dedicado, amigo fiel, colega solícito, não tinha como adivinhar o que estava para acontecer naquele dia. Se pudesse, talvez não se levantasse, nem saísse de casa. Seria prudente? Covarde? A solução? Mas levantou, escovou os dentes, tomou café com leite, foi para o trabalho. Tudo bem, não havia como, era impossível prever, não há como culpá-lo. Porque não aconteceu nada. Como sempre.

E-mail: lbrasiliense@uol.com.br

Iniciação – Texto de Leonardo Brasiliense

sábado, setembro 13th, 2008

Era uma caixa d’água virada para baixo, e lá de dentro espiávamos o mundo por um furinho quase de nada. Assim nós sabíamos de tudo. Por exemplo, quando mataram o galo Rico. Os adultos combinaram o assassinato no cochicho. Então o Rico apareceu na mesa do jantar, e nós sabíamos que era ele. Mas não deixamos sobrar nada no prato: mais nos importava manter o esconderijo, porque a prima e eu desconfiávamos, em silêncio, que dali a pouco ele teria outro fim.

E-mail: lbrasiliense@uol.com.br

Um sonho – Texto de Leonardo Brasiliense

sexta-feira, agosto 1st, 2008

O som do piano vinha lá do fundo. Não lembro a melodia. Atrás do véu, um rosto frágil prestava atenção à partitura. Fazia aquilo com amor. Tentei me aproximar, mas não deixaram. O salão estava cheio de gente. Ouviam em silêncio. Quando a peça acabou, só eu aplaudi. Os outros continuaram sérios. Olhei bem: eram bonecos de cera. (mais…)

Dois minicontos de Leonardo Brasiliense

terça-feira, junho 24th, 2008

Sem limites

Dona Ruth, 78 anos e há doze na cadeira de rodas, passa as tardes no quintal, debaixo das árvores, matando passarinhos com um estilingue. De noite, sonhando, caça elefantes. (mais…)

Melhor amigo – Texto de Leonardo Brasiliense

sexta-feira, março 7th, 2008

Entrei no bar com meu amigo Jack. Com dificuldade, a língua pesava, ele perguntou meu nome. Menti um qualquer e não quis saber o seu. “Jack” estava bom para alguém que eu conhecera na porta. Já era intimidade suficiente entrarmos abraçados, sustentando-nos um ao outro. Com quem mais podíamos contar para isso?

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O poste – Texto de Leonardo Brasiliense

terça-feira, fevereiro 5th, 2008

Em momento algum o tráfego parou, ou qualquer pessoa deu importância àquela mulher na esquina. Vestia um traje militar desbotado, não usava os coturnos, mas tamancos sem cor definida. Empunhava uma sombrinha com estampa de beijo, e ninguém a via. Ninguém notara a presença da mulher ali desde a manhã. (mais…)

Simples mulheres – Texto de Leonardo Brasiliense

quarta-feira, novembro 14th, 2007

Quando meus filhos foram embora de casa, senti que se foi junto minha maternidade. Voltei a ser apenas esposa, mas o meu marido já me via apenas como “a mãe”. Voltei então a ser filha. Dois meses depois minha mãe morreu de câncer.

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Apologia da força – Texto de Leonardo Brasiliense

sexta-feira, outubro 12th, 2007

Maria empurra o dia todo uma carroça de papeleiro. Empurra o dia, empurra a semana, o resto da vida.

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