Que uma parte da classe po­lí­tica sem­pre foi econô­mica em bons exem­plos, não é no­vi­dade. Só não pre­ci­sava exa­ge­rar. Por volta dos oito anos, ouvi que “po­lí­tico é tudo sa­fado”. Dis­cordo. Ge­ne­ra­li­za­ções têm ins­pi­ra­ção na­zista, o que pres­su­põe a con­de­co­ra­ção mo­ral de pou­cos apa­dri­nha­dos e o ape­dre­ja­mento da mai­o­ria “im­pura”. Ocorre que quando um (ape­nas um) par­la­men­tar en­tende que a tal coisa pú­blica é de nin­guém (quando, na ver­dade, é pú­blica por­que é de qual­quer ci­da­dão), en­tão vol­ta­mos à es­taca zero no que­sito mo­ra­li­dade. Já no que­sito ale­go­ria…

Quando vá­rios po­lí­ti­cos, de uma só vez, co­me­çam a ser des­cons­truí­dos por seus pró­prios pa­res – que, nos bas­ti­do­res, ar­qui­te­tam fla­gran­tes, gra­va­ções e apre­en­sões -, a más­cara cai em nos­sos pés. Fos­sem pró­di­gos os po­lí­ti­cos em bons exem­plos, te­ría­mos uma so­ci­e­dade sem “jei­ti­nhos” – ape­lido ca­ri­nhoso para jus­ti­fi­car de­li­tos “acei­tá­veis”. A coisa che­gou a tal ponto que, nesse mo­mento, há um no­bre de­pu­tado (são tan­tos, escapa-me o nome) que vem uti­li­zando a te­le­vi­são, em pe­ças par­ti­dá­rias, para afir­mar: “A cor­rup­ção che­gou a um ní­vel in­su­por­tá­vel”. Quer di­zer que ha­via, an­tes, um “ní­vel su­por­tá­vel de cor­rup­ção”?

Pa­rên­te­ses: as nos­sas sim­pá­ti­cas ma­ze­las criam leis que não pe­gam – e as­sim va­mos con­so­li­dando a nossa, às ve­zes, ane­dó­tica de­mo­cra­cia.
Tal­vez a cor­rup­ção seja, sim, su­por­tá­vel en­quanto prá­tica obs­cura. Às cla­ras, a cor­rup­ção cega – como o bri­lho dou­rado do po­der.

Ex­ce­len­tís­si­mos: fa­çam da crise um di­vi­sor de águas – lim­pas, não tur­vas. Co­me­cem por es­tan­car a san­gria do tempo de tevê com pa­té­ti­cos dis­cur­sos per­so­na­lis­tas. Aca­bem, para on­tem, com essa his­tó­ria de ilus­trar pro­gra­mas po­lí­ti­cos com as be­le­zas na­tu­rais do Bra­sil. Não é mais pos­sí­vel acei­tar aquela pa­no­râ­mica do Vi­a­duto do Chá como exem­plo da pu­jança pau­lis­tana!

Um ou­tro lí­der de­posto, dias atrás, saiu di­zendo que “deixa o cargo com as mãos lim­pas”. Já es­ta­mos ca­le­ja­dos dessa re­tó­rica. E pre­cisa di­zer que tem as mãos lim­pas? Não é o mí­nimo que es­pe­ra­mos de qual­quer po­lí­tico – na en­trada ou na saída? Ainda acre­di­ta­mos, con­tudo, que não são to­das as mãos que car­re­gam ma­las de di­nheiro para lá e para cá. O que não pode é vi­rar moda essa “dança da ma­li­nha”. “Ma­la­frá­rios” in­so­nes: vo­cês es­tão di­tando uma moda pe­ri­gosa. Se a dança pega…

Caso nada re­al­mente mude, das duas, uma: ou te­re­mos o re­torno de for­ças ultra-conservadoras (e que sem­pre tra­ba­lha­ram com com­pe­tên­cia na aco­lhe­dora es­cu­ri­dão) ou de ex­tre­mis­tas afoi­tos por um ho­lo­fote a fim de di­fun­dir suas in­cen­diá­rias pro­fe­cias. Apro­vei­tem, ex­ce­len­tís­si­mos, aquela pro­pa­ganda do “bom exem­plo”. Fa­çam a li­ção de casa, mas sem co­lar. Caso con­trá­rio, sei não: cor­re­mos o risco de ver o país de to­dos se trans­for­mar em terra de nin­guém.

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