Eram o campo, as pas­ta­gens, len­ta­mente era uma co­xi­lha a um tanto de ou­tra e no meio o que não era co­xi­lha. Era tar­di­nha. O sol, que não se mos­trara o dia todo, se aca­bava. Ga­ro­ava. Era frio, muito frio. A ga­roa, o céu fe­chado e a hora não per­mi­tiam que se en­xer­gasse bem, mesmo as­sim o jo­vem peão se­guia o ras­tro de san­gue das ove­lhas, ape­sar do que já se disse e do frio que lhe quei­mava os pés. O jo­vem peão era des­calço e se cha­mava Ari, ou Ari­zi­nho, ou Arigó, con­forme quem cha­masse, cada um reservando-se o di­reito de fazê-lo tal ou qual. Ia so­zi­nho, sem ca­chorro, por­que ca­chorro que mata ove­lha en­sina os ou­tros, e eles pe­gam o gosto, e se tem que sacrificá-los, o que é sem­pre uma dor. Prometia-se Ari que, che­gando ao pri­meiro ca­pão, en­ro­la­ria um ci­garro para aquecer-se. Pen­sava em ter um pon­cho e bo­tas. Pen­sava em ter meias, como se­ria bom e quente. Um pon­cho, bo­tas, meias de lã, uma tarde de sol, e mais isto: chu­par la­ranja de­pois do al­moço. As meias de lã o fi­ze­ram lem­brar as ove­lhas mor­tas: se en­con­trasse uma, e se o bi­cho não fe­desse muito, ia en­fiar os pés por baixo dela, que a lã, mesmo mo­lhada, é me­lhor que a ga­roa fria. Mas es­cu­re­cia. Es­cu­re­cia ra­pi­da­mente, e os olhos, ainda que acos­tu­ma­dos, quase só dis­tin­guiam a li­nha en­tre as co­xi­lhas e o céu. En­tão ras­tro de san­gue o peão não po­dia ver, e a lida, por­tanto, por ora es­tava aca­bada, adi­ada. Era vol­tar para casa. Mas es­cu­re­cera e, sem lua e sem es­tre­las, a noite pe­sava densa, como as rou­pas do peão Ari, pois a ga­roa era fraca mas se acu­mu­lava e não se­cava. O jo­vem peão cal­cu­lara mal o tempo da ida e da volta, en­tre­tanto, o mo­mento era tar­dio às la­men­ta­ções, res­tava pros­se­guir, pas­sar a noite para vir o dia, e tal­vez o sol. E para dor­mir pre­ci­sava es­tar pro­te­gido, pre­ci­sava che­gar ao ca­pão. Fi­cou pa­rado qui­eto para es­cu­tar um chi­ado de vento qual­quer ba­tendo nas ár­vo­res, de forma que sou­besse a di­re­ção do mato. Fi­cou até sem res­pi­rar por­que ou­via de­mais o seu pró­prio res­pi­rar. E nada. Chi­ava era a ga­roa no campo como se campo só hou­vesse, o que po­de­ria ser ver­dade e má no­tí­cia. Ia se­guir quando pen­sou ter ou­vido algo di­verso e es­ta­cou. Era um re­lin­cho lon­gín­quo e in­cons­tante. Con­cen­trou sua vi­gi­lân­cia para o lado de que vi­nha o ba­ru­lho, e não ou­viu mais nada além do re­lin­cho, nem trote nem ga­lope, quanto me­nos voz de gente. Alar­mou sua pre­sença, cha­mando por quem ou­visse. E como res­posta, nada. Gri­tou mais forte, com a má­xima força que po­dia. Nada. Res­posta ne­nhuma, nem de gente, nem de ca­valo, que o re­lin­cho pa­rara. Gri­tou de novo, dessa vez ao re­dor todo; e por rodear-se, per­deu a ori­en­ta­ção, por­que era muito es­curo e nada se via. En­tão não sa­bia pois para onde ia, não sa­bia de onde veio. Aguar­dou um tanto para guiar-se por um ba­ru­lho qual­quer, mas era o som da ga­roa no campo por todo lado e o som do seu res­pi­rar por den­tro. Não tendo es­co­lha, se­guiu na sorte. E mal dera uns pas­sos quando pas­sou tro­tando e roçou-lhe o lombo de um ca­valo no mesmo sen­tido em que ia, e ou­viu o re­ti­nir de es­po­ras. Quem vai lá, gri­tou. E so­mente o ca­valo res­pon­deu, re­lin­chando. Quem vai lá, re­pe­tiu, e nem o ca­valo mais res­pon­deu, o trote ia lon­gín­quo e inin­ter­rupto. Quem era não disse, re­fle­tiu, mas se vai para lá é por­que vai a al­guma es­tân­cia, ou pelo me­nos a al­gum ca­pão. As­sim con­cluído, viu-se um sor­tudo, es­tava no rumo certo. Apressou-se. An­dava rá­pido, mas sem cor­rer, por­que não en­xer­gava, não sa­bia onde pi­sava, se­guido desequilibrando-se pe­los des­ní­veis no chão, tro­pe­çando num cu­pim aqui, numa car­caça mais adi­ante, sem pa­rar, sem­pre rá­pido na di­re­ção dos re­lin­chos, e se­gu­rando a von­tade de cor­rer. Pen­sava que, agora, se achasse uma ove­lha morta, mesmo que não fe­dida, não aque­ce­ria os pés, que­ria che­gar logo à es­tân­cia, ao ca­pão, o que fosse que lhe es­pe­rasse à frente. Fir­mava os olhos para ver algo no meio da es­cu­ri­dão, e não via nada, mas a es­pe­rança de ver uma luz era grande e fir­mava os olhos de novo, e de novo não en­xer­gava nada, e ti­nha que de­sis­tir por en­quanto da es­pe­rança e concentrar-se na ca­mi­nhada, por­que, no seu ra­ci­o­cí­nio, se tro­pe­çasse e caísse, per­de­ria o rumo, o que se­ria im­per­doá­vel, já que os re­lin­chos não ou­via mais.
Não lem­brava o que lhe dis­se­ram o preto Joca, o Ma­noel ruivo e o Vil­son, re­co­men­da­ções…
Era a noite an­te­rior. Es­tava se ajei­tando para dor­mir num pe­lego, na sala do ran­cho do Vil­son… Vil­son e a mu­lher, a Ma­ri­cota, davam-lhe pouso desde que seu pai mor­rera, por­que o pa­trão dis­pu­sera o ran­cho onde ele e o pai vi­viam ao peão que subs­ti­tuiu o ve­lho. A mãe ele não co­nhe­ceu, pa­rece que fu­giu com o amante, nem bem o me­nino se des­ma­mara, o que não vem ao caso. Im­porta é que ele se ar­ru­mava no pe­lego, e o Ma­noel ruivo foi en­trando no ran­cho sem ba­ter na porta. Vil­son e o preto Joca car­pe­te­a­vam e se as­sus­ta­ram. O ruivo, sem boas noi­tes, foi atro­pe­lando:
 – O cão, o ca­chorro louco… ele veio aqui…
 – Te acalma, vi­vente! – disse o Vil­son. – Que his­tó­ria é essa?
 – O ca­chorro…
Es­ba­fo­rido, o ho­mem mal con­se­guia fa­lar:
 – Lem­bram das ove­lhas mor­tas perto da sanga, nas ter­ras do dr. Fe­lí­cio?
 – Ma­rica, nos faz um mate – ata­lhou o dono da casa.
A Ma­ri­cota apa­re­ceu na porta da co­zi­nha, en­xu­gando uma tampa de pa­nela, com os olhos in­je­ta­dos no ruivo:
 – Deixa o ho­mem fa­lar, pai.
Ma­ri­cota ainda cha­mava o Vil­son de pai, em­bora a fi­lhi­nha eles já não ti­ves­sem há três anos.
E o ruivo pe­gou fô­lego:
 – Lem­bram? O pa­trão foi cha­mado lá, ele mais o dou­tor­zi­nho Lu­cas, e acha­ram que um ca­chorro ti­nha ma­tado os bi­chos, pe­las mor­di­das.
Lu­cas era o fi­lho do es­tan­ci­eiro, for­mado ve­te­ri­ná­rio na ca­pi­tal, por isso o vi­zi­nho so­li­ci­tou sua opi­nião. Eram qua­tro ani­mais mor­tos, em qua­tro noi­tes, com as gar­gan­tas di­la­ce­ra­das e os olhos chu­pa­dos, ape­nas isso.
O preto Joca se ben­zeu:
 – Nem me fala… aquele ne­gó­cio dos olhos não me deixa mais dor­mir di­reito.
E o me­nino Ari, sen­tado no pe­lego, qui­eto, es­cu­tava.
O Vil­son quis ame­ni­zar:
 – Vai as­sus­tar o guri, Joca! Se eles dis­se­ram que era um ca­chorro, era um ca­chorro, e eles é que en­ten­dem.
E se vi­rando para a mu­lher:
 – Ma­ri­cota, nos ar­ruma aquele mate, faz fa­vor.
Aí, se quis ame­ni­zar, traiu-se, e o me­nino re­pa­rou, por­que o Vil­son só cha­mava a es­posa pelo nome cor­re­ta­mente quando es­tava brabo, e só pe­dia fa­vor a ela na mesma con­di­ção. E o Vil­son, que era um santo, só fi­cava brabo quando es­tava ner­voso.
Mas a Ma­ri­cota não saiu da porta da co­zi­nha, e não lar­gou a tampa de pa­nela, que já es­tava bem seca. Ao in­vés disso, per­gun­tou ao ruivo:
 – E agora, foi aqui, onde?
 – Perto do ba­nheiro.
Daí o preto, au­to­má­tico:
 – Não pode, se ove­lha não passa pr’aquelas ban­das de noite…
 – Justo! – con­fir­mou o ruivo.
E o Vil­son con­cluiu, des­ne­ces­sá­rio:
 – En­tão foi ar­ras­tada.
A Ma­ri­cota dei­xou cair a tampa da pa­nela.
 – Deus nos li­vre e guarde – con­ti­nuou se ben­zendo o preto Joca.
 – Não faz as­sim que tu im­pres­si­ona o guri, Joca! – o Vil­son gri­tou, ba­tendo na mesa, o que mos­trou o quanto im­pres­si­o­nado es­tava ele mesmo, que nunca gri­ta­ria com uma vi­sita em sua casa, e muito me­nos com o preto Joca, que era mais ve­lho. E o Vil­son sem­pre res­pei­tou os mais ve­lhos, fos­sem até pre­tos.
O Joca, fe­rido nas suas hon­ras, levantou-se e foi saindo. O Vil­son não se des­cul­pou, por­que lhe fal­ta­vam as pa­la­vras e tam­bém o tra­quejo. Ape­nas disse:
 – Que é isso, Joca, que é isso!
Po­rém, não deu efeito.
Ma­ri­cota, como fora de si, re­pe­tia, cheia de medo no olhar:
 – É o bi­cho, é ele, eu sei, é o bi­cho… o bi­cho…
O Vil­son foi abraçá-la. Já ti­nha visto a mu­lher desse jeito, quando per­de­ram a me­ni­ni­nha. Ela fa­lou bo­ba­gens por dias. Ele quase a le­vou ao mé­dico, na ci­dade, mas ela me­lho­rou: de­pois da fa­la­ção, foi um si­lên­cio, que du­rou mais uns tem­pos, e só de­pois ela vol­tou ao nor­mal, mais ou me­nos.
Ma­noel ruivo per­ce­beu que de­via ir em­bora, e foi.
O me­nino Ari­zi­nho se dei­tou no pe­lego e dor­miu, mas mal, muito mal: so­nhou com coi­sas ruins a noite in­teira, e de ma­nhã não lem­brava com o quê, no en­tanto sa­bia que eram pe­sa­de­los. E deu gra­ças a Deus por es­tar acor­dado.
Pois foi logo de ma­nhã que che­gou o dou­tor­zi­nho Lu­cas com a in­cum­bên­cia. Os ou­tros ti­nham mar­ca­ção para fa­zer, e o me­nino Ari, que, afi­nal, já era pra­ti­ca­mente um ho­mem, po­dia dar cabo da fera.
 – E não dá bola pro que diz essa gente ve­lha, meu ra­paz – ter­mi­nou o fi­lho do pa­trão, pegando-lhe pela nuca. – É só um ca­chorro que saiu das es­tri­bei­ras… um ca­chorro louco… o mais é su­pers­ti­ção dessa gente anal­fa­beta.
Ari­zi­nho não com­pre­en­deu essa parte da gente anal­fa­beta, mas gos­tou da es­pin­garda que o dou­tor lhe con­fi­ara para a ta­refa…
E agora es­tava ali, no meio do campo, an­dando na chuva, sem lem­brar que o Joca, o Ma­noel e o Vil­son, cada um fa­lava ao mesmo tempo que os de­mais: um di­zia como fa­zer se en­con­trasse o ca­chorro, ou­tro di­zia para cui­dar a hora da volta, ainda de dia, ou­tro que… era tudo junto e em­bo­lado, tan­tas re­co­men­da­ções, que ele não pre­ci­sava ou­vir, afi­nal, era um ho­mem, e tra­ba­lha­ria com uma es­pin­garda, feito ho­mem…
Daí a coisa pi­o­rou: a chuva veio forte, tre­menda, num ins­tante, e ge­lada. Ari­zi­nho, de frio, pouco sen­tia os pés. De­ses­pe­rou a cor­rer, como desse modo os re­cu­pe­rasse. Mas qual, deu-se o pre­vi­sí­vel: tro­pe­çou e caiu, de peito e cara no chão. Lanhou-se. Era o de­ses­pero. Cho­rava, no chão, de bru­ços, meia bo­che­cha sub­mersa no pasto ala­gado. E cho­rando ajoelhou-se, e se le­van­tou. Agar­rou a re­zar para Nossa Se­nhora, e foi ca­mi­nhando, sem sa­ber para que di­re­ção. E a chuva, mais forte, re­lam­pe­java, o que, ao in­vés de alu­miar, con­fun­dia, fa­zia o peão tre­mer de susto e se pis­car e só ver som­bras quando abria os olhos. Mas ele se­guia, cho­rando e re­zando. Ou­tro re­lâm­pago, e quase tro­pe­çou de novo. O rosto la­vado de chuva, a alma sal­gada de lá­gri­mas. Pen­sava se Nossa Se­nhora se pre­o­cu­pa­ria com um peão como ele, per­dido no campo. Não: isso não po­dia pen­sar, por­que di­mi­nuía a fé. É que a alma es­tava sal­gada de­mais, por­que ele es­tava per­dido de­mais, se não sa­bia para que lado an­dava, se ia aonde que­ria ou para o campo maior, va­zio, de­serto, não sa­bia. Ti­nha medo, e o medo e o sal não dei­xa­vam a alma pura, como tem que ser a de quem tem fé. Isso ele não pen­sava, con­tudo, sen­tia. E re­zava o peão. E cho­via a chuva. E re­lam­pe­ja­vam os cla­rões. E era o campo, uma co­xi­lha após a ou­tra, e en­tre elas o que não era co­xi­lha. Não re­lin­chara mais o ca­valo, não re­ti­niam es­po­ras, nem Ari gri­tava por so­corro. Ari ape­nas cho­rava, re­zava e an­dava. An­dava de­va­gar por­que ia can­sando; re­zava de­va­gar por­que ia can­sando; cho­rava me­nos por­que ia se­cando por den­tro. E ou­tro re­lâm­pago ofuscou-lhe a vi­são e a reza, e logo um tro­vão fez tre­me­rem o campo e as per­nas do me­nino, que caiu, de novo.
E quem disse que Nossa Se­nhora se ocu­pa­ria de um me­nino peão, e per­dido por culpa dele mesmo, de mau cál­culo? Com a cara en­ter­rada no pasto, isso ele não pen­sava, mas sen­tia. Sen­tia um va­zio, uma dor es­ca­vada, de­ses­pe­rança. Ia mor­rer? Fi­ca­ria na­quela água, e no frio, até se aca­bar? Que se­ria sua vida, uma perda de tempo, um des­per­dí­cio? Tudo o que fi­zera, se mor­resse ali, dei­tado no campo, de frio, per­dido, tudo era como nada, va­lia de quê? Isso tudo sen­tiu, o que foi ruim. Pior do que mor­rer de uma vez era sen­tir que ti­nha vi­vido pra nada, para se aca­bar numa noite de chuva, per­dido no campo, atrás de um ca­chorro que ma­tou uma meia dú­zia de ove­lhas, e que tal­vez nunca mais apa­re­cesse para ma­tar ne­nhuma, ou tal­vez vol­tasse, ma­tasse mais uma meia dú­zia e fosse aba­tido por um peão ar­mado… Era isso o que va­lia, o Arigó, uma dú­zia de ove­lhas? Era muito, ou era pouco? Sen­tiu a per­gunta, e tam­bém, com ran­cor, a res­posta: era nada. Mas se vi­rou de bar­riga pra cima: a chuva tão forte pa­re­cia que o pre­gava ao chão; abriu os bra­ços, com as pal­mas das mãos pra cima: a chuva forte ba­tia como o pre­gando a terra; e sen­tiu que esse nada que va­lia era tudo o que ti­nha, era a sua vida, e que a chuva, afi­nal, era só água, e a terra, só campo, e de­ci­diu se­guir. Fez o si­nal da cruz, to­mou fô­lego, e se­guiu an­dando e re­zando, mesmo sem sa­ber se al­guém o ou­via, mas se­guiu, por­que esse sa­ber im­por­tava me­nos do que se­guir.
En­tão eram o campo, as pas­ta­gens, uma co­xi­lha após a ou­tra, tudo in­vi­sí­vel no es­curo, e um peão an­dando.

E-mail: lbrasiliense@uol.com.br

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