Contos

Minha prezada companheira

quarta-feira, 18 de maio de 2005 Texto de

Sem­pre fui de pouca fala. Ela sabe disso. De­pois da janta, apre­cio sen­tar no pé da porta, fu­mar meu ci­garro de pa­lha, olhar a noite cair sem pressa, até o sono che­gar. Mi­nha vida é dura, como não? Des­perto logo cedo, umas cinco, cinco e pou­qui­nho. A pri­meira ta­refa é or­de­nhar as va­cas. Com jeito, amarro os pés, faço um afago no lombo ma­cio, puxo o ban­qui­nho e me sento para o ser­viço.

Co­nheço gen­tes de maus hu­mo­res, fa­zem uma certa ju­di­a­ção na lida com o gado, tra­tam as re­ses com vi­o­lên­cias, acham ser uma obri­ga­ção de­las dar o leite. De mi­nha parte, não aprovo es­ses pro­ce­di­men­tos. Gosto do bom trato com es­ses ani­mais. An­tes da or­de­nha, con­verso com a vaca, dou uns ta­pas com ca­ri­nho e às ve­zes até beijo ela. De­pois, tiro o leite com de­li­ca­deza, aper­tando e pu­xando as te­tas com cui­dado. Faço as­sim desde o co­meço e não me ar­re­pendo. O leite rende desse jeito. 

A Dá­lia é mi­nha tes­te­mu­nha. Aliás, já quase aprende isso tudo, faz gosto por me acom­pa­nhar e me aju­dar na lida com o gado. Às ve­zes, faz até mais. Ou­tro dia mesmo, não fosse ela, uma vaca brava me te­ria chi­frado. A gente se abra­çou muito de­pois disso. Eu pouco falo, é ver­dade, mas não nego ca­ri­nhos. Ela gosta as­sim, sem dar si­nal de re­cla­ma­ções.

Logo no co­meço, faz qua­tro anos, mi­nha mãe veio de longe me vi­si­tar e, para di­zer a ver­dade, não foi com a cara da Dá­lia. Mi­nha mãe é dessa gente an­tiga de mui­tas cren­di­ces. Nunca gos­tou de nin­guém de cor preta. Te­nho até ver­go­nha de con­tar, mas se ela sai de casa e a pri­meira pes­soa que vê é preta, dá meia-volta e co­meça tudo de novo. Diz que dá azar. Na mi­nha in­fân­cia, meu me­lhor amigo ti­nha o ape­lido de Ne­guito. Pois, a mãe fez, fez até aca­bar com nossa ami­zade. Nunca mais vi o Ne­guito, coi­tado.

Quando ela che­gou aqui e olhou a Dá­lia, bem preta, já tor­ceu o na­riz, eu logo per­cebi. – “Troca isso, meu fi­lho.” Na vez do Ne­guito, tam­bém foi o mesmo: “troca isso”. Para ela, preto é coisa: “troca isso”. Foi um Deus-me-acuda até ex­pli­car do meu con­ten­ta­mento pela Dá­lia, e a Dá­lia, muito edu­cada, qui­eta, ou­vindo o de­sa­foro de ca­beça baixa. 

Na hora do al­moço e da janta, a Dá­lia pre­ci­sava co­mer lá fora, veja se pode. Se fosse hoje em dia, eu não dei­xava mais acon­te­cer. Com o tempo, a gente vai ga­nhando co­ra­gem para en­fren­tar os me­dos. De­pois de ver que a Dá­lia ia mesmo fi­car, a mãe nunca mais vol­tou para uma vi­sita, mas se vol­tasse, a his­tó­ria se­ria ou­tra. Quero res­peito, ora essa!

A Dá­lia é um anjo. Às ve­zes, te­nho pena dela. Foi o caso de um sá­bado à noite, na vila. Desde à tar­de­zi­nha, eu to­mava umas e ou­tras no bo­teco da saída, e fui fi­cando por lá. Con­versa vai, con­versa vem com uma­zi­nha, aca­bei lá den­tro. A moça era branca, branca, e as par­tes, tão ver­me­lhas, de me fa­zer rir, não sei o porquê. Fo­mos com mui­tas brin­ca­dei­ras, ela ge­mia com as có­ce­gas e me mor­dia, de­pois pa­re­cia que cho­rava um pouco e as­sim en­ros­ca­mos de ver­dade.

Quando le­van­tei do col­chão para me ves­tir, olhei a porta en­tre­a­berta e vi que a Dá­lia es­tava ali. Fi­quei bruto, com von­tade de es­pan­car ela, gri­tei com ela. De­pois, vi­e­mos qui­e­tos para casa. E nisso tive pena dela. Des­car­re­guei as com­pras e fo­mos jan­tar. Eu não quis abrir a boca para uma pa­la­vra, de mal co­migo mesmo. Logo eu, que trato bem até as va­cas, fui es­bra­ve­jar com a mi­nha Dá­lia, e logo onde? Aquela noite, dormi com re­morso.

Mas, nes­sas oca­siões, de­pressa rai­ava ou­tro dia e, com ele, o ba­tente. Ela me aju­dava com as va­cas, me acom­pa­nhava na en­trega do leite, cer­cava os ca­va­los no pi­quete, ia para a roça co­migo. Esquecia-se de en­tre­ve­ros e ma­le­di­cên­cias, era só a la­buta se re­pe­tindo, e o gosto bom de se ter por perto o que se gosta. 

Até hoje, eu e a Dá­lia es­ta­mos jun­tos. Aos do­min­gos, go­za­mos nosso re­creio. De­pois de ter­mi­na­dos os afa­ze­res, ma­car­rão e san­gue de boi no bu­cho, es­tico a rede de­baixo da man­gueira e é a hora de dor­mi­tar. Mais tarde, o sol baixo, eu e a Dá­lia va­mos para o meio da pas­ta­gem. Ela tam­bém tem seus gos­tos. Ela tam­bém me­rece a boa aten­ção. Com o ca­ni­vete, marco um gra­veto qual­quer e ar­re­messo o mais longe que posso. E lá vai ela toda fe­liz, la­tindo e aba­nando o rabo, para tra­zer de volta o que eu jo­guei, para mos­trar que co­nhece meu cheiro, mi­nha es­sên­cia.

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