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Três minicontos de Leonardo Brasiliense

domingo, setembro 2nd, 2007

O poder da palavra

Apolinário Flores deu um ramalhete a Maria Machado, que o cortou porque soube que o homem dera um igual a outra Maria, a Madalena. Tudo se deu (e se recebeu) na Praça da Esperança, onde desemboca a Rua da Amargura. (mais…)

Carro-pipa – Texto de Leonardo Brasiliense

sábado, julho 7th, 2007

Uma hora naquela estrada empoeirada, rumo ao vilarejo mais pobre e distante, e alcançam o caminhão uma motocicleta e um recado: “o patrão mandou cancelar a entrega porque o prefeito disse que tá sem grana pra pagar”. O caminhoneiro, que por acaso nasceu e se criou no tal vilarejo distante, onde ainda vivem seus pais idosos (e sedentos) a quem ele envia mensalmente metade do salário, está na metade do caminho entre a cidade (e seu emprego) e a vila (sedenta). A exata metade do caminho para um homem não tem nada a ver com distâncias, mas é aquele ponto a partir do qual o esforço para seguir e para voltar são os mesmos.

E-mail: lbrasiliense@uol.com.br

Lápide – Texto de Leonardo Brasiliense

domingo, junho 10th, 2007

Ele não sabia contar dois mais dois, sabia contar histórias. Não aprendeu a ler e escrever, mas juntava uma platéia concentrada a seu redor. Não entendia por que os pais não lhe davam certos brinquedos e, depois, por que a vida lhe negava tantas coisas, embora contasse brilhantemente tudo isso nas histórias que inventava, recheadas de drama, peripécias e finais felizes. (mais…)

Deus lhe pague – Texto de Leonardo Brasiliense

terça-feira, junho 5th, 2007

A chuva fininha molha o violão do cego. Sentado na escadaria da igreja, ele canta toda a tragédia da vinda pra cidade grande. Não veio por gosto, e sim por desespero, atrás da amada que fugiu e deixou bilhete: vou para o Sul. Por favor, me esqueça. (mais…)

A dor imortal – Texto de Leonardo Brasiliense

quarta-feira, maio 23rd, 2007

É noite clara, de lua cheia. No campo, se ouve apenas o barulho dos bichos, corujas, grilos, a Maria Clara que, sentada na beira do açude, canta versos de amor. São versos de um poeta morto há muito, muito tempo, escritos para sua paixão que fugiu com outro, mar afora, sem nunca voltar. (mais…)

Em nome do show – Texto de Leonardo Brasiliense

sábado, maio 19th, 2007

A grande fotografia da famosa atriz da pornochanchada, na parede da cela dezoito, surpreende cada nova presidiária. As outras vão logo explicando que ali ninguém é fã. Ela está é presa. Isso mesmo, fotografia presa. Esqueceu de lavar as mãos e foi denunciada pelo sangue da vítima. (mais…)

Batismo – Texto de Leonardo Brasiliense

quinta-feira, maio 17th, 2007

Meu primeiro amor nasceu no primeiro dia da quinta série. Sentada na minha frente, ela vestia uma camisa azul como até ali só minha mãe vestia. As meninas até a quarta série só usavam roupa de criança. Então ela se virou e, narizinho torto e meio arrebitado, perguntou meu nome. Eu o disse como fosse a primeira vez.

E-mail: lbrasiliense@uol.com.br

Para conquistar um grande amor – Texto de Leonardo Brasiliense

terça-feira, maio 8th, 2007

A mulher sem pintura é uma fotografia em preto-e-branco. Então Janice passa o batom, e os lábios salientam-se carnudos, como o Osório gosta. Ela aplica o blush, e a face cinzenta ganha vida, bem como ele gosta. Mas falta algo. Então Janice contorna os olhos com um lápis, e eles brilham para o Osório. (mais…)

O desfile – Texto de Leonardo Brasiliense

quarta-feira, setembro 7th, 2005

Sete de setembro. Dia da independência brasileira. Dia de emoção. Quem não enche os olhos de lágrimas ao ouvir a banda comandar o compasso da marcha, ao sentir o bumbo no seu ritmo quase cardíaco, as botinas e sapatos batendo com força no paralelepípedo, quem não sente que faz parte de uma coisa maior, de uma história? (mais…)

O peão – Texto de Leonardo Brasiliense

terça-feira, agosto 30th, 2005

Eram o campo, as pastagens, lentamente era uma coxilha a um tanto de outra e no meio o que não era coxilha. Era tardinha. O sol, que não se mostrara o dia todo, se acabava. Garoava. Era frio, muito frio. A garoa, o céu fechado e a hora não permitiam que se enxergasse bem, mesmo assim o jovem peão seguia o rastro de sangue das ovelhas, apesar do que já se disse e do frio que lhe queimava os pés. O jovem peão era descalço e se chamava Ari, ou Arizinho, ou Arigó, conforme quem chamasse, cada um reservando-se o direito de fazê-lo tal ou qual. (mais…)