Na úl­tima cena do clás­sico norte-americano …E o vento le­vou, Scar­let O´Hara, mu­lher mi­mada e ima­tura, ao ser aban­do­nada pelo ho­mem que a amava mas que se can­sara de suas le­vi­an­da­des, e dei­xada so­zi­nha no ca­sa­rão onde mo­ra­vam, leva no má­ximo dois mi­nu­tos para se la­men­tar. De­pois, en­xuga as lá­gri­mas e diz “Agora es­tou can­sada. Ama­nhã eu penso nisso”. Olhando à nossa volta ou mesmo para den­tro, va­mos per­ce­ber que a ‘Sín­drome de Scar­let O´Hara’ afeta mais gente do que ima­gina nossa vã fi­lo­so­fia, até mesmo quem nem sa­bia que ela existe. 

Sabe aquele li­vro que você tanto que­ria e fi­nal­mente en­con­trou num sebo e que até hoje está olhando pra você lá da sua es­tante? Que há seis me­ses você se propôs a co­me­çar a ler “no fim de se­mana que vem” e con­ti­nua adi­ando o pro­jeto? Pois é, nem falta de tempo nem de re­sis­tên­cia fí­sica para abri-lo: é ape­nas o lado Scar­let O´Hara em ação. Com­bi­nar cer­ti­nho aquele en­con­tro com ami­gos do peito, su­ge­rido e de­se­jado por to­dos há tanto tempo, mas sem­pre adi­ado com des­cul­pas do tipo “É uma coisa e ou­tra, essa vida cor­rida, blá blá blá”? Não é só vida cor­rida, é a sín­drome. Li­vro se lê em casa, em ôni­bus, avião ou sala de es­pera. E bas­tam dois ou três mi­nu­tos para pen­sar numa data para o en­con­tro com aque­les ami­gos e mais três para te­le­fo­nar e su­ge­rir a data. Quando o en­con­tro acon­tece, to­dos gos­tam e se di­ver­tem, até se pas­sa­rem mais seis me­ses, dois anos ou a vida in­teira para se com­bi­nar ou­tro. Que pode nunca mais acon­te­cer.

Den­tre as len­das ur­ba­nas que cir­cu­lam na in­ter­net, uma que me im­pres­si­o­nou (é, eu às ve­zes me im­pres­si­ono com es­sas bo­ba­gens in­ter­né­ti­cas) foi a de uma mu­lher que com­prou uma lin­ge­rie sen­sual e co­men­tou com a irmã que ia es­pe­rar para usá-la numa oca­sião es­pe­cial com o ma­rido. Um ano de­pois, o ma­rido en­con­trou a lin­ge­rie, ainda in­to­cada na em­ba­la­gem, ao ar­ru­mar as coi­sas da mu­lher de­pois do en­terro dela. Des­con­tado o clima fo­lhe­ti­nesco do epi­só­dio, este é um bom exem­plo da sín­drome em ques­tão. Oca­sião es­pe­cial a gente faz acon­te­cer ou fica no pre­juízo.

A lei­tura, o en­con­tro, a vi­sita, o e-mail para sa­ber no­tí­cias do amigo que se mu­dou para longe, o curso de cu­li­ná­ria ou de ca­po­eira, a vi­a­gem so­nhada há tan­tos anos, nada disso acon­tece sem o pri­meiro passo. E para isso, nin­guém me­lhor que o pró­prio in­te­res­sado – quando existe mesmo in­te­resse. Guar­dar a louça in­glesa ou a lin­ge­rie para “oca­siões es­pe­ci­ais” e usar sem­pre a mesma louça do diá­rio e as cal­ci­nhas e os su­tiãs de to­dos os dias, ou não ar­ran­jar tempo para pla­ne­jar e exe­cu­tar aquilo que se quer e se pode fa­zer são des­per­dí­cios que pro­du­zem uma única ví­tima: quem nunca aposta nos pró­prios so­nhos. Todo mundo tem um lado de Scar­let, mas só o tempo acaba mos­trando quem ven­ceu a pa­rada.

Compartilhe