Es­tão che­gan­do as fes­tas ju­ni­nas, a épo­ca mais gos­to­sa do ca­len­dá­rio. Não sei se vo­cê se co­mo­ve com quen­tão mor­no e do­ce de ba­ta­ta, qua­dri­lha e pau-de-se­bo, cor­reio-ele­gan­te e sim­pa­tia pa­ra o san­to. Eu, sim. Sem­pre achei as ju­ni­nas um exem­plo cris­ta­li­no de bra­si­li­da­de, tal­vez por­que elas ain­da es­te­jam imu­nes à me­ca­ni­za­ção do ro­tei­ro co­mo o Car­na­val. Nas fes­tas de ju­nho, nin­guém vai des­fi­lar na ave­ni­da à pro­cu­ra dos ho­lo­fo­tes nem ali­men­ta uma fal­sa eu­fo­ria pa­ra se­gu­rar o pi­que até a Quar­ta-Fei­ra de Cin­zas.

As ce­le­bra­ções a San­to Antô­nio, São Pe­dro e São João são mais se­re­nas, mais sin­ge­las, mais anô­ni­mas. Elas pre­ser­vam um las­tro de in­ge­nui­da­de ca­paz de de­sar­mar o mais bla­sé, ur­ba­no e en­gra­va­ta­do dos con­vi­da­dos. Até ele po­de fa­zer as pa­zes com as su­as raí­zes, dan­do voz à cri­an­ça cai­pi­ra que mo­ra den­tro de­le – e tam­bém den­tro ca­da um de nós. Sim, eu te­nho es­sa te­o­ria: acho que qua­se to­do bra­si­lei­ro tem um le­ve pa­ren­tes­co com o Chi­co Ben­to do Mau­rí­cio de Sou­za. Po­de­mos não sa­ber, mas gos­ta­mos de rou­bar goi­a­ba, acor­dar com o ga­lo e na­mo­rar de­pois da mis­sa. E es­sa he­ran­ça ar­que­tí­pi­ca flo­res­ce de ver­da­de em ju­nho, du­ran­te as fes­tas aos pa­dro­ei­ros.

Se vo­cê qui­ser en­trar no cli­ma, bas­ta con­vo­car seus ami­gos e to­mar as se­guin­tes pro­vi­dên­ci­as: com­prar al­guns do­ces ba­ra­tos, ves­tir um je­ans bem sur­ra­do, fa­zer uma fo­guei­ra im­pro­vi­sa­da, ar­ran­jar mú­si­ca de san­fo­nei­ro e re­cru­tar cri­an­ças dis­pos­tas a tran­çar os ca­be­los ou de­se­nhar bi­go­des com car­vão pa­ra en­gros­sar a qua­dri­lha (o exér­ci­to de vo­lun­tá­ri­os vai do­brar o quar­tei­rão...). O res­to é lu­cro: pa­ço­cas or­di­ná­ri­as, da­que­las que es­fa­re­lam, são as mais gos­to­sas; je­ans ve­te­ra­nos, com re­men­dos qua­se in­dis­pen­sá­veis, são os mais con­for­tá­veis; e qua­dri­lhas de­sor­ga­ni­za­das, es­bu­ra­ca­das ou con­ges­ti­o­na­das são as mais en­gra­ça­das. Eu ga­ran­to que, de­pois da meia-noi­te, sua al­ma es­ta­rá la­va­da, pas­sa­da e en­go­ma­da.

Bar­ra­ca de pes­ca

Eu vol­to a ser cri­an­ça nas fes­tas ju­ni­nas. Gos­to das bar­ra­cas de pes­ca e das ar­go­las. Não sou mui­to fã da to­ca do co­e­lho, por­que te­nho pe­na do pró­prio, sem­pre as­sus­ta­do e es­tres­sa­do (os bi­chos de­ve­ri­am ser pou­pa­dos des­sas con­fra­ter­ni­za­ções hu­ma­nas, a co­me­çar pe­la exi­bi­ção em cir­cos).

Acho o má­xi­mo re­ce­ber cor­reio-ele­gan­te e não re­cla­mo de ir pa­ra a ca­deia, des­de que al­gum an­jo me de­vol­va lo­go a li­ber­da­de. Ado­ro o sa­bor do gen­gi­bre no quen­tão e da er­va-do­ce no bo­lo de fu­bá. Fi­co ma­ra­vi­lha­da di­an­te das noi­vi­nhas cai­pi­ras e es­tou sem­pre dis­pos­ta a en­si­nar sim­pa­ti­as pa­ra ado­les­cen­tes de­vo­tas de San­to Antô­nio.

Só uma coi­sa me ti­ra do sé­rio: a pe­ga­da coun­try há pou­co in­cor­po­ra­da a es­sas fes­tas. Quem foi o in­fe­liz que im­por­tou a at­mos­fe­ra ame­ri­ca­na pa­ra o Bra­sil? Cow­boys e cow­girls de­vem ser ex­pa­tri­a­dos ime­di­a­ta­men­te! Nas nos­sas ju­ni­nas tra­di­ci­o­nais, o ves­ti­di­nho é de chi­ta e o cha­péu é de pa­lha.

Apro­vei­te­mos tam­bém pa­ra de­por­tar os ser­ta­ne­jos pop e as in­si­nu­a­ções de que fes­ta ju­ni­na faz link com fes­ta de peão (ou­tra aber­ra­ção que po­de­ria ser ex­ter­mi­na­da jun­to com a apre­sen­ta­ção de ani­mais em cir­cos). Na mi­nha cai­xa de som, não ro­la Ze­zé Di Ca­mar­go nem lo­cu­tor de ro­deio. A eles um con­vi­te: pe­guem ca­ro­na no pri­mei­ro ro­jão ru­mo a Mar­te! E fi­quem por lá.

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