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Competente – Texto de Otávio Nunes

sexta-feira, 16 de novembro de 2007 Texto de

Não gosto do ad­je­tivo com­pe­tente. De al­guns me­ses para cá, na ver­dade,
mais de ano, pas­sei a evi­tar tal pa­la­vra, bem como suas de­ri­va­das, pre­fe­rindo qua­li­fi­cado, ca­pa­ci­tado, pre­pa­rado, apto, ex­pe­ri­ente, co­nhe­ce­dor… “Ora, não é a mesma coisa”, di­rão al­guns pu­ris­tas, que só en­ten­dem a pa­la­vra no seu sen­tido in­di­vi­dual, de di­ci­o­ná­rio. Ami­gos, o sen­tido da pa­la­vra quem dá é o con­texto, se­nhor de tudo.

Para evi­tar uma pa­la­vra odi­osa, mudo até mesmo toda a frase ou pa­rá­grafo. No com­pu­ta­dor, é mo­leza. Nos anos dou­ra­dos da Oli­vetti era di­fí­cil. Certa feita, foca de re­da­ção, le­vei uma bronca do edi­tor que me ame­a­çou: “Vou des­con­tar do seu parco sa­lá­rio as lau­das jo­ga­das no lixo”. Co­me­cei a guar­dar lau­das amas­sa­das no bolso. Meu Deus! Quanta coisa idi­ota fa­ze­mos nessa vida. Mas vol­te­mos ao ad­je­tivo em ques­tão, que na mi­nha in­sig­ni­fi­cante opi­nião é exe­crá­vel.

É meio di­fí­cil ex­pli­car mi­nha oje­riza. Vou ten­tar, en­tre­tanto.

Com­pe­tente me soa um ad­je­tivo mo­dista, es­nobe, afe­tado, me­tido a besta, po­li­ti­ca­mente cor­reto, pre­con­cei­tu­oso, eli­tista, pro­pa­gan­dís­tico, ar­que­teiro, pe­dante e, ufa, mais ma­lhado que cé­dula de um real. Quando ouço tal pa­la­vra, me pa­rece que a pes­soa que a pro­fere faz dis­curso, tenta ser edu­cada ou for­mal. Ou seja. Soa como algo vo­lú­vel, dis­si­mu­lado.

Na boca dos mar­que­tei­ros e li­be­rais de car­tei­ri­nha, en­tão, com­pe­tente é aquele que deu certo, que se deu bem, fi­cou rico, fa­moso. Às ve­zes, sem im­por­tar os meios. En­fim, é o win­ner. O in­com­pe­tente é o per­de­dor. É a qua­li­fi­ca­ção que po­lí­ti­cos, em­pre­sá­rios e jor­na­lis­tas mais uti­li­zam quando que­rem fa­lar de al­guém con­si­de­rado ta­lhado para de­ter­mi­nada ati­vi­dade. Al­guns mais exal­ta­dos che­gam mesmo a co­men­tar: “Não presta, mas é com­pe­tente no que faz”.

Certa feita um chefe, que não era o mesmo da lauda, disse-me que eu era in­com­pe­tente para certa fun­ção. Não con­se­gui dor­mir di­reito por se­ma­nas. Senti-me ani­qui­lado como a pulga en­tre as unhas. Hoje, acre­dito, te­ria um sono pro­fundo, sem culpa, sem pulga e sem lauda.

E-mail: otanunes@gmail.com

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