Contos

Dívida paga

sábado, 19 de março de 2005 Texto de

Gra­vado para sem­pre em mi­nha re­tina, há um olhar; um triste e in­qui­eto olhar. Foi num Sete de Se­tem­bro. De­sem­pre­gado há seis me­ses, com con­tas e mais con­tas enfiando-se sob a porta, eu pro­cu­rava jun­tar os ca­cos que ainda res­ta­vam de mi­nhas par­cas eco­no­mias, mas por maior que fosse, o con­tor­ci­o­nismo nunca se mos­trava su­fi­ci­ente para es­tan­car aquela ver­da­deira san­gria de­sa­tada. O sa­lá­rio de pro­fes­sora de en­sino mé­dio re­ce­bido por mi­nha mu­lher mal ser­via para o mer­cado. De­vía­mos na far­má­cia, na pa­da­ria, no açou­gue e por aí afora. As rou­pas da me­nina de sete anos se per­diam ra­pi­da­mente, o ga­roto de qua­tro anos ar­re­ba­nhava os brin­que­dos em pe­da­ços sem ter nada novo à mão. Nos­sos pa­ren­tes mais pró­xi­mos, coi­ta­dos, vi­viam (e vi­vem) como todo mundo hoje em dia: re­zando para o mês aca­bar logo. Como diz um ex-colega meu, a en­crenca era grande.

No meio de tudo isso, ocor­reu um epi­só­dio cu­ri­oso. Apareceu-me no fe­ri­ado da In­de­pen­dên­cia um primo que eu não via fa­zia já um bom tempo. Che­gou di­ri­gindo um des­ses car­ros im­por­ta­dos. De cara, con­fesso, até imaginei-o cho­fer de al­gum em­pre­sá­rio rico, mas logo ele mesmo des­fez mi­nha im­pres­são. Des­ceu com uma mu­lher muito bem ali­nhada que ele cha­mou de “meu bem” e com um ga­ro­ti­nho, tam­bém de três ou qua­tro anos, que vi­nha den­tro de uma roupa muito apru­mada. Esse meu primo, numa certa fase de nos­sas vi­das, fora para mim como um ir­mão, éra­mos unha e carne. Nunca ti­ve­mos pos­ses. Por isso, foi-me di­fí­cil, à pri­meira vista, imaginá-lo mon­tado num bom di­nheiro. Bom, de qual­quer ma­neira, ia muito bem o primo.

Fi­ca­ram para o al­moço. Mi­nha mu­lher, aliás, superou-se na hora de pôr à mesa. Fez, por as­sim di­zer, uns mi­la­gres para cons­truir aquele car­dá­pio a par­tir de uma ge­la­deira quase va­zia. Bus­quei umas cer­ve­jas e fi­ca­mos ali, ba­tendo papo até o meio da tarde. O primo ex­pli­cou que es­tava de pas­sa­gem, go­zava fé­rias da mul­ti­na­ci­o­nal onde tra­ba­lhava ha­via cinco anos e ao cru­zar com mi­nha ci­dade de­ci­dira en­trar para ma­tar as sau­da­des. Claro que não houve qual­quer pos­si­bi­li­dade para queixar-me a ele de mi­nhas pen­dên­cias fi­nan­cei­ras. Às pes­soas bem co­lo­ca­das quase sem­pre é di­fí­cil en­xer­gar as an­gús­tias alheias. E no mais, pro­cu­ra­mos evi­tar a todo custo de­mons­trar es­sas an­gús­tias. Sabe aquele or­gu­lho pró­prio? Pois é. 

Pouco an­tes das des­pe­di­das, um ca­sal amigo cu­jas cri­an­ças se equi­va­lem nas ida­des com as nos­sas pe­gou os pe­que­nos e levou-os para o par­que, como já es­tava com­bi­nado desde a se­mana an­te­rior. Os dois, que para di­zer a ver­dade não se bi­ca­ram muito com o fi­lho do primo, dis­se­ram um tchau­zi­nho breve e se man­da­ram. Em se­guida, as vi­si­tas tam­bém co­me­ça­ram a se des­pe­dir, mas eis que, por al­guma ra­zão que só o des­tino é ca­paz de ex­pli­car, nosso cão, cha­mado Gordo pe­las cri­an­ças, es­ca­pu­liu do fundo do quin­tal e aden­trou a sala onde tí­nha­mos aca­bado de al­mo­çar. De uma des­sas ra­ças de cães pe­que­nos, e mal saído dos pri­mei­ros seis me­ses, veio esfregar-se em nos­sas per­nas, de­baixo da mesa. Na­tu­ral­mente, o me­nino, que até ali só abrira a boca para co­mer duas ou três gar­fa­das de ar­roz e carne, animou-se muito. En­quanto to­ma­mos mais uma ge­lada, o fi­lho do primo arrebitou-se da ca­deira e pôs-se a brin­car com o cão­zi­nho. Na hora de sair, fez cara de choro, ba­teu o pé: que­ria o Gordo para ele. O primo se fez de du­rão, levou-o pelo braço e atirou-o den­tro do au­to­mó­vel im­por­tado. Nós nos des­pe­di­mos e eles se fo­ram.

Pas­sada coisa de meia hora, es­tá­va­mos ter­mi­nando de en­xu­gar os pra­tos, soou a cam­pai­nha. Eram eles no­va­mente. O primo sor­riu ama­relo na porta de casa e contou-nos uma his­tó­ria as­sim: na ver­dade, o me­nino fora cri­ado muito cheio de den­gos e desde cedo dera muito tra­ba­lho com suas tris­te­zas pro­fun­das, que o le­va­vam à de­pres­são. En­quanto o primo fa­lava, eu ob­ser­vei den­tro do carro o ga­roto em pran­tos sendo con­for­tado pela mãe. Por um ins­tante, tive muita pena da­quela fa­mí­lia. Lembrei-me de meus fi­lhos, tão ale­gres e com­pa­nhei­ros, em­bora com pou­cos bens ma­te­ri­ais. Mas, sabe como é o ser hu­mano, es­ses sen­ti­men­tos no­bres quase nunca nos pro­te­gem con­tra as idéias mun­da­nas que nos en­vol­vem quando nossa pró­pria so­bre­vi­vên­cia está em jogo. Rá­pido, pen­sei que se o primo qui­sesse le­var o Gordo, se fosse aquela a sua in­ten­ção, en­tão que pre­pa­rasse o bolso para me aju­dar a pa­gar as con­tas atra­sa­das. Bem, nem é pre­ciso di­zer que o primo me pe­diu para vender-lhe o ca­chorro. En­tão, convidei-o a en­trar no­va­mente.

Sen­ta­mos na sala, mi­nha mu­lher trouxe-nos um ca­fe­zi­nho. Em pou­cas pa­la­vras, expliquei-lhe nossa si­tu­a­ção. O caso era que, além de to­dos os pro­ble­mas que ví­nha­mos en­fren­tando, se en­tre­gás­se­mos o ca­chorro por nada ainda ga­nha­ría­mos uma crise a mais, pois cer­ta­mente as cri­an­ças, ape­ga­das que já es­ta­vam ao Gordo, não iriam apro­var nossa ati­tude. O primo olhou-me com co­mi­se­ra­ção e questionou-me a res­peito de meu si­lên­cio so­bre nos­sas ne­ces­si­da­des fi­nan­cei­ras. Em se­guida, disse-me algo como “uma mão lava a ou­tra”. Propôs levar-me o ca­chorro e em troca deixar-me uma ra­zoá­vel quan­tia num che­que cujo ta­lão ele já sa­cava de um dos bol­sos da calça. Olhei para mi­nha mu­lher, apa­ren­te­mente ela não dis­cor­dava. Fe­chei o ne­gó­cio.

Bus­quei o Gordo, que a prin­cí­pio veio todo fe­liz no meu colo. Com jeito, levei-o ao carro. Só en­tão, ele co­me­çou, acre­dito eu, a com­pre­en­der o que se pas­sava na re­a­li­dade. Eu e o primo nos des­pe­di­mos no­va­mente, ele li­gou o carro. No banco de trás, o me­nino pôs o Gordo so­bre as per­nas, ten­tando afagá-lo ao mesmo tempo em que lim­pava o rosto cheio de lá­gri­mas. O ca­chorro, in­qui­eto, pro­cu­rava esgueirar-se por en­tre os bra­ços fi­nos do ga­roto, es­pi­chava o pes­coço em di­re­ção ao vi­dro e lançava-me aquele olhar cuja ex­pres­são ja­mais me dei­xará. O vi­dro su­biu au­to­ma­ti­ca­mente, o primo ace­le­rou e o im­por­tado afastou-se. Pela tra­seira, ainda pude ver o Gordo de ore­lhas em pé empinar-se so­bre o banco para olhar-me no meio da rua. 

Com o di­nheiro dei­xado pelo primo rico, pa­ga­mos pra­ti­ca­mente to­das as nos­sas con­tas atra­sa­das, o que nos per­mi­tiu um fô­lego ex­tra até que eu con­se­guisse um novo em­prego. Claro que meus fi­lhos sen­ti­ram muito a par­tida do Gordo. Por mais que eu ten­tasse explicar-lhes o mo­tivo, eles ja­mais me per­do­a­ram. Ar­ru­mei um bom tra­ba­lho nos me­ses se­guin­tes e muito de­pressa to­mei uma de­ci­são que, após aquele olhar, sem­pre es­teve nos meus pla­nos. Re­solvi ir fa­lar com o primo a res­peito do Gordo. Iria di­zer a ele so­bre o mal es­tar que tei­mava em es­tre­me­cer mi­nha re­la­ção com meus fi­lhos. Iria pe­dir a ele que me ven­desse de volta o ca­chorro. Para isso, jun­tei exa­ta­mente o di­nheiro que ele me en­tre­gara. Vi­a­jei ao seu en­con­tro sem avi­sar.

Ao receber-me em seu es­cri­tó­rio, num des­ses pré­dios lu­xu­o­sos da ca­pi­tal, ele abraçou-me com ca­ri­nho. Con­tei a ele meu drama e pedi que me de­vol­vesse o Gordo. An­tes de sua res­posta, entreguei-lhe as no­tas con­ta­das. O primo olhou-me ad­mi­rado. Disse-me que por nada re­ce­be­ria aquele di­nheiro, que se eu não ti­nha en­ten­dido, en­ten­desse agora: o di­nheiro ele me ha­via dado com a sa­tis­fa­ção de po­der au­xi­liar uma pes­soa que ele re­al­mente amava. Fez-me guar­dar o pe­queno pa­cote e, en­tão, deu-me as más no­tí­cias. O Gordo ha­via es­tado me­lan­có­lico desde que o ti­nham tra­zido para sua nova casa. O pró­prio fi­lho, de­sa­ni­mado com a falta de re­cep­ti­vi­dade do ca­chorro aos seus ca­ri­nhos, deixara-o de lado. Ha­via al­guns dias, disse-me o primo, ele e a mu­lher, co­mo­vi­dos pela tris­teza do cão­zi­nho, en­sai­a­ram in­clu­sive levá-lo de volta, mas o tra­ba­lho os im­pe­dia de sair na­quele mo­mento. Di­ante da pi­ora do ani­mal, re­sol­ve­ram interná-lo numa clí­nica ve­te­ri­ná­ria.

Não posso ex­pres­sar o que senti ao ou­vir as ex­pli­ca­ções do primo: uma mis­tura de fe­li­ci­dade e apre­en­são envolveu-me na­quele ins­tante. Onde fi­ca­ria a clí­nica? Eu pre­ci­sava ir até lá, levá-lo de volta para as cri­an­ças! O primo ves­tiu o pa­letó e, abraçando-me, convidou-me para ir­mos até o Gordo. Mas tam­bém advertiu-me so­bre sua saúde: o ve­te­ri­ná­rio acei­tara interná-lo, mas não ga­ran­tia sua re­cu­pe­ra­ção. Mesmo as­sim, lá fo­mos nós. Vou re­su­mir as fa­ses se­guin­tes: ao ver-me, o Gordo pas­sou por uma rá­pida re­cu­pe­ra­ção, ini­ci­ada ali mesmo na clí­nica, para es­panto do primo e do pró­prio ve­te­ri­ná­rio. Levei-o para casa ape­nas no ou­tro dia, se­guindo a re­co­men­da­ção do mé­dico, que o con­si­de­rava muito fraco para ter alta ime­di­a­ta­mente. Mas nem eu acre­di­tei como ele me­lho­rou de uma hora para ou­tra. Pa­re­cia até coisa ar­ran­jada por aquele cão­zi­nho sim­pá­tico e ou­trora re­chon­chudo. Já com as cri­an­ças, refez-se em pou­cos dias. Meus fi­lhos abraçaram-me como nunca o ti­nham feito. 

A vida se­guiu em frente, com seus al­tos e bai­xos. Há qua­tro me­ses, a em­presa na qual eu tra­ba­lhava fe­chou suas por­tas, es­tou de­sem­pre­gado no­va­mente. E nes­tas ou­tras ho­ras de aperto, olho pre­o­cu­pado para o Gordo, ao passo que ele vai se con­tor­cendo em pe­que­nos cír­cu­los ao re­dor do pró­prio corpo, torna a fitar-me e em se­guida busca ou­tra ocu­pa­ção, sem­pre mo­ni­to­rando de es­gue­lha meus mo­vi­men­tos, como se qui­sesse certificar-se de que eu não mais o agar­ra­rei para entregá-lo a um primo ou a quem quer que seja. Mas, de­ci­di­da­mente, não se trata disso, meu caro cão. De­certo, ven­de­ria a alma ao ou­tro, mas nunca mais lhe pas­sa­ria nos co­bres. Penso nisso e, mesmo com to­dos os per­cal­ços de mi­nha eco­no­mia do­més­tica, fico sor­rindo para você, des­co­brindo aos pou­cos que ne­nhuma dí­vida deste mundo pode im­por­tar mais do que aquela que sal­da­mos com nos­sos pró­prios sen­ti­men­tos. E você, pa­re­cendo compreender-me, vem a pas­si­nhos lé­pi­dos bus­car um afago. 

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