Ele não sa­bia con­tar dois mais dois, sa­bia con­tar his­tó­rias. Não apren­deu a ler e es­cre­ver, mas jun­tava uma pla­téia con­cen­trada a seu re­dor. Não en­ten­dia por que os pais não lhe da­vam cer­tos brin­que­dos e, de­pois, por que a vida lhe ne­gava tan­tas coi­sas, em­bora con­tasse bri­lhan­te­mente tudo isso nas his­tó­rias que in­ven­tava, re­che­a­das de drama, pe­ri­pé­cias e fi­nais fe­li­zes. Não pôde nunca di­ri­gir um carro nem ca­sar e ter seus fi­lhos, nem tra­ba­lhar, na coisa mais sim­ples que fosse, mas sa­bia con­tar his­tó­rias, como pou­cos, e mui­tos o ou­vi­ram e se aven­tu­ra­ram com a sua ima­gi­na­ção. Era o que ele sa­bia fa­zer. Mas um dia ele mor­reu e nin­guém se lem­brou de es­cre­ver isso em sua lá­pide. De­pois as pes­soas, vi­si­tando o ce­mi­té­rio, pas­sa­vam por seu tú­mulo e co­men­ta­vam: E este, quem era? O fi­lho da dona fu­lana e do seu ci­crano. Quem? Aquele que mo­rava na casa ama­rela da rua tal, lem­bra? Ah, sim, o re­tar­dado.

E-mail: lbrasiliense@uol.com.br

Compartilhe