O peão - Texto de Leonardo Brasiliense | Márcio ABC

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O peão - Texto de Leonardo Brasiliense

terça-feira, 30 de agosto de 2005 Texto de

Eram o cam­po, as pas­ta­gens, len­ta­men­te era uma co­xi­lha a um tan­to de ou­tra e no meio o que não era co­xi­lha. Era tar­di­nha. O sol, que não se mos­tra­ra o dia to­do, se aca­ba­va. Ga­ro­a­va. Era frio, mui­to frio. A ga­roa, o céu fe­cha­do e a ho­ra não per­mi­ti­am que se en­xer­gas­se bem, mes­mo as­sim o jo­vem peão se­guia o ras­tro de san­gue das ove­lhas, ape­sar do que já se dis­se e do frio que lhe quei­ma­va os pés. O jo­vem peão era des­cal­ço e se cha­ma­va Ari, ou Ari­zi­nho, ou Ari­gó, con­for­me quem cha­mas­se, ca­da um re­ser­van­do-se o di­rei­to de fa­zê-lo tal ou qual. Ia so­zi­nho, sem ca­chor­ro, por­que ca­chor­ro que ma­ta ove­lha en­si­na os ou­tros, e eles pe­gam o gos­to, e se tem que sa­cri­fi­cá-los, o que é sem­pre uma dor. Pro­me­tia-se Ari que, che­gan­do ao pri­mei­ro ca­pão, en­ro­la­ria um ci­gar­ro pa­ra aque­cer-se. Pen­sa­va em ter um pon­cho e bo­tas. Pen­sa­va em ter mei­as, co­mo se­ria bom e quen­te. Um pon­cho, bo­tas, mei­as de lã, uma tar­de de sol, e mais is­to: chu­par la­ran­ja de­pois do al­mo­ço. As mei­as de lã o fi­ze­ram lem­brar as ove­lhas mor­tas: se en­con­tras­se uma, e se o bi­cho não fe­des­se mui­to, ia en­fi­ar os pés por bai­xo de­la, que a lã, mes­mo mo­lha­da, é me­lhor que a ga­roa fria. Mas es­cu­re­cia. Es­cu­re­cia ra­pi­da­men­te, e os olhos, ain­da que acos­tu­ma­dos, qua­se só dis­tin­gui­am a li­nha en­tre as co­xi­lhas e o céu. En­tão ras­tro de san­gue o peão não po­dia ver, e a li­da, por­tan­to, por ora es­ta­va aca­ba­da, adi­a­da. Era vol­tar pa­ra ca­sa. Mas es­cu­re­ce­ra e, sem lua e sem es­tre­las, a noi­te pe­sa­va den­sa, co­mo as rou­pas do peão Ari, pois a ga­roa era fra­ca mas se acu­mu­la­va e não se­ca­va. O jo­vem peão cal­cu­la­ra mal o tem­po da ida e da vol­ta, en­tre­tan­to, o mo­men­to era tar­dio às la­men­ta­ções, res­ta­va pros­se­guir, pas­sar a noi­te pa­ra vir o dia, e tal­vez o sol. E pa­ra dor­mir pre­ci­sa­va es­tar pro­te­gi­do, pre­ci­sa­va che­gar ao ca­pão. Fi­cou pa­ra­do qui­e­to pa­ra es­cu­tar um chi­a­do de ven­to qual­quer ba­ten­do nas ár­vo­res, de for­ma que sou­bes­se a di­re­ção do ma­to. Fi­cou até sem res­pi­rar por­que ou­via de­mais o seu pró­prio res­pi­rar. E na­da. Chi­a­va era a ga­roa no cam­po co­mo se cam­po só hou­ves­se, o que po­de­ria ser ver­da­de e má no­tí­cia. Ia se­guir quan­do pen­sou ter ou­vi­do al­go di­ver­so e es­ta­cou. Era um re­lin­cho lon­gín­quo e in­cons­tan­te. Con­cen­trou sua vi­gi­lân­cia pa­ra o la­do de que vi­nha o ba­ru­lho, e não ou­viu mais na­da além do re­lin­cho, nem tro­te nem ga­lo­pe, quan­to me­nos voz de gen­te. Alar­mou sua pre­sen­ça, cha­man­do por quem ou­vis­se. E co­mo res­pos­ta, na­da. Gri­tou mais for­te, com a má­xi­ma for­ça que po­dia. Na­da. Res­pos­ta ne­nhu­ma, nem de gen­te, nem de ca­va­lo, que o re­lin­cho pa­ra­ra. Gri­tou de no­vo, des­sa vez ao re­dor to­do; e por ro­de­ar-se, per­deu a ori­en­ta­ção, por­que era mui­to es­cu­ro e na­da se via. En­tão não sa­bia pois pa­ra on­de ia, não sa­bia de on­de veio. Aguar­dou um tan­to pa­ra gui­ar-se por um ba­ru­lho qual­quer, mas era o som da ga­roa no cam­po por to­do la­do e o som do seu res­pi­rar por den­tro. Não ten­do es­co­lha, se­guiu na sor­te. E mal de­ra uns pas­sos quan­do pas­sou tro­tan­do e ro­çou-lhe o lom­bo de um ca­va­lo no mes­mo sen­ti­do em que ia, e ou­viu o re­ti­nir de es­po­ras. Quem vai lá, gri­tou. E so­men­te o ca­va­lo res­pon­deu, re­lin­chan­do. Quem vai lá, re­pe­tiu, e nem o ca­va­lo mais res­pon­deu, o tro­te ia lon­gín­quo e inin­ter­rup­to. Quem era não dis­se, re­fle­tiu, mas se vai pa­ra lá é por­que vai a al­gu­ma es­tân­cia, ou pe­lo me­nos a al­gum ca­pão. As­sim con­cluí­do, viu-se um sor­tu­do, es­ta­va no ru­mo cer­to. Apres­sou-se. An­da­va rá­pi­do, mas sem cor­rer, por­que não en­xer­ga­va, não sa­bia on­de pi­sa­va, se­gui­do de­se­qui­li­bran­do-se pe­los des­ní­veis no chão, tro­pe­çan­do num cu­pim aqui, nu­ma car­ca­ça mais adi­an­te, sem pa­rar, sem­pre rá­pi­do na di­re­ção dos re­lin­chos, e se­gu­ran­do a von­ta­de de cor­rer. Pen­sa­va que, ago­ra, se achas­se uma ove­lha mor­ta, mes­mo que não fe­di­da, não aque­ce­ria os pés, que­ria che­gar lo­go à es­tân­cia, ao ca­pão, o que fos­se que lhe es­pe­ras­se à fren­te. Fir­ma­va os olhos pa­ra ver al­go no meio da es­cu­ri­dão, e não via na­da, mas a es­pe­ran­ça de ver uma luz era gran­de e fir­ma­va os olhos de no­vo, e de no­vo não en­xer­ga­va na­da, e ti­nha que de­sis­tir por en­quan­to da es­pe­ran­ça e con­cen­trar-se na ca­mi­nha­da, por­que, no seu ra­ci­o­cí­nio, se tro­pe­ças­se e caís­se, per­de­ria o ru­mo, o que se­ria im­per­doá­vel, já que os re­lin­chos não ou­via mais.
Não lem­bra­va o que lhe dis­se­ram o pre­to Jo­ca, o Ma­no­el rui­vo e o Vil­son, re­co­men­da­ções...
Era a noi­te an­te­ri­or. Es­ta­va se ajei­tan­do pa­ra dor­mir num pe­le­go, na sa­la do ran­cho do Vil­son... Vil­son e a mu­lher, a Ma­ri­co­ta, da­vam-lhe pou­so des­de que seu pai mor­re­ra, por­que o pa­trão dis­pu­se­ra o ran­cho on­de ele e o pai vi­vi­am ao peão que subs­ti­tuiu o ve­lho. A mãe ele não co­nhe­ceu, pa­re­ce que fu­giu com o aman­te, nem bem o me­ni­no se des­ma­ma­ra, o que não vem ao ca­so. Im­por­ta é que ele se ar­ru­ma­va no pe­le­go, e o Ma­no­el rui­vo foi en­tran­do no ran­cho sem ba­ter na por­ta. Vil­son e o pre­to Jo­ca car­pe­te­a­vam e se as­sus­ta­ram. O rui­vo, sem bo­as noi­tes, foi atro­pe­lan­do:
- O cão, o ca­chor­ro lou­co... ele veio aqui...
- Te acal­ma, vi­ven­te! - dis­se o Vil­son. - Que his­tó­ria é es­sa?
- O ca­chor­ro...
Es­ba­fo­ri­do, o ho­mem mal con­se­guia fa­lar:
- Lem­bram das ove­lhas mor­tas per­to da san­ga, nas ter­ras do dr. Fe­lí­cio?
- Ma­ri­ca, nos faz um ma­te - ata­lhou o do­no da ca­sa.
A Ma­ri­co­ta apa­re­ceu na por­ta da co­zi­nha, en­xu­gan­do uma tam­pa de pa­ne­la, com os olhos in­je­ta­dos no rui­vo:
- Dei­xa o ho­mem fa­lar, pai.
Ma­ri­co­ta ain­da cha­ma­va o Vil­son de pai, em­bo­ra a fi­lhi­nha eles já não ti­ves­sem há três anos.
E o rui­vo pe­gou fô­le­go:
- Lem­bram? O pa­trão foi cha­ma­do lá, ele mais o dou­tor­zi­nho Lu­cas, e acha­ram que um ca­chor­ro ti­nha ma­ta­do os bi­chos, pe­las mor­di­das.
Lu­cas era o fi­lho do es­tan­ci­ei­ro, for­ma­do ve­te­ri­ná­rio na ca­pi­tal, por is­so o vi­zi­nho so­li­ci­tou sua opi­nião. Eram qua­tro ani­mais mor­tos, em qua­tro noi­tes, com as gar­gan­tas di­la­ce­ra­das e os olhos chu­pa­dos, ape­nas is­so.
O pre­to Jo­ca se ben­zeu:
- Nem me fa­la... aque­le ne­gó­cio dos olhos não me dei­xa mais dor­mir di­rei­to.
E o me­ni­no Ari, sen­ta­do no pe­le­go, qui­e­to, es­cu­ta­va.
O Vil­son quis ame­ni­zar:
- Vai as­sus­tar o gu­ri, Jo­ca! Se eles dis­se­ram que era um ca­chor­ro, era um ca­chor­ro, e eles é que en­ten­dem.
E se vi­ran­do pa­ra a mu­lher:
- Ma­ri­co­ta, nos ar­ru­ma aque­le ma­te, faz fa­vor.
Aí, se quis ame­ni­zar, traiu-se, e o me­ni­no re­pa­rou, por­que o Vil­son só cha­ma­va a es­po­sa pe­lo no­me cor­re­ta­men­te quan­do es­ta­va bra­bo, e só pe­dia fa­vor a ela na mes­ma con­di­ção. E o Vil­son, que era um san­to, só fi­ca­va bra­bo quan­do es­ta­va ner­vo­so.
Mas a Ma­ri­co­ta não saiu da por­ta da co­zi­nha, e não lar­gou a tam­pa de pa­ne­la, que já es­ta­va bem se­ca. Ao in­vés dis­so, per­gun­tou ao rui­vo:
- E ago­ra, foi aqui, on­de?
- Per­to do ba­nhei­ro.
Daí o pre­to, au­to­má­ti­co:
- Não po­de, se ove­lha não pas­sa pr’aquelas ban­das de noi­te...
- Jus­to! - con­fir­mou o rui­vo.
E o Vil­son con­cluiu, des­ne­ces­sá­rio:
- En­tão foi ar­ras­ta­da.
A Ma­ri­co­ta dei­xou cair a tam­pa da pa­ne­la.
- Deus nos li­vre e guar­de - con­ti­nu­ou se ben­zen­do o pre­to Jo­ca.
- Não faz as­sim que tu im­pres­si­o­na o gu­ri, Jo­ca! - o Vil­son gri­tou, ba­ten­do na me­sa, o que mos­trou o quan­to im­pres­si­o­na­do es­ta­va ele mes­mo, que nun­ca gri­ta­ria com uma vi­si­ta em sua ca­sa, e mui­to me­nos com o pre­to Jo­ca, que era mais ve­lho. E o Vil­son sem­pre res­pei­tou os mais ve­lhos, fos­sem até pre­tos.
O Jo­ca, fe­ri­do nas su­as hon­ras, le­van­tou-se e foi sain­do. O Vil­son não se des­cul­pou, por­que lhe fal­ta­vam as pa­la­vras e tam­bém o tra­que­jo. Ape­nas dis­se:
- Que é is­so, Jo­ca, que é is­so!
Po­rém, não deu efei­to.
Ma­ri­co­ta, co­mo fo­ra de si, re­pe­tia, cheia de me­do no olhar:
- É o bi­cho, é ele, eu sei, é o bi­cho... o bi­cho...
O Vil­son foi abra­çá-la. Já ti­nha vis­to a mu­lher des­se jei­to, quan­do per­de­ram a me­ni­ni­nha. Ela fa­lou bo­ba­gens por di­as. Ele qua­se a le­vou ao mé­di­co, na ci­da­de, mas ela me­lho­rou: de­pois da fa­la­ção, foi um si­lên­cio, que du­rou mais uns tem­pos, e só de­pois ela vol­tou ao nor­mal, mais ou me­nos.
Ma­no­el rui­vo per­ce­beu que de­via ir em­bo­ra, e foi.
O me­ni­no Ari­zi­nho se dei­tou no pe­le­go e dor­miu, mas mal, mui­to mal: so­nhou com coi­sas ruins a noi­te in­tei­ra, e de ma­nhã não lem­bra­va com o quê, no en­tan­to sa­bia que eram pe­sa­de­los. E deu gra­ças a Deus por es­tar acor­da­do.
Pois foi lo­go de ma­nhã que che­gou o dou­tor­zi­nho Lu­cas com a in­cum­bên­cia. Os ou­tros ti­nham mar­ca­ção pa­ra fa­zer, e o me­ni­no Ari, que, afi­nal, já era pra­ti­ca­men­te um ho­mem, po­dia dar ca­bo da fe­ra.
- E não dá bo­la pro que diz es­sa gen­te ve­lha, meu ra­paz - ter­mi­nou o fi­lho do pa­trão, pe­gan­do-lhe pe­la nu­ca. - É só um ca­chor­ro que saiu das es­tri­bei­ras... um ca­chor­ro lou­co... o mais é su­pers­ti­ção des­sa gen­te anal­fa­be­ta.
Ari­zi­nho não com­pre­en­deu es­sa par­te da gen­te anal­fa­be­ta, mas gos­tou da es­pin­gar­da que o dou­tor lhe con­fi­a­ra pa­ra a ta­re­fa...
E ago­ra es­ta­va ali, no meio do cam­po, an­dan­do na chu­va, sem lem­brar que o Jo­ca, o Ma­no­el e o Vil­son, ca­da um fa­la­va ao mes­mo tem­po que os de­mais: um di­zia co­mo fa­zer se en­con­tras­se o ca­chor­ro, ou­tro di­zia pa­ra cui­dar a ho­ra da vol­ta, ain­da de dia, ou­tro que... era tu­do jun­to e em­bo­la­do, tan­tas re­co­men­da­ções, que ele não pre­ci­sa­va ou­vir, afi­nal, era um ho­mem, e tra­ba­lha­ria com uma es­pin­gar­da, fei­to ho­mem...
Daí a coi­sa pi­o­rou: a chu­va veio for­te, tre­men­da, num ins­tan­te, e ge­la­da. Ari­zi­nho, de frio, pou­co sen­tia os pés. De­ses­pe­rou a cor­rer, co­mo des­se mo­do os re­cu­pe­ras­se. Mas qual, deu-se o pre­vi­sí­vel: tro­pe­çou e caiu, de pei­to e ca­ra no chão. La­nhou-se. Era o de­ses­pe­ro. Cho­ra­va, no chão, de bru­ços, meia bo­che­cha sub­mer­sa no pas­to ala­ga­do. E cho­ran­do ajo­e­lhou-se, e se le­van­tou. Agar­rou a re­zar pa­ra Nos­sa Se­nho­ra, e foi ca­mi­nhan­do, sem sa­ber pa­ra que di­re­ção. E a chu­va, mais for­te, re­lam­pe­ja­va, o que, ao in­vés de alu­mi­ar, con­fun­dia, fa­zia o peão tre­mer de sus­to e se pis­car e só ver som­bras quan­do abria os olhos. Mas ele se­guia, cho­ran­do e re­zan­do. Ou­tro re­lâm­pa­go, e qua­se tro­pe­çou de no­vo. O ros­to la­va­do de chu­va, a al­ma sal­ga­da de lá­gri­mas. Pen­sa­va se Nos­sa Se­nho­ra se pre­o­cu­pa­ria com um peão co­mo ele, per­di­do no cam­po. Não: is­so não po­dia pen­sar, por­que di­mi­nuía a fé. É que a al­ma es­ta­va sal­ga­da de­mais, por­que ele es­ta­va per­di­do de­mais, se não sa­bia pa­ra que la­do an­da­va, se ia aon­de que­ria ou pa­ra o cam­po mai­or, va­zio, de­ser­to, não sa­bia. Ti­nha me­do, e o me­do e o sal não dei­xa­vam a al­ma pu­ra, co­mo tem que ser a de quem tem fé. Is­so ele não pen­sa­va, con­tu­do, sen­tia. E re­za­va o peão. E cho­via a chu­va. E re­lam­pe­ja­vam os cla­rões. E era o cam­po, uma co­xi­lha após a ou­tra, e en­tre elas o que não era co­xi­lha. Não re­lin­cha­ra mais o ca­va­lo, não re­ti­ni­am es­po­ras, nem Ari gri­ta­va por so­cor­ro. Ari ape­nas cho­ra­va, re­za­va e an­da­va. An­da­va de­va­gar por­que ia can­san­do; re­za­va de­va­gar por­que ia can­san­do; cho­ra­va me­nos por­que ia se­can­do por den­tro. E ou­tro re­lâm­pa­go ofus­cou-lhe a vi­são e a re­za, e lo­go um tro­vão fez tre­me­rem o cam­po e as per­nas do me­ni­no, que caiu, de no­vo.
E quem dis­se que Nos­sa Se­nho­ra se ocu­pa­ria de um me­ni­no peão, e per­di­do por cul­pa de­le mes­mo, de mau cál­cu­lo? Com a ca­ra en­ter­ra­da no pas­to, is­so ele não pen­sa­va, mas sen­tia. Sen­tia um va­zio, uma dor es­ca­va­da, de­ses­pe­ran­ça. Ia mor­rer? Fi­ca­ria na­que­la água, e no frio, até se aca­bar? Que se­ria sua vi­da, uma per­da de tem­po, um des­per­dí­cio? Tu­do o que fi­ze­ra, se mor­res­se ali, dei­ta­do no cam­po, de frio, per­di­do, tu­do era co­mo na­da, va­lia de quê? Is­so tu­do sen­tiu, o que foi ruim. Pi­or do que mor­rer de uma vez era sen­tir que ti­nha vi­vi­do pra na­da, pa­ra se aca­bar nu­ma noi­te de chu­va, per­di­do no cam­po, atrás de um ca­chor­ro que ma­tou uma meia dú­zia de ove­lhas, e que tal­vez nun­ca mais apa­re­ces­se pa­ra ma­tar ne­nhu­ma, ou tal­vez vol­tas­se, ma­tas­se mais uma meia dú­zia e fos­se aba­ti­do por um peão ar­ma­do... Era is­so o que va­lia, o Ari­gó, uma dú­zia de ove­lhas? Era mui­to, ou era pou­co? Sen­tiu a per­gun­ta, e tam­bém, com ran­cor, a res­pos­ta: era na­da. Mas se vi­rou de bar­ri­ga pra ci­ma: a chu­va tão for­te pa­re­cia que o pre­ga­va ao chão; abriu os bra­ços, com as pal­mas das mãos pra ci­ma: a chu­va for­te ba­tia co­mo o pre­gan­do a ter­ra; e sen­tiu que es­se na­da que va­lia era tu­do o que ti­nha, era a sua vi­da, e que a chu­va, afi­nal, era só água, e a ter­ra, só cam­po, e de­ci­diu se­guir. Fez o si­nal da cruz, to­mou fô­le­go, e se­guiu an­dan­do e re­zan­do, mes­mo sem sa­ber se al­guém o ou­via, mas se­guiu, por­que es­se sa­ber im­por­ta­va me­nos do que se­guir.
En­tão eram o cam­po, as pas­ta­gens, uma co­xi­lha após a ou­tra, tu­do in­vi­sí­vel no es­cu­ro, e um peão an­dan­do.

E-mail: lbrasiliense@uol.com.br

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