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PERDEU!

terça-feira, 14 de junho de 2005 Texto de

Quase não se per­cebe sua apro­xi­ma­ção. O cen­tro­a­vante surge do nada, con­funde o pas­sante como um Gar­rin­cha do as­falto, arranca-lhe a pasta e sai cor­rendo. Às ve­zes são dois za­guei­ros: en­quanto um agarra o in­cauto, o ou­tro tira-lhe o re­ló­gio e puxa-lhe a car­teira do bolso tra­seiro da calça, ao som do grito de guerra – Per­deu!. E so­mem na mul­ti­dão, num tra­ba­lho per­feito de equipe.

Adi­ante, o exí­mio to­ca­dor de ca­va­qui­nho em­purra a idosa que passa dis­traída, derruba-a no chão e fica com o en­ve­lope do pa­ga­mento de sua apo­sen­ta­do­ria. Joga-o para o com­pa­nheiro e corre cada um para cada lado.

Na praia, agrupam-se o téc­nico de in­for­má­tica, o en­fer­meiro, o pro­fes­sor, o atleta, o ci­en­tista, o me­câ­nico, o pi­loto, o bom­beiro e, bem en­sai­a­dos, lançam-se so­bre os que to­mam sol e con­ver­sam des­pre­o­cu­pa­dos. Ar­ras­tam tudo o que vêem pela frente, as­sus­tam os ba­nhis­tas com seus gri­tos e sua vi­o­lên­cia e so­mem cor­rendo, dei­xando o caos e o ter­ror atrás de si.

À noite, sen­tada no meio-fio, uma jo­vem ve­te­ri­ná­ria, grá­vida de oito me­ses, olha de longe seu pri­meiro fi­lho no colo de uma den­tista, que tenta sen­si­bi­li­zar os mo­to­ris­tas pa­ra­dos no si­nal a lhe da­rem di­nheiro para cui­dar da cri­ança. Em breve, quando o ou­tro bebê nas­cer, será mais um a ser usado na ten­ta­tiva de co­mo­ver ou­tros mo­to­ris­tas em ou­tras es­qui­nas da ci­dade. Nessa mesma equipe, a en­fer­meira, o jó­quei e o pro­fes­sor lim­pam os pára-brisas de car­ros para di­vi­di­rem a fé­ria do dia com o dono do ponto.

Ao pá­tio de uma ins­ti­tui­ção para re­a­bi­li­ta­ção de me­no­res, chega a nova leva de in­ter­nos do dia – um ator, um salva-vidas e um com­po­si­tor, en­tre ou­tros. Es­tes já sen­ti­ram o gosto de san­gue, quase to­dos são ju­ra­dos de morte e usam o tempo oci­oso na ins­ti­tui­ção na cri­a­ção e pla­ne­ja­mento de es­tra­té­gias e no­vos gol­pes para quando saí­rem dali. 

Nas ruas, os que ainda não fo­ram apa­nha­dos con­ti­nuam as ações-relâmpago acom­pa­nha­das pelo mesmo grito de guerra. A cada uma des­sas vi­tó­rias, os pro­fis­si­o­nais que um dia eles po­de­riam ser de­sa­pa­re­cem an­tes de exis­ti­rem. Vão-se po­e­tas, jor­na­lis­tas e DJs, en­tre tan­tos ou­tros, por­que Ca­vei­ras, De­di­nhos e Bi­lus têm pressa de vi­ver e de apro­vei­tar a qual­quer preço o pouco tempo de vida que lhes resta. Exa­ta­mente como suas ví­ti­mas, que per­de­ram o re­ló­gio, a bolsa ou a vida, eles mes­mos já ha­viam per­dido to­dos os di­rei­tos an­tes de nas­ce­rem, in­clu­sive o de pas­sar dos vinte anos de idade. Ti­ve­ram o azar de nas­cer num país que, vo­lun­ta­ri­a­mente, dé­cada após dé­cada, deixa uma enorme par­cela de sua po­pu­la­ção à mar­gem de tudo. E que, jus­ta­mente por isso, é o grande per­de­dor nesse re­a­lity show na­ci­o­nal.

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