Archive for 2005

Relação com a morte

quinta-feira, junho 16th, 2005

Um provedor de internet, se não me engano o UOL, fez um anúncio por estes dias para divulgar seu serviço de e-mail e lançou mão de um velho e eficiente recurso, que dificilmente deixa de chamar a atenção das pessoas: a piada que usa a morte. O rapaz chega todo brincalhão a um certo lugar e, não tendo recebido a tempo uma mensagem eletrônica, desconhece que ali há o velório de alguém. Ao perceber o fora, ele fica encabulado, e os demais, constrangidos. (mais…)

PERDEU!

terça-feira, junho 14th, 2005

Quase não se percebe sua aproximação. O centroavante surge do nada, confunde o passante como um Garrincha do asfalto, arranca-lhe a pasta e sai correndo. Às vezes são dois zagueiros: enquanto um agarra o incauto, o outro tira-lhe o relógio e puxa-lhe a carteira do bolso traseiro da calça, ao som do grito de guerra – Perdeu!. E somem na multidão, num trabalho perfeito de equipe. (mais…)

Proseando contra a maré – Texto de João Pedro Feza

quinta-feira, junho 2nd, 2005

Que uma parte da classe política sempre foi econômica em bons exemplos, não é novidade. Só não precisava exagerar. Por volta dos oito anos, ouvi que “político é tudo safado”. Discordo. Generalizações têm inspiração nazista, o que pressupõe a condecoração moral de poucos apadrinhados e o apedrejamento da maioria “impura”. Ocorre que quando um (apenas um) parlamentar entende que a tal coisa pública é de ninguém (quando, na verdade, é pública porque é de qualquer cidadão), então voltamos à estaca zero no quesito moralidade. Já no quesito alegoria... (mais…)

Acorrentados – Texto de Otávio Nunes

quinta-feira, maio 26th, 2005

Valdemário chegou na plataforma da estação do metrô no momento em que um trem se aproximava. Enquanto as pessoas saíam e entravam na composição, ele pensou sobre o ato que estava por fazer. Não tinha outro jeito. Num só dia perdera o emprego e a namorada. Precisava tomar uma atitude. (mais…)

O coqueiro

sexta-feira, maio 20th, 2005

O coqueiro está lá, embaixo da janela, e me faz lembrar daquele prédio construído numa esquina por onde eu passava a toda hora. Um dia, topei com a obra pronta: – mas o que há? Quem botou isso aí?

Pois com o coqueiro foi do mesmo jeito. Da janela da cozinha, no quinto andar, espiei lá embaixo e o flagrei, na margem da matinha, segurando um cacho de cocos verdelões, redondinhos. (mais…)

Minha prezada companheira

quarta-feira, maio 18th, 2005

Sempre fui de pouca fala. Ela sabe disso. Depois da janta, aprecio sentar no pé da porta, fumar meu cigarro de palha, olhar a noite cair sem pressa, até o sono chegar. Minha vida é dura, como não? Desperto logo cedo, umas cinco, cinco e pouquinho. A primeira tarefa é ordenhar as vacas. Com jeito, amarro os pés, faço um afago no lombo macio, puxo o banquinho e me sento para o serviço. (mais…)

Amanhã eu penso nisso – Texto de Ana Flores

terça-feira, maio 17th, 2005

Na última cena do clássico norte-americano …E o vento levou, Scarlet O´Hara, mulher mimada e imatura, ao ser abandonada pelo homem que a amava mas que se cansara de suas leviandades, e deixada sozinha no casarão onde moravam, leva no máximo dois minutos para se lamentar. Depois, enxuga as lágrimas e diz "Agora estou cansada. Amanhã eu penso nisso". Olhando à nossa volta ou mesmo para dentro, vamos perceber que a 'Síndrome de Scarlet O´Hara' afeta mais gente do que imagina nossa vã filosofia, até mesmo quem nem sabia que ela existe. (mais…)

O calor das festas de junho – Texto de Fernanda Villas Bôas

quarta-feira, maio 11th, 2005

Estão chegando as festas juninas, a época mais gostosa do calendário. Não sei se você se comove com quentão morno e doce de batata, quadrilha e pau-de-sebo, correio-elegante e simpatia para o santo. Eu, sim. Sempre achei as juninas um exemplo cristalino de brasilidade, talvez porque elas ainda estejam imunes à mecanização do roteiro como o Carnaval. Nas festas de junho, ninguém vai desfilar na avenida à procura dos holofotes nem alimenta uma falsa euforia para segurar o pique até a Quarta-Feira de Cinzas. (mais…)

Palavras vistas de um mirante – Texto de João Pedro Feza

domingo, maio 8th, 2005

Dependendo da perspectiva, os novos significados ficam até bonitinhos

Efeito Omo
Ok. Estou diante da tela em branco (?) com branco-super-branco na mente. Sem idéia do que escrever. Acho que deixei minhas idéias em Ribeirão Claro (PR) durante um último e curioso passeio de férias em abril.

Ao léo
Você vai desejar meu fuzilamento, estou enrolando mesmo, mas vou fazer assim: jogar palavras ao relento, mas não abandoná-las por completo. Levar uma sopinha de vez em quando. Adriana Falcão fez isso num livro e funcionou que é uma beleza. (mais…)

Dívida paga

sábado, março 19th, 2005

Gravado para sempre em minha retina, há um olhar; um triste e inquieto olhar. Foi num Sete de Setembro. Desempregado há seis meses, com contas e mais contas enfiando-se sob a porta, eu procurava juntar os cacos que ainda restavam de minhas parcas economias, mas por maior que fosse, o contorcionismo nunca se mostrava suficiente para estancar aquela verdadeira sangria desatada. O salário de professora de ensino médio recebido por minha mulher mal servia para o mercado. Devíamos na farmácia, na padaria, no açougue e por aí afora. As roupas da menina de sete anos se perdiam rapidamente, o garoto de quatro anos arrebanhava os brinquedos em pedaços sem ter nada novo à mão. Nossos parentes mais próximos, coitados, viviam (e vivem) como todo mundo hoje em dia: rezando para o mês acabar logo. Como diz um ex-colega meu, a encrenca era grande. (mais…)