Archive for 2007

De repente – Texto de Dudu Oliva

domingo, novembro 18th, 2007

DE REPENTE

Através da janela protegida por uma grade e com vidros revestidos de insufilme vejo os pombos voando para lá e para cá; o vento balança os fios dos postes e as folhas das árvores. Um passarinho se equilibra num destes fios ao lado da carcaça de uma pipa. As construções cada vez mais altas não permitem observar o morro, onde antigamente a primeira coisa que eu mirava era o verde intenso. (mais…)

Cruz de ferro – Texto de Otávio Nunes

sábado, novembro 17th, 2007

Nuremberg (Alemanha), 16 de outubro de 1946

O general Hans Fritz Strudelfen acordou cedo naquele dia frio. Sabia que tinha poucas horas de vida até ser chamado ao cadafalso e receber do carrasco o nó da corda no pescoço. A cena imaginada lhe causou repulsa e de modo instintivo levou a mão à nuca e sentiu uma vertigem estranha e uma sensação de completo abandono, aceitando totalmente a fatalidade. (mais…)

Competente – Texto de Otávio Nunes

sexta-feira, novembro 16th, 2007

Não gosto do adjetivo competente. De alguns meses para cá, na verdade,
mais de ano, passei a evitar tal palavra, bem como suas derivadas, preferindo qualificado, capacitado, preparado, apto, experiente, conhecedor… “Ora, não é a mesma coisa”, dirão alguns puristas, que só entendem a palavra no seu sentido individual, de dicionário. Amigos, o sentido da palavra quem dá é o contexto, senhor de tudo. (mais…)

Simples mulheres – Texto de Leonardo Brasiliense

quarta-feira, novembro 14th, 2007

Quando meus filhos foram embora de casa, senti que se foi junto minha maternidade. Voltei a ser apenas esposa, mas o meu marido já me via apenas como “a mãe”. Voltei então a ser filha. Dois meses depois minha mãe morreu de câncer.

E-mail: lbrasiliense@uol.com.br

Belmonte e Amaraí – Texto de João Pedro Feza

terça-feira, novembro 13th, 2007


Diz-se que quando um completa o outro igual feijão com arroz é porque a panela achou a tampa. A combinação perfeita no amor também se aplica a outros tipos de relacionamento. Quando amizade (mesmo que tumultuada) e talento se juntam, está feito o estrago no melhor dos sentidos: a audição. (mais…)

Cenas – Texto de Dudu Oliva

segunda-feira, novembro 5th, 2007

Na janela, uma senhora deixa-se molhar pela chuva.
Com duas bolsas cheias uma jovem corre para a marquise.
Homem briga com outro por causa do carro batido.
Os pombos encolhidos no telhado em um prédio antigo. (mais…)

Sofredor – Texto de João Pedro Feza

quarta-feira, outubro 31st, 2007

Angústia em estado televisivo: rotina de corintianos. Como eu. Mas vamos botar o preto no branco: agora, com a fatura decidida a favor do Tricolor, o (ex) Timão é a graça de tudo.

Diz que o cara, corintiano, chegou em casa e cobriu a mulher de pancada. Só porque ela usava um tomara-que-caia.

Muitas piadas ainda virão. Mas o fato, agora, é que o Corinthians monopoliza as atenções de todas as torcidas. (mais…)

Rachaduras – Texto de Reinaldo Chaves

segunda-feira, outubro 29th, 2007

Parte 1

Na viagem de volta Heitor percebeu que havia esquecido suas chaves. Ele estava na estrada já, dentro de um ônibus, não havia como voltar para pegá-las. Apesar de ficar irritado com o esquecimento a melhor opção que ele percebeu foi relaxar, já estava suficientemente cansado com a estrada péssima e seu assento apertado. Por morar sozinho algum chaveiro cuidaria de abrir sua casa ou ele dormiria na casa de algum conhecido por aquela noite. (mais…)

Vozes do Deserto, de Nélida Piñon – Texto de Dudu Oliva

domingo, outubro 21st, 2007

“Os contos das Mil e uma noites povoaram a imaginação de sem-número de leitores que, pendentes dos narradores, ansiavam para saber o que riria acontecer com Simbad e Zonaide e, com o mesmo fôlego curto, temiam pela sorte de Scherezade entregue ao capricho do mais cruel dos ouvintes.” ( escritor Alfredo Bosi)

Antes de falar sobre o romance que acabei de ler – Vozes do Deserto (Record, 2005), contarei brevemente uma lenda oriental – UMA FÁBULA SOBRE A FÁBULA. (mais…)

Dores nas costas

domingo, outubro 21st, 2007

I

Outro dia, apareceu-me lá no consultório, pelo meio da tarde, um tal Silvério. Minha clientela geralmente é fixa, não por outra coisa, senão pelo detalhe de a minha agenda viver lotada. Para dizer a verdade, tenho consultas marcadas para os próximos seis meses. Por isso mesmo, quando surge algum novo paciente, é natural alimentar uma certa curiosidade. Contudo, quando ele entrou, ambos não pudemos evitar boas risadas. O fato é que já nos conhecíamos, embora não tivéssemos ligado nossos nomes às respectivas pessoas. Eu o tinha por Silva e ele me tratava por Doutor Juca. São esses os apelidos pelos quais costumam se dirigir a nós, inclusive no edifício onde moramos, coincidentemente no sétimo. Não era para rir? – “Então o nome do senhor é João Carlos? Puxa, poderia ser Joca, não é? “ Bem, claro que, em meio a outras risadas, expliquei a ele que aquilo era coisa de família, apelido dado pelo avô, enfim, esses pormenores de pouco interesse a este caso. Depois de a poeira baixar, a surpresa ficando para trás, passamos a conversar o que realmente cabia a um médico e um paciente. (mais…)