O poder da palavra
Apolinário Flores deu um ramalhete a Maria Machado, que o cortou porque soube que o homem dera um igual a outra Maria, a Madalena. Tudo se deu (e se recebeu) na Praça da Esperança, onde desemboca a Rua da Amargura. (mais…)
O poder da palavra
Apolinário Flores deu um ramalhete a Maria Machado, que o cortou porque soube que o homem dera um igual a outra Maria, a Madalena. Tudo se deu (e se recebeu) na Praça da Esperança, onde desemboca a Rua da Amargura. (mais…)
Uma hora naquela estrada empoeirada, rumo ao vilarejo mais pobre e distante, e alcançam o caminhão uma motocicleta e um recado: “o patrão mandou cancelar a entrega porque o prefeito disse que tá sem grana pra pagar”. O caminhoneiro, que por acaso nasceu e se criou no tal vilarejo distante, onde ainda vivem seus pais idosos (e sedentos) a quem ele envia mensalmente metade do salário, está na metade do caminho entre a cidade (e seu emprego) e a vila (sedenta). A exata metade do caminho para um homem não tem nada a ver com distâncias, mas é aquele ponto a partir do qual o esforço para seguir e para voltar são os mesmos.
E-mail: lbrasiliense@uol.com.br
Ele não sabia contar dois mais dois, sabia contar histórias. Não aprendeu a ler e escrever, mas juntava uma platéia concentrada a seu redor. Não entendia por que os pais não lhe davam certos brinquedos e, depois, por que a vida lhe negava tantas coisas, embora contasse brilhantemente tudo isso nas histórias que inventava, recheadas de drama, peripécias e finais felizes. (mais…)
A chuva fininha molha o violão do cego. Sentado na escadaria da igreja, ele canta toda a tragédia da vinda pra cidade grande. Não veio por gosto, e sim por desespero, atrás da amada que fugiu e deixou bilhete: vou para o Sul. Por favor, me esqueça. (mais…)
É noite clara, de lua cheia. No campo, se ouve apenas o barulho dos bichos, corujas, grilos, a Maria Clara que, sentada na beira do açude, canta versos de amor. São versos de um poeta morto há muito, muito tempo, escritos para sua paixão que fugiu com outro, mar afora, sem nunca voltar. (mais…)
A grande fotografia da famosa atriz da pornochanchada, na parede da cela dezoito, surpreende cada nova presidiária. As outras vão logo explicando que ali ninguém é fã. Ela está é presa. Isso mesmo, fotografia presa. Esqueceu de lavar as mãos e foi denunciada pelo sangue da vítima. (mais…)
Meu primeiro amor nasceu no primeiro dia da quinta série. Sentada na minha frente, ela vestia uma camisa azul como até ali só minha mãe vestia. As meninas até a quarta série só usavam roupa de criança. Então ela se virou e, narizinho torto e meio arrebitado, perguntou meu nome. Eu o disse como fosse a primeira vez.
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A mulher sem pintura é uma fotografia em preto-e-branco. Então Janice passa o batom, e os lábios salientam-se carnudos, como o Osório gosta. Ela aplica o blush, e a face cinzenta ganha vida, bem como ele gosta. Mas falta algo. Então Janice contorna os olhos com um lápis, e eles brilham para o Osório. (mais…)
Sete de setembro. Dia da independência brasileira. Dia de emoção. Quem não enche os olhos de lágrimas ao ouvir a banda comandar o compasso da marcha, ao sentir o bumbo no seu ritmo quase cardíaco, as botinas e sapatos batendo com força no paralelepípedo, quem não sente que faz parte de uma coisa maior, de uma história? (mais…)
Eram o campo, as pastagens, lentamente era uma coxilha a um tanto de outra e no meio o que não era coxilha. Era tardinha. O sol, que não se mostrara o dia todo, se acabava. Garoava. Era frio, muito frio. A garoa, o céu fechado e a hora não permitiam que se enxergasse bem, mesmo assim o jovem peão seguia o rastro de sangue das ovelhas, apesar do que já se disse e do frio que lhe queimava os pés. O jovem peão era descalço e se chamava Ari, ou Arizinho, ou Arigó, conforme quem chamasse, cada um reservando-se o direito de fazê-lo tal ou qual. (mais…)