O som do pi­ano vi­nha lá do fundo. Não lem­bro a me­lo­dia. Atrás do véu, um rosto frá­gil pres­tava aten­ção à par­ti­tura. Fa­zia aquilo com amor. Ten­tei me apro­xi­mar, mas não dei­xa­ram. O sa­lão es­tava cheio de gente. Ou­viam em si­lên­cio. Quando a peça aca­bou, só eu aplaudi. Os ou­tros con­ti­nu­a­ram sé­rios. Olhei bem: eram bo­ne­cos de cera. A pi­a­nista cho­rava:

– Meu Deus, quando eu te­rei uma pla­téia de ver­dade?

– Es­tou aqui – eu disse. – E te amo, e amo tua mú­sica.

Ela apon­tou para as cor­das em meus bra­ços e per­nas:

– Mas tu, po­bre, és ape­nas um ma­ri­o­nete.

E-mail: lbrasiliense@uol.com.br

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