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Acorrentados – Texto de Otávio Nunes

quinta-feira, 26 de maio de 2005 Texto de

Val­de­má­rio che­gou na pla­ta­forma da es­ta­ção do me­trô no mo­mento em que um trem se apro­xi­mava. En­quanto as pes­soas saíam e en­tra­vam na com­po­si­ção, ele pen­sou so­bre o ato que es­tava por fa­zer. Não ti­nha ou­tro jeito. Num só dia per­dera o em­prego e a na­mo­rada. Pre­ci­sava to­mar uma ati­tude.

Quanto ao ser­viço, não se im­por­tava. Era um sim­ples fa­xi­neiro de hos­pi­tal. Mas per­der Val­ci­néia, com quem na­mo­rava ha­via três anos, era muito do­lo­rido. Néia era a ra­zão da sua vida. Pla­ne­java ca­sar as­sim que ar­ru­masse um em­prego me­lhor que lim­par quar­tos de do­en­tes.

Es­pe­rou to­dos en­tra­rem no trem. Abriu a mo­chila e pe­gou a cor­rente e o ca­de­ado. Pu­lou no bu­raco do trem, acor­ren­tou um dos pés ao tri­lho, pas­sou o ca­de­ado nos elos e jo­gou fora a chave. 

Ra­pi­da­mente a se­gu­rança foi aci­o­nada e a cir­cu­la­ção dos trens, in­ter­di­tada. Os pri­mei­ros se­gu­ran­ças que des­ce­ram à via per­gun­ta­ram ao ra­paz qual o mo­tivo da­quele ato in­sano. Val­de­má­rio disse que es­tava que­rendo que Néia o acei­tasse de volta. Sem ela, não ha­via mo­tivo para vi­ver. Logo de­pois che­ga­ram os po­li­ci­ais.

Em pou­cos mi­nu­tos, a pla­ta­forma se en­cheu de gente. Até quem es­pe­rava trem em ou­tras li­nhas da es­ta­ção somou-se à mul­ti­dão. Equi­pes de rá­dio, te­le­vi­são e jor­nal tam­bém apa­re­ce­ram, pro­cu­rando abrir ca­mi­nho em meio à bal­búr­dia. “Im­prensa! im­prensa!”, gri­ta­vam.

Na li­nha do trem, ne­nhum se­gu­rança ou po­li­cial con­se­guia de­sa­cor­ren­tar Val­de­má­rio, que con­ti­nu­ava re­so­luto em seu de­sa­tino e cla­mava por Néia. Vá­rios fun­ci­o­ná­rios do me­trô, até mesmo os da bi­lhe­te­ria, e pas­sa­gei­ros pro­cu­ra­vam a chave na pla­ta­forma e nos tri­lhos, sem êxito. 

Sem chave, só res­tava rom­per o ca­de­ado ou a cor­rente com ma­ça­rico. Os bom­bei­ros trou­xe­ram o apa­re­lho mas não con­se­guiam che­gar ao lo­cal. O obs­tá­culo hu­mano era quase in­trans­po­ní­vel. As pes­soas se jun­ta­vam den­tro e fora da es­ta­ção. Até nas ruas ad­ja­cen­tes ha­via con­fu­são. To­das as li­nhas do me­trô, até de ou­tras es­ta­ções, es­ta­vam pa­ra­das.

Um pas­tor jo­gou uma bí­blia em di­re­ção ao acor­ren­tado. “Sua sal­va­ção, meu fi­lho.” Um dono de agên­cia de em­prego ati­rou o car­tão de vi­sita. “Procure-me ama­nhã.” Uma re­pór­ter de rá­dio dei­xou cair o ce­lu­lar nos tri­lhos, en­quanto no­ti­ci­ava o fato. Uma se­nhora jo­gou o mo­lho de cha­ves de sua casa. “Tem uma que é do ca­de­ado do meu por­tão, tal­vez sirva.” 

Na casa onde tra­ba­lhava como em­pre­gada do­més­tica, Néia viu a cena pela te­le­vi­são. “Val­ci­néia, que­rida, se você es­ti­ver nos as­sis­tindo, li­gue para nossa cen­tral de jor­na­lismo”, disse o apre­sen­ta­dor do pro­grama po­li­cial. Ela dis­cou o nú­mero e fa­lou no ar. Sua li­ga­ção foi trans­fe­rida para o lo­cal e o re­pór­ter pas­sou o te­le­fone para Val­de­má­rio. “Val, es­tou ar­re­pen­dida. Pare com esta lou­cura. Eu te aceito de volta.” O ca­sal ti­nha ga­nho no­to­ri­e­dade na­ci­o­nal e todo o País viu e ou­viu Val­de­má­rio es­bra­ve­jar sua ale­gria. “Você jura, Néia?” 

De­pois de al­guns mi­nu­tos, os bom­bei­ros con­se­gui­ram che­gar até Val­de­má­rio. Mas na hora de li­gar o ma­ça­rico, não ha­via ne­nhuma to­mada perto. Mi­nu­tos de­pois, o ele­tri­cista da com­pa­nhia trouxe a ex­ten­são com 50 me­tros de com­pri­mento. O ma­ça­rico não cus­piu ne­nhuma leve cen­te­lha. O apa­re­lho era de 220 volts e a to­mada, de 110. Mais al­guns mi­nu­tos se pas­sa­ram e fi­nal­mente Val­de­má­rio es­tava li­vre.

Uma se­nhora, que du­rante toda a con­fu­são fi­cara com seu fi­lho de dois anos no colo, en­cos­tada num canto da pla­ta­forma, es­pe­rou a mul­ti­dão se dis­per­sar e pôs o me­nino no chão. De­pois viu que ele brin­cava com algo me­tá­lico na mão, uma pe­quena chave de ca­de­ado.

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