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Rachaduras – Texto de Reinaldo Chaves

segunda-feira, 29 de outubro de 2007 Texto de

Parte 1

Na vi­a­gem de volta Hei­tor per­ce­beu que ha­via es­que­cido suas cha­ves. Ele es­tava na es­trada já, den­tro de um ôni­bus, não ha­via como vol­tar para pegá-las. Ape­sar de fi­car ir­ri­tado com o es­que­ci­mento a me­lhor op­ção que ele per­ce­beu foi re­la­xar, já es­tava su­fi­ci­en­te­mente can­sado com a es­trada pés­sima e seu as­sento aper­tado. Por mo­rar so­zi­nho al­gum cha­veiro cui­da­ria de abrir sua casa ou ele dor­mi­ria na casa de al­gum co­nhe­cido por aquela noite.

Já se iam qua­tro me­ses fora do país, mas o ânimo de vol­tar para casa não era muito grande. As mes­mas pes­soas, ca­sas, pré­dios e no­tí­cias, ele apos­tava que ainda es­ta­riam lá e que da­qui a 20 anos tam­bém. Ele sen­tia frus­tra­ção por per­ma­ne­cer no lu­gar onde nas­ceu e cres­ceu, opi­nião com­par­ti­lhada por to­dos que co­nhe­cia. Barro Roxo era tida como ci­dade pro­vin­ci­ana, só suas an­ti­gas fa­mí­lias ri­cas con­se­guiam pros­pe­rar lá. Ele via que seu fu­turo era se­guir o pai, co­mer­ci­ante há mais de 30 anos, e agüen­tar fre­gue­ses bê­ba­dos no ve­lho bar da fa­mí­lia.

Foi jus­ta­mente quando pen­sava so­bre a inér­cia da ci­dade para onde re­tor­nava que Hei­tor sen­tiu seu banco tre­mer. Es­tava anoi­te­cendo, to­dos os pas­sa­gei­ros acor­da­dos no­ta­ram tam­bém. O co­men­tá­rio foi que um ôni­bus ve­lho como aquele cos­tu­mava tre­mer mesmo e que era bom re­zar
para ele não que­brar no meio do ca­mi­nho. Quando co­me­ça­ram a rir do susto pas­sado foi pos­sí­vel per­ce­ber que todo o chão lá fora co­me­çara a tre­mer muito, o que fez o carro der­ra­par e sair da pista.

Nesse tre­cho só exis­tia um ma­ta­gal e nele al­guns bu­ra­cos, por isso o ôni­bus não ba­teu nem tom­bou. Os pe­que­nos cho­ques e so­la­van­cos tam­bém não ma­chu­ca­ram nin­guém se­ri­a­mente, só se viam cor­tes su­per­fi­ci­ais e al­gum san­gue. Mas foi o su­fi­ci­ente para mui­tos pas­sa­gei­ros co­me­ça­rem a cho­rar e gri­tar. O mo­to­rista se bor­rou, fi­cou tre­mendo e di­zia que nunca ti­nha pas­sado por nada pa­re­cido.

Hei­tor com ou­tras pes­soas foi para fora fu­mar até en­ten­der o que ha­via acon­te­cido. Cau­sou es­panto a to­dos tam­bém os ce­lu­la­res não fun­ci­o­na­rem mesmo não sendo um lu­gar tão afas­tado as­sim. Pró­ximo dali um Pas­sat ama­relo e en­fer­ru­jado tam­bém ha­via der­ra­pado e pela fu­maça pa­re­cia não ter tido a mesma sorte. Dois ho­mens cor­re­ram para aju­dar, mas já era tarde, quem es­ti­vesse lá mor­reu car­bo­ni­zado.

Em mo­men­tos de crise e cho­que como esse só há duas op­ções: ti­rar a dor da mente e ten­tar re­sol­ver as pri­o­ri­da­des ou dei­xar se to­mar pelo de­ses­pero e es­pe­rar as coi­sas pi­o­ra­rem. Hei­tor era do se­gundo tipo, ape­sar de não cho­rar ele não con­se­guia pen­sar em nada mais. Só fu­mava. A mai­o­ria das pes­soas do ôni­bus es­tava nessa si­tu­a­ção, ape­nas um grupo pro­cu­rava re­sol­ver as ur­gên­cias.

Duas frei­ras da­vam as­sis­tên­cia aos fe­ri­dos, os ho­mens que ten­ta­ram aju­dar o carro quei­mado agora pro­cu­ra­vam sa­ber se o ôni­bus ainda fun­ci­o­nava e uma moça da com­pa­nhia te­lefô­nica que ti­nha na ba­ga­gem um te­le­fone via sa­té­lite co­me­çava a fa­zer li­ga­ções.

Ne­nhum nú­mero de Barro Roxo aten­dia e só foi pos­sí­vel en­trar em con­tato com uma ci­dade dis­tante 200 quilô­me­tros dali. As no­tí­cias que che­ga­ram eram pés­si­mas: um ter­re­moto cau­sara to­dos aque­les pro­ble­mas e ha­via atin­gido vá­rias ci­da­des da re­gião. Não era pos­sí­vel sa­ber mais nada na­quele mo­mento.

To­dos que re­tor­na­vam para a casa, que iam ver suas es­po­sas e ma­ri­dos,
fi­lhos, pais e ami­gos ou mesmo só es­ta­vam indo tra­ba­lhar, pen­sa­ram no pior. As pes­soas que ainda ti­nham um pouco de calma co­me­ça­ram a per­ce­ber que es­ta­vam vi­vas ape­nas por­que a der­ra­pa­gem foi num tre­cho
plano e sem pré­dios na hora do tre­mor. Numa ci­dade os es­tra­gos só po­de­riam ter sido gra­ves.

Em meio ao choro, agora quase ge­ral, o ôni­bus foi con­ser­tado. O mo­to­rista ainda per­ma­ne­cia aba­lado e não ti­nha con­di­ções de di­ri­gir, al­guém te­ria que to­mar seu lu­gar. Par­tiu, no en­tanto, da moça do te­le­fone a opi­nião de es­pe­rar por ajuda lá mesmo. Ela de­fen­dia que no­vos tre­mo­res po­de­riam acon­te­cer no resto da vi­a­gem e que a ci­dade tal­vez es­ti­vesse em cha­mas, ou seja, eles só iriam atra­pa­lhar ou mor­rer na tra­gé­dia que ainda não de­via ter ter­mi­nado.

A mai­o­ria da­que­las pes­soas de­ses­pe­ra­das pre­fe­ri­ram não ou­vir a ra­zão. Hei­tor e ou­tros apá­ti­cos até en­tão acor­da­ram para res­pon­der ris­pi­da­mente à moça. Ela que fi­casse so­zi­nha na es­trada caso não qui­sesse aju­dar, di­ziam aos gri­tos. Hei­tor an­si­ava agora ver a ci­dade que odi­ava fa­zia pou­cos mi­nu­tos. Não era bem essa mu­dança que ele que­ria para sua vida, mas sem dú­vida nada se­ria como an­tes. To­dos os pas­sa­gei­ros em­bar­ca­ram e con­ti­nu­a­ram vi­a­gem.

Parte 2

Não era pos­sí­vel o ôni­bus en­trar na ci­dade. Ha­via mais e mais ra­cha­du­ras no as­falto à me­dida que ele ia se apro­xi­mando. A so­lu­ção foi pa­rar e fa­zer o resto do ca­mi­nho a pé. Ao longe, já no es­curo, a ci­dade es­tava nas tre­vas, ape­nas ilu­mi­nada por fo­cos de in­cên­dio. As co­lu­nas de fu­maça, per­cep­tí­veis pela luz das cha­mas, ti­nham de­ze­nas de me­tros até se jun­tar à es­cu­ri­dão do céu no­turno e de­sa­pa­re­ce­rem.

O ím­peto de mui­tos mor­reu com essa cena de tra­gé­dia. Era de­ses­pe­ra­dor
pen­sar que ha­via pes­soas mor­rendo logo ali perto, mas no ôni­bus ha­via mui­tos ve­lhos e al­gu­mas cri­an­ças. No fi­nal das con­tas, ape­nas Hei­tor e mais cinco re­sol­ve­ram man­ter a co­ra­gem e ca­mi­nhar até o de­sas­tre.

En­tre os seis es­tava Ivana, a moça da com­pa­nhia te­lefô­nica. Sua mu­dança de ati­tude, ela que era to­tal­mente con­tra ir até a ci­dade, acon­te­ceu sob pres­são. O grupo con­si­de­rou muito útil seu te­le­fone para pe­dir ajuda nos es­com­bros caso algo desse er­rado. Po­rém, ela não que­ria em­pres­tar de jeito ne­nhum, com medo de que­bra­rem e ela ter que pa­gar pelo apa­re­lho.

O que pa­re­cia ser mes­qui­nha­ria e ava­reza para to­dos para ela era só pre­cau­ção. Ivana era a fi­lha mais ve­lha de três ir­mãos e foi edu­cada pela mãe para ser o ho­mem da casa, já que seu pai ha­via de­sa­pa­re­cido. Res­pon­sa­bi­li­dade em ex­cesso e ati­tu­des me­tó­di­cas fa­ziam parte de sua
per­so­na­li­dade desde a in­fân­cia. Se­guir pa­drões era sua ro­tina, mesmo tendo só 23 anos. Por isso ela re­sol­veu ir junto com o grupo e não se se­pa­rar de seu ins­tru­mento de tra­ba­lho.

Com ape­nas a única lan­terna que ha­via no ôni­bus a ca­mi­nhada até a ci­dade le­vou uma hora. Era pre­ciso es­tar sem­pre atento ao chão. Bu­ra­cos e fen­das dei­xa­vam o ter­reno mi­mado. O pri­meiro ha­bi­tante da ci­dade avis­tado foi um ca­chorro. Seu fo­ci­nho san­grava e a pata di­an­teira es­querda es­tava par­tida. O bi­cho ge­mia. O com­por­ta­mento de um vira-lata, ainda mais numa ci­da­de­zi­nha, ge­ral­mente é se apro­xi­mar dos es­tra­nhos e aba­nar o rabo. Esse, no en­tanto, con­ti­nuou a an­dar sem
rumo no es­curo.

Logo na en­trada da ci­dade fi­ca­vam as ca­sas mais ve­lhas. Eram só es­com­bros agora. Amon­to­a­dos de pa­re­des, ti­jo­los, te­lha­dos, ma­deira, pos­tes elé­tri­cos fais­cando, ca­nos es­tou­ra­dos e fogo. Mo­ra­do­res nas cal­ça­das gri­ta­vam no­mes, cho­ra­vam, cor­riam com água em ba­cias, car­re­ga­vam cri­an­ças e am­pa­ra­vam os ve­lhos. Ha­via o cho­que tam­bém, gente sen­tada no chão, sem cho­rar, mu­das e tre­mendo mesmo com o ca­lor.

Não fal­ta­vam op­ções para aju­dar e o grupo de Hei­tor se di­vi­diu sem per­ce­ber. Ele foi acu­dir uma mu­lher que car­re­gava duas cri­an­ças no colo. Pe­gou as duas e acom­pa­nhou ou­tras pes­soas que iam até a praça cen­tral. Por ser larga e aberta era um dos lu­ga­res me­nos atin­gi­dos, ape­nas o an­tigo co­reto ha­via des­mo­ro­nado e só uma casa pe­gava fogo perto dali. Ha­via mui­tas cri­an­ças. Mui­tas cha­ma­vam pe­las mães e pais e ti­nham que ser con­so­la­das até eles apa­re­ce­rem ou não.

Na praça ha­via al­guns co­nhe­ci­dos de sua fa­mí­lia e ele per­gun­tou por seus pais. Nin­guém sa­bia. O bar de seu pai ha­via des­mo­ro­nado com vá­rios fre­gue­ses den­tro. A casa de­les fi­cava logo atrás do es­ta­be­le­ci­mento e tam­bém não ha­via re­sis­tido aos tre­mo­res. Era triste, mas eram mui­tos lo­cais com es­com­bros para pro­cu­rar so­bre­vi­ven­tes, a po­lí­cia, os bom­bei­ros e os vo­lun­tá­rios pri­o­ri­za­ram lo­cais onde es­ta­vam cri­an­ças. Não ha­via mais gente para dar conta do resto. O que res­tou do bar ja­zia no es­curo.

Sem pen­sar nos ris­cos Hei­tor cor­reu para lá.

Parte 3

O quar­tei­rão do bar es­tava na es­cu­ri­dão, não ha­via in­cên­dios por perto para ilu­mi­nar. Sua porta de ferro pa­re­cia uma fo­lha de pa­pel amas­sada na cal­çada sob um monte de ti­jo­los. Na certa o pai de Hei­tor já es­tava fe­chando. Ve­lho, ele fa­zia isso logo no iní­cio da noite. Só os an­ti­gos pin­gu­ços per­ma­ne­ciam ainda mais um tempo den­tro to­mando seus go­les fi­nais.

Ao che­gar perto dos es­com­bros Hei­tor gri­tou por seus pais e de­pois que não teve res­posta cha­mou por al­guém que pu­desse es­tar vivo ali. Ele es­tava com medo de en­trar na­quele amon­to­ado de des­tro­ços do tre­mor, sa­bia que po­dia pi­sar em al­guém ou cau­sar mais des­mo­ro­na­men­tos.

Acen­deu um ci­garro e co­me­çou a cho­rar. Nunca ima­gi­nou que era pos­sí­vel fa­zer isso ao mesmo tempo. Usava o ví­cio da ni­co­tina e a as­so­ci­a­ção do ci­garro para es­que­cer os pro­ble­mas, mas ali não era su­fi­ci­ente. Nem um pa­cote in­teiro bas­ta­ria para atin­gir um es­tado de tor­por na­quela hora.

Quando ten­tava en­xu­gar seus lá­bios mo­lha­dos de lá­gri­mas para con­ti­nuar fu­mando uma mão to­cou seu om­bro. Era sua mãe, que já não en­xer­gando di­reito pela idade e ainda na­quela es­cu­ri­dão não o ha­via re­co­nhe­cido. Ela ti­nha es­cu­tado al­guém gri­tar de longe e foi pro­cu­rar sa­ber quem era. Com as vo­zes pró­xi­mas am­bos vol­ta­ram a en­xer­gar no es­curo e a mãe abra­çou o fi­lho para sen­tir o mesmo con­forto que ti­nha quando abra­çava seu pai ao se ma­chu­car quando era me­nina. Ela es­tava es­go­tada, per­dida na­quela tra­gé­dia, re­zando para que al­guém vi­esse lhe aju­dar.

A terra tre­meu qua­tro ve­zes na ci­dade, se­gundo a mãe con­tava, com in­ter­va­los pe­que­nos en­tre os tre­mo­res. Ela vol­tava do mer­cado e tra­zia co­mida para o fi­lho al­mo­çar no dia se­guinte em sua casa. Bis­teca de porco e to­mate para o mo­lho do ma­car­rão, tudo fi­cou pelo chão no se­gundo tre­mor, o mais forte que ar­ra­sou a ci­dade e a der­ru­bou junto com a sa­cola de com­pras.

Sua pri­meira re­a­ção foi re­co­lher os ali­men­tos no chão, como um re­flexo. Di­fe­rente do pri­meiro abalo, que a dei­xou só com uma leve ton­tura, esse, além da queda, ti­nha re­ti­rado dela a no­ção do que acon­te­cia. O grande cho­que, mesmo de pou­cos se­gun­dos, foi su­fi­ci­ente para desorientá-la por com­pleto. Ape­nas len­ta­mente ela foi ou­vindo gri­tos, seus olhos fo­ram vendo a des­trui­ção ao re­dor e o na­riz sen­tido cheiro de fu­maça. Vol­tou a sol­tar tudo no chão, pen­sou no ma­rido e teve medo.

O pri­meiro te­mor foi pela vida dele, que o bar pu­desse ter des­mo­ro­nado com ele den­tro as­sim como as vá­rias ca­sas ao re­dor dela. O se­gundo pa­vor foi cau­sado pelo ter­ceiro tre­mor. Mesmo leve foi su­fi­ci­ente para deixá-la imó­vel e sem re­a­ção. Seus sen­ti­dos es­ta­vam so­bre­car­re­ga­dos, o mundo mu­dara de um ins­tante para ou­tro, ela sim­ples­mente não con­se­guia ra­ci­o­ci­nar di­reito.

Su­ando muito e com ton­tu­ras fe­chou os olhos e gri­tou com toda a força que ti­nha. Quando per­deu o fô­lego abriu os olhos e todo medo ainda es­tava lá, mas sa­bia que pre­ci­sava en­con­trar o ma­rido e teve a co­ra­gem
de dar o pri­meiro passo. No ca­mi­nho ainda sen­tiu mais um tre­mor de terra, mas dessa vez con­se­guiu agüen­tar o tranco e con­ti­nuou.

Ela con­tou a Hei­tor que en­con­trou seu pai saindo dos es­com­bros. Ele es­tava sujo de po­eira e usando o aven­tal azul sur­rado de sem­pre. A ve­lha fi­cou muito fe­liz em ver o ve­lho an­dando, mas logo no­tou que sua roupa ti­nha mu­dado de cor na bar­riga, para vi­o­leta. Era san­gue.

An­dando com di­fi­cul­dade ele foi am­pa­rado pela mu­lher e os dois fo­ram
pro­cu­rar um lu­gar se­guro para sen­tar e de­ci­dir o que fa­zer. Foi es­cu­re­cendo e o ca­sal foi vendo ou­tros so­bre­vi­ven­tes da vi­zi­nhança
apa­re­cendo. To­dos es­ta­vam aba­la­dos e não sa­biam bem como agir, mui­tos
tam­bém com fe­ri­men­tos. Eles acha­ram me­lhor ten­tar ca­mi­nhar até o cen­tro da ci­dade, onde fi­cava o hos­pi­tal, para ver se con­se­guiam ajuda. Só que nem to­dos po­diam an­dar, como o pai de Hei­tor. Uma parte das pes­soas en­tão fi­cou para trás, es­pe­rando sal­va­ção.

Mãe e fi­lho fo­ram ver o pai fe­rido. Ele e ou­tros so­bre­vi­ven­tes es­ta­vam
sen­ta­dos em­baixo de uma ár­vore alta e an­tiga que re­sis­tiu ao ter­re­moto. Cons­ci­ente, o ve­lho usava um pano na bar­riga para ten­tar es­tan­car o san­gue. Com di­fi­cul­dade di­zia que não doía muito e que não era nada sé­rio. Era o ma­chão de sem­pre, mas que aca­bou se der­re­tendo de­pois. Con­tou que após o bar ter de­sa­bado e per­ce­bido que era um ter­re­moto, re­zou, im­plo­rou mesmo, para que o fi­lho não ti­vesse che­gado ainda na ci­dade e que nada de ruim lhe acon­te­cesse onde quer que es­ti­vesse.

Isso era sur­pre­ende para Hei­tor, nunca vira seu pai fa­lando em Deus ou
re­zar na vida. Pelo con­trá­rio, ele até zom­bava da es­posa ca­rola que ti­nha. Essa fé re­pen­tina para sal­var o fi­lho dei­xou Hei­tor emo­ci­o­nado e os dois se abra­ça­ram, ou­tro fato raro tam­bém na vida do ve­lho.

A re­con­ci­li­a­ção for­çada pela dor, tanto com a ci­dade como com a sua
fa­mí­lia, fi­zera Hei­tor es­que­cer por com­pleto qual­quer lem­brança de suas frus­tra­ções. Ele ha­via fa­lhado em bus­car uma vida me­lhor em ou­tro país, odi­ava ter que vol­tar para sua casa. Mas isso agora não ti­nha mais im­por­tân­cia. Era es­tra­nho, mas sentia-se bem em es­tar ali na­quele mo­mento trá­gico, como se di­vi­disse a dor dos ou­tros.

Ape­nas o que era de­ses­pe­ra­dor na­quele abraço foi per­ce­ber que seu pai
es­tava muito fe­rido. O san­gue en­so­pou a roupa de Hei­tor. Ao que pa­re­cia o corte não foi sé­rio a ponto de ma­tar rá­pido, mas se con­ti­nu­asse san­grando iria mor­rer mais cedo ou mais tarde. Ele ti­nha medo de car­re­gar o pai até o hos­pi­tal, ou o que so­brou dele, para pro­cu­rar um mé­dico e o ve­lho não re­sis­tir. Como nin­guém ti­nha re­tor­nado com ajuda de­ci­diu sair cor­rendo pro­cu­rar.

O pré­dio do hos­pi­tal não ti­nha re­sis­tido aos aba­los, só al­gu­mas sa­las
es­ca­pa­ram. E o pior, não ha­via mé­di­cos su­fi­ci­en­tes para aten­der nem a
me­tade dos fe­ri­dos gra­ves. Hei­tor su­pli­cou pela ajuda de al­gum de­les, mas não era pos­sí­vel, to­dos es­ta­vam ten­tando sal­var al­guma vida. Só uma en­fer­meira se dispôs a ten­tar dar al­guma as­sis­tên­cia a seu pai. 

Um cu­ra­tivo foi feito na bar­riga per­fu­rada, mas ela disse que isso era só pa­li­a­tivo. Não ha­via mais anal­gé­si­cos no hos­pi­tal, en­tão para es­que­cer a dor ele to­mou uma das gar­ra­fas de pinga que so­bra­ram no bar. Do mais ele pre­ci­sava ser ava­li­ado por um mé­dico, to­mar ur­gente al­gum an­ti­in­fla­ma­tó­rio e ao que pa­re­cia até ser ope­rado.

Ou seja, a ajuda de fora pre­cisa vir, al­guém do go­verno ou quem quer que fosse pre­ci­sava vir ur­gente para Barro Roxo tra­zer re­mé­dios e mé­di­cos. A en­fer­meira disse que não sa­bia como pe­dir ajuda, ne­nhum te­le­fone ainda fun­ci­o­nava. Hei­tor fa­lou de Ivana e seu te­le­fone por sa­té­lite, mas nin­guém ti­nha visto ela no hos­pi­tal ou na ci­dade se­gundo di­ziam. A maior es­pe­rança para sal­var seu pai agora era encontrá-la.

Parte 4

Pro­cu­rar por al­guém numa ci­dade às es­cu­ras, com risco de des­mo­ro­na­men­tos e fen­das pelo chão era uma das ta­re­fas mais di­fí­ceis que Hei­tor já fez na vida. Ele an­dava pelo o que so­brou das ruas, olhando com afli­ção os es­com­bros e pa­rando to­das as pes­soas que en­con­trava.

Nin­guém ti­nha visto a moça fo­ras­teira com um te­le­fone por­tá­til. Ele co­me­çava a su­por que ela ti­vesse mor­rido na­quela tra­gé­dia, exa­ta­mente como ela mesmo ti­nha aler­tado. Veio o sen­ti­mento de re­morso por tê-la for­çado a vir junto com o grupo.

Já ha­via pas­sado mais de meia hora, o ânimo es­tava de­sa­pa­re­cendo e a es­pe­rança de achar Ivana es­tava su­mindo. Foi aí que ela mesma cha­mou por Hei­tor. O cha­mado era na ver­dade um pe­dido de ajuda. Ela es­tava par­ci­al­mente so­ter­rada por ti­jo­los de uma pa­rede, as duas per­nas es­ta­vam pre­sas. Cho­rando di­zia que es­tava ten­tando sal­var uma mu­lher quando a casa co­me­çou a cair.

A pri­meira coisa que ele fez foi per­gun­tar pelo te­le­fone de Ivana. Ela o man­dou a merda e pe­diu por ajuda de novo. Caindo em si, Hei­tor co­me­çou a re­ti­rar com ra­pi­dez os ti­jo­los. A perna di­reita era a mais ma­chu­cada, com uma fra­tura. Era im­pos­sí­vel ela an­dar.

Mais uma vez, agora pe­dindo des­cul­pas an­te­ci­pa­da­mente, Hei­tor per­gun­tou pelo te­le­fone. Ivana disse que o apa­re­lho de­via es­tar no meio dos ti­jo­los por­que caiu de sua cin­tura quando ela ten­tava fu­gir. Ime­di­a­ta­mente ele co­me­çou a vas­cu­lhar onde Ivana es­tava apon­tando e em­baixo de ti­jo­los e pe­dras re­al­mente es­tava o te­le­fone, todo amas­sado e com o vi­sor de cris­tal lí­quido que­brado.

Uma má­quina inú­til na­quela des­gra­ceira toda. Como o fe­ri­mento do pai de Hei­tor, o te­le­fone não ti­nha con­serto. Já não ha­via mais o que fa­zer, só es­pe­rar por ajuda, po­rém já de­via ser tarde de­mais. De­sa­pon­tado, ele fi­cou em si­lên­cio, ape­nas pen­sando que fa­lhou e vol­tou para sua terra para ver o pai mor­rer. Não con­se­guia sen­tir mais raiva da­quele lu­gar, só um misto de medo e pa­ra­li­sia.

Pela ter­ceira vez Ivana pe­diu por ajuda. Em cho­que Hei­tor não res­pon­deu. Só deu si­nal de vida quando ela, de­ses­pe­rada, ati­rou um ti­jolo na cara dele. Ela pe­dia para ser car­re­gada para um lu­gar onde pu­desse ser aju­dada, es­tava com muito medo de per­der a perna e não po­der an­dar mais. Di­zia que sua fa­mí­lia pre­ci­sava dela, não po­dia dei­xar de tra­ba­lhar.

Hei­tor se le­van­tou, man­dou ela se vi­rar so­zi­nha e saiu ca­mi­nhando. Mesmo com os ber­ros e xin­ga­men­tos de Ivana, ele não vol­tou e con­ti­nuou a an­dar no es­curo. Con­fron­tado com o medo e o de­ses­pero, ele re­sol­veu de­vol­ver na mesma mo­eda.

A se­gunda ação feita foi vi­si­tar as ca­sas das pes­soas mais ri­cas de Barro Roxo. Acer­tou na mosca. O ter­re­moto não as pou­pa­ram tam­bém. Os ca­sa­rões an­ti­gos de vá­rios cô­mo­dos es­ta­vam em ruí­nas. Ele não teve pu­do­res, foi en­trando onde era pos­sí­vel en­xer­gar um pouco e co­me­çou a pi­lha­gem. En­con­trou di­nheiro, jóias e ar­mas, coi­sas que nem um ter­re­moto ti­nha con­se­guido des­truir. Isso é o que va­lia a pena agora, ele pen­sava. En­cheu uma mala que achou nos des­tro­ços com to­dos os te­sou­ros mal­di­tos do tre­mor.

Ha­via tam­bém al­guns fe­ri­dos nas ca­sas dos ri­cos, ele não sa­bia di­zer se os do­nos ou os em­pre­ga­dos. Quem ti­nha força para re­a­gir aos rou­bos mor­reu ba­le­ado ou na falta de mu­ni­ção com pe­dra­das mesmo. Fo­ram quase duas ho­ras vas­cu­lhando as ruí­nas. Can­sado e sujo, Hei­tor sentou-se perto da luz de um in­cên­dio para to­mar fô­lego.

Pen­sava na nova vida que te­ria a par­tir da­quele mo­mento. Mu­da­ria para a ca­pi­tal, cur­ti­ria gran­des far­ras com um pouco do di­nheiro que co­le­tou e usa­ria o resto para es­tu­dar ou mon­tar al­gum ne­gó­cio. De­pois, man­da­ria bus­car sua mãe quando es­ti­vesse com uma renda boa. 

Para não dei­xar sus­pei­tas foi em­bora da ci­dade na­quela noite mesmo. Re­tor­nou até o ôni­bus em que vi­era para a ci­dade. En­trou, sentou-se numa pol­trona e dor­miu até de ma­nhã­zi­nha, quando uma equipe de so­corro do go­verno apa­re­ceu. Foi me­di­cado nas mãos que fu­ça­ram os es­com­bros e no rosto que le­vou uma pe­drada. To­mou café quen­ti­nho e fa­lou so­bre a tris­teza que viu na ci­dade.

Perto da hora do al­moço um trans­porte o le­vou para uma ci­dade pouco atin­gida pe­los tre­mo­res. Pas­sou a noite em um ho­tel. No dia se­guinte foi mo­rar na ca­pi­tal onde vive até hoje como ci­da­dão res­pei­tado e fe­liz.

E-mail: reichaves@hotmail.com

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