Contos

Dores nas costas

domingo, 21 de outubro de 2007 Texto de

I

Ou­tro dia, apareceu-me lá no con­sul­tó­rio, pelo meio da tarde, um tal Sil­vé­rio. Mi­nha cli­en­tela ge­ral­mente é fixa, não por ou­tra coisa, se­não pelo de­ta­lhe de a mi­nha agenda vi­ver lo­tada. Para di­zer a ver­dade, te­nho con­sul­tas mar­ca­das para os pró­xi­mos seis me­ses. Por isso mesmo, quando surge al­gum novo pa­ci­ente, é na­tu­ral ali­men­tar uma certa cu­ri­o­si­dade. Con­tudo, quando ele en­trou, am­bos não pu­de­mos evi­tar boas ri­sa­das. O fato é que já nos co­nhe­cía­mos, em­bora não ti­vés­se­mos li­gado nos­sos no­mes às res­pec­ti­vas pes­soas. Eu o ti­nha por Silva e ele me tra­tava por Dou­tor Juca. São es­ses os ape­li­dos pe­los quais cos­tu­mam se di­ri­gir a nós, in­clu­sive no edi­fí­cio onde mo­ra­mos, coin­ci­den­te­mente no sé­timo. Não era para rir?  – “En­tão o nome do se­nhor é João Car­los? Puxa, po­de­ria ser Joca, não é? “ Bem, claro que, em meio a ou­tras ri­sa­das, ex­pli­quei a ele que aquilo era coisa de fa­mí­lia, ape­lido dado pelo avô, en­fim, es­ses por­me­no­res de pouco in­te­resse a este caso. De­pois de a po­eira bai­xar, a sur­presa fi­cando para trás, pas­sa­mos a con­ver­sar o que re­al­mente ca­bia a um mé­dico e um pa­ci­ente.

– Mas, diga-me, Silva, isto é, Sil­vé­rio, em que eu posso ajudá-lo?

– Pode con­ti­nuar me cha­mando por Silva, dou­tor, por fa­vor. Olha, quase que eu não con­sigo a con­sulta. Acho que a moça mar­cou por­que não agüen­tava mais mi­nha in­sis­tên­cia. De qual­quer ma­neira, eu agra­deço muito. E vou pro­cu­rar não to­mar muito tempo. Ela disse que mi­nha con­sulta é o que vo­cês cha­mam de “en­caixe”, é isso?

– Pode fi­car à von­tade, Silva. Se a con­sulta foi mar­cada, meu ob­je­tivo é fa­zer o me­lhor pelo pa­ci­ente, ainda mais por você, um vi­zi­nho.

– Bom, dou­tor, eu vim por­que mi­nhas cos­tas es­tão em pan­da­re­cos. Agora até que está dando para fa­lar e an­dar, mas tem hora que nem dei­tado é pos­sí­vel.

O Silva, um ho­mem pe­los seus cinqüenta e pou­cos anos, fa­zia ter­rí­veis ca­re­tas de­baixo de um vasto bi­gode e pro­cu­rava, sem con­se­guir, le­var uma das mãos às cos­tas, en­quanto ten­tava ex­pli­car seu pro­blema. Em­bora ali, à mi­nha frente, ele es­ti­vesse apa­ren­te­mente bem, suas quei­xas eram de ar­re­piar. Às ve­zes, pa­re­cia até exa­ge­rar. Eu pro­cu­rei dar um des­conto a es­ses exa­ge­ros. Sei como é fi­car so­zi­nho num apar­ta­mento nesta idade. As­sim como ele, tam­bém sou di­vor­ci­ado e di­vido meu es­paço com ví­cios e neu­ro­ses im­pla­cá­veis. Pen­sei: se ele não ti­ver com quem se la­mu­riar, o mé­dico dele pre­cisa su­por­tar isso, afi­nal todo mé­dico deve ter tam­bém uma pre­dis­po­si­ção a psi­có­logo. En­tão, levantei-me e pedi que ele ti­rasse a ca­misa e que se sen­tasse à cama. An­tes de tra­tar es­pe­ci­fi­ca­mente de suas cos­tas, eu pre­ci­sava ver se tudo ia bem com ele em ter­mos ge­rais. De­pois de auscultá-lo, exa­mi­nando sua res­pi­ra­ção e seus ba­ti­men­tos car­día­cos, cons­ta­tei que a prin­cí­pio suas con­di­ções não eram ruins, não ha­via in­dí­cios de pneu­mo­nia ou do­en­ças que pu­des­sem cau­sar as ter­rí­veis do­res que ele di­zia sen­tir. Sentamo-nos no­va­mente, para que eu fi­zesse o di­ag­nós­tico. Para isso, te­nho por há­bito con­ver­sar bas­tante com o pa­ci­ente, ana­li­sar suas con­di­ções de vida, suas ati­vi­da­des fí­si­cas, in­cluindo aí a pos­tura, en­fim, gosto de ve­ri­fi­car de­ta­lha­da­mente como vive a pes­soa e, só a par­tir daí, co­me­çar a tra­çar prog­nós­ti­cos so­bre a ori­gem do pro­blema.

– Você cos­tuma pra­ti­car al­gum es­porte, Silva?

– Olha, con­fesso que ul­ti­ma­mente es­tou meio pa­ra­dão. O se­nhor sabe, sou re­pre­sen­tante co­mer­cial autô­nomo, mas te­nho to­das as vi­si­tas pre­vi­a­mente agen­da­das e hoje em dia não me pas­sam muita coisa. Nos dias em que vi­sito os cli­en­tes, vou de carro, ou seja, sen­tado; chego ao lo­cal, es­pero sen­tado; en­tro para ne­go­ciar, sou con­vi­dado a me sen­tar; volto sen­tado, chego em casa e me sento para ver TV ou para co­mer. Quando não saio para tra­ba­lhar, é pior, fico ainda mais tempo sen­tado. De vez em quando, desço para dar umas vol­tas, mas é pouca coisa…

– Você sabe que isso não é nada bom para a nossa idade, não é? 

– A gente acaba se aco­mo­dando, só na hora em que as coi­sas se com­pli­cam é que se pro­cura um mé­dico.

– Não é só isso, Silva. Ló­gico que sem­pre é acon­se­lhá­vel con­sul­tar um mé­dico, mas a pre­ven­ção tam­bém é fun­da­men­tal. O se­den­ta­rismo é uma ver­da­deira arma apon­tada para nosso co­ra­ção, nossa ca­beça, nossa prós­tata, en­fim, para nossa vida. 

Es­tá­va­mos con­ver­sando as­sim, o que julgo im­por­tante para o pro­cesso de cons­ci­en­ti­za­ção do pa­ci­ente, quando de re­pente fiz a per­gunta que ori­gi­nou esta his­tó­ria.

– Bem, mas há quanto tempo você não pro­cura um mé­dico, hein Silva? Essa dor sur­giu agora ou vem de longe?

– Não me lem­bro de ter ido a um mé­dico nos úl­ti­mos dez anos, pelo me­nos. Acho que a úl­tima vez foi para ti­rar a ve­sí­cula. Agora, essa dor, dou­tor, essa dor vem desde que eu acor­dei com o leão me pi­sando, faz uns três dias.

II

Por um ins­tante, achei não ter com­pre­en­dido a ex­pli­ca­ção de meu pa­ci­ente. Per­ma­neci ca­lado, olhando para ele, e ele ba­lan­çando a ca­beça afir­ma­ti­va­mente.

– Como as­sim? Não en­tendi, Silva.

En­tão, ele me fi­tou com bas­tante na­tu­ra­li­dade e in­sis­tiu na jus­ti­fi­ca­tiva.

– Eu não ti­nha essa dor, Dou­tor Juca. Co­me­çou segunda-feira, de­pois que o leão me pi­sou.

Aquele es­tá­gio de nosso diá­logo exi­gia ra­pi­dez de meus neurô­nios. Sem de­mora, eu pre­ci­sava ava­liar as pos­si­bi­li­da­des que le­va­vam meu pa­ci­ente a agir da­quela ma­neira. Se a prin­cí­pio, eu ima­gi­nara tratar-se de uma brin­ca­deira, nada mais in­di­cava que as­sim o fosse. O Silva es­tava sen­tado di­ante de mim com ex­pres­são grave, a fi­si­o­no­mia do pa­ci­ente que está em busca de res­pos­tas para seu pro­blema. Pro­cu­rei, en­tão, ga­nhar tempo, ana­li­sar me­lhor sua jus­ti­fi­ca­tiva para as do­res nas cos­tas, em­bora in­ti­ma­mente me sen­tisse cons­tran­gido por ali­men­tar uma con­versa as­sim.

– E como foi isso, Silva?

– Eu es­tava dei­tado de bru­ços. Só con­sigo dor­mir as­sim. É até en­gra­çado di­zer, mas eu so­nhava com uma des­sas lu­tas de sumô e ti­nha um ja­po­nês muito gordo sen­tado em mi­nhas cos­tas, eu não agüen­tava mais. Foi quando acor­dei com a pata do leão em cima de mim…

Pou­cos che­ga­riam a uma con­clu­são di­fe­rente da mi­nha: o Silva en­lou­que­cera ou no mí­nimo tornara-se ví­tima de uma per­tur­ba­ção men­tal. Ime­di­a­ta­mente, me vi na obri­ga­ção de ajudá-lo, mas eu pre­ci­sava pen­sar num modo sem di­zer a ele mi­nhas sus­pei­tas. Sabia-se lá o tipo de re­a­ção de meu pa­ci­ente di­ante de uma no­tí­cia dessa. Pedi a ele para deitar-se no­va­mente e exa­mi­nei suas cos­tas, en­quanto pla­ne­java o me­lhor a ser feito. Por fim, receitei-lhe al­guns re­la­xan­tes mus­cu­la­res e mar­quei o re­torno para dali a uma se­mana, prazo su­fi­ci­ente para en­con­trar uma saída. Eu co­nhe­cia al­guns bons psi­qui­a­tras e re­cor­re­ria a eles para aconselhar-me. 

Passaram-se dois dias. Cu­ri­oso e pre­o­cu­pado, pro­cu­rei fi­car atento ao com­por­ta­mento do Silva no edi­fí­cio onde mo­rá­va­mos. Mas nes­sas qua­renta e oito ho­ras, não o vi uma vez se­quer. En­tão, coi­sas ter­rí­veis co­me­ça­ram a atormentar-me. Ele te­ria pi­o­rado? Tal­vez ti­vesse sido um erro aguar­dar uma se­mana. Eu de­ve­ria tê-lo en­vi­ado a um psi­qui­a­tra na mesma hora. Fui ter com o por­teiro.

– Você tem visto o Silva, do sé­timo?

– Sim se­nhor, Dou­tor Juca. O Seu Silva saiu faz coisa de meia hora.

A in­for­ma­ção tranqüilizou-me, mas ape­nas em parte. Quando en­ca­fifo com um pro­blema, não sos­sego até vê-lo re­sol­vido, prin­ci­pal­mente quando diz res­peito à mi­nha res­pon­sa­bi­li­dade pro­fis­si­o­nal. À noi­ti­nha, ao vol­tar do con­sul­tó­rio, mi­nha in­ten­ção era esperá-lo na re­cep­ção ou, caso já ti­vesse che­gado, procurá-lo em seu apar­ta­mento. Que­ria ao me­nos observá-lo de perto, cons­ta­tar se sua per­tur­ba­ção ha­via pro­gre­dido. Tudo isso, en­tre­tanto, tornou-se des­ne­ces­sá­rio. Logo ao en­trar, en­con­trei o Silva dei­xando o pré­dio.

– Olá, Silva! Vai sair?

– Vou apro­vei­tar a sexta-feira, dou­tor, to­mar uns cho­pes com os ami­gos.

– E as do­res nas cos­tas? Você me­lho­rou?

– Até que sim, dou­tor. Já es­tou quase bom.

Nisso, não sei di­zer o mo­tivo, quem sabe o alí­vio de per­ce­ber a nor­ma­li­dade em seu com­por­ta­mento, fiz-lhe uma per­gunta cujo teor de certa forma compeliu-me an­tes mesmo de concluí-la. Fran­ca­mente, não sei de onde ti­rei aquela bes­teira, uma es­pé­cie de brin­ca­deira de mau gosto.

– E o leão, você o viu ou­tra vez?

– Aca­bei de des­cer com ele no ele­va­dor. Até logo, dou­tor, já es­tão bu­zi­nando para mim. 

III

Está mesmo me­lhor, pen­sei. Quem tão ra­pi­da­mente re­truca com sar­casmo a uma iro­nia ba­rata não deve es­tar as­sim muito louco. Bem, me­nos mal. Como faço to­das as noi­tes, cum­pri­men­tei o por­teiro e me di­rigi ao ele­va­dor, já fu­çando em mi­nhas coi­sas à pro­cura da chave do apar­ta­mento. Nesse meio tempo, fui en­trando no ele­va­dor, ainda com a va­lise aberta, até res­ga­tar de lá o mo­lho de cha­ves. Aper­tei o sete e fe­chei a ma­leta. Quando fui ajei­tar meus ócu­los, dei-me conta de algo ao meu lado. Pus-me atô­nito: era o leão. Per­ma­neci es­tá­tico, a não ser pelo leve tre­mor de meus mem­bros. Fi­xei o olhar no pai­nel dos nú­me­ros. Es­tá­va­mos no ter­ceiro. Uma gota de suor dei­xou o couro ca­be­ludo, atra­ves­sou a ex­tre­mi­dade da so­bran­ce­lha, pas­sou pelo olho, es­cor­reu con­tor­nando o na­riz, até ser cap­tu­rada por mi­nha lín­gua seca. Pas­sa­mos pelo quarto an­dar e che­gá­va­mos ao quinto, a luz no pai­nel es­tava acesa. O ele­va­dor re­du­ziu a ve­lo­ci­dade. De tra­vés, percebi-lhe ba­lan­çar a ore­lha e mo­vi­men­tar le­ve­mente a ca­beça, como fa­zem os ani­mais para ex­pul­sar os mos­qui­tos. Por um ins­tante, ame­a­cei um berro, mas a gar­ganta tra­vada abor­tou qual­quer pos­si­bi­li­dade de som. A porta abriu-se no quinto an­dar. Nin­guém do lado de fora. A porta fechou-se. Fal­ta­vam só dois. Mais al­guns se­gun­dos e eu po­de­ria fi­nal­mente res­pi­rar ou­tra vez. O pai­nel ilu­mi­nou o sexto. O bi­cho levantou-se abrup­ta­mente. Nessa hora, senti-me um ve­lho me­re­ce­dor de pi­e­dade ao per­ce­ber a urina molhando-me por baixo das cal­ças, até en­char­car uma das meias. Deus, o se­nhor está aí? Aque­les mí­se­ros se­gun­dos, en­tre um an­dar e ou­tro, serviram-me para aban­do­nar cinqüenta e seis anos de fer­re­nha in­cre­du­li­dade. Pedi a Deus pela mi­nha vida. Ape­nas não ajo­e­lhei para evi­tar cha­mar a aten­ção de meu com­pa­nheiro de vi­a­gem. En­fim, o sé­timo. A porta escancarou-se. Como um robô, ten­tei an­dar sem mover-me de­mais. Pi­sei no chão do cor­re­dor e um se­gundo após, ouvi o ele­va­dor fechar-se atrás de mim.

Cam­ba­leei até mi­nha porta, com di­fi­cul­dade en­cai­xei a chave no tam­bor. Arrastei-me à sala, pre­vendo um ata­que car­díaco, mas em vez de li­gar para um hos­pi­tal ou para o res­gate, te­le­fo­nei para o Corpo de Bom­bei­ros. Mi­nha voz quase não saía. 

– É uma emer­gên­cia, por fa­vor. Há um leão no ele­va­dor de meu pré­dio.

Do ou­tro lado da li­nha, um si­lên­cio manteve-se por al­guns ins­tan­tes.

– Es­cuta aqui, en­gra­ça­di­nho: sua sorte é es­tar­mos, exa­ta­mente agora, com pro­ble­mas no sis­tema de iden­ti­fi­ca­ção de cha­ma­das. Vá pro­cu­rar algo me­lhor para fa­zer, ok?

E des­li­gou. Sim, ha­via um leão no pré­dio, pas­se­ando de ele­va­dor, e o su­jeito dos bom­bei­ros des­li­gara o te­le­fone na mi­nha cara. Ten­tei res­pi­rar com calma, re­cu­pe­rar o fô­lego. Fi­quei sen­tado por apro­xi­ma­da­mente dez mi­nu­tos. Só en­tão pude vol­tar a ser ra­ci­o­nal. Se­ria mesmo um leão no ele­va­dor? Eu não es­ta­ria per­tur­bado com o caso do Silva? Em­bora fosse uma ta­ma­nha coin­ci­dên­cia, se as neu­ro­ses dele eram ca­pa­zes de levá-lo a imaginar-se com um leão so­bre as cos­tas, por que eu não po­de­ria tam­bém so­frer uma alu­ci­na­ção se­me­lhante? Bebi uma dose de uís­que para re­la­xar. De­pois, dei-me conta da roupa úmida de urina. To­mei um ba­nho rá­pido, não ti­nha pa­ci­ên­cia para nada. Que ab­surdo aquilo tudo! Era pre­ciso uma res­posta, ou eu iria en­lou­que­cer de ver­dade. Fui no­va­mente até o cor­re­dor, cha­mei o ele­va­dor, a porta abriu-se. Nada. En­trei e aper­tei o T. Eu fa­la­ria com o por­teiro, quem sabe ele ti­vesse ou­vido al­gum co­men­tá­rio a res­peito des­sas vi­sões, quem sabe ou­tros mo­ra­do­res, uma alu­ci­na­ção co­le­tiva? Em vez de des­cer, o ele­va­dor su­biu. Foi até o úl­timo an­dar, o vi­gé­simo. Nin­guém à es­pera. Mas, quando a fo­lha de aço co­me­çou a des­li­zar para fechar-se, per­cebi num re­lance algo es­tra­nho. Se­gu­rei a porta e saí ao cor­re­dor. O du­plex es­tava aberto e de lá exa­lava um cheiro ruim. Nas pon­tas dos pés, dei cinco ou seis pas­sos e com cui­dado em­pur­rei a porta, bem de­va­gar. O ce­ná­rio dan­tesco causou-me ver­ti­gem e tudo escureceu-se à mi­nha frente. Escorei-me à pa­rede para não cair. Tão logo recuperei-me, fui ao in­ter­fone e gri­tei por so­corro. Dois se­gu­ran­ças su­bi­ram de­pressa e, en­tão, cha­ma­mos a po­lí­cia.

Na sala enorme do apar­ta­mento, so­bre os jo­gos de es­to­fa­dos, me­sas, ca­dei­ras e de­mais mó­veis, seguia-se um ras­tro de san­gue e res­tos de cor­pos. Um dos quar­tos, o maior, abri­gava uma jaula em pra­ti­ca­mente toda sua ex­ten­são. Cerca de meio me­tro a se­pa­rava das pa­re­des, es­tas pre­pa­ra­das com uma for­ra­gem es­pe­cial. Cui­da­dos acús­ti­cos im­pe­diam a pro­pa­ga­ção de qual­quer som, mesmo o ru­gido de um leão. A de­co­ra­ção, por sua vez, era fan­tás­tica. O po­bre bi­cho preso cer­ta­mente imaginava-se numa selva, tal a qua­li­dade das pin­tu­ras. A in­ves­ti­ga­ção po­li­cial re­ve­lou o se­guinte: os mo­ra­do­res do du­plex, um ca­sal de avan­çada idade, cri­a­ram o leão desde pe­queno. Vá­rios ál­buns de fo­tos e ví­deos fo­ram ane­xa­dos ao pro­cesso. Pelo jeito, acom­pa­nhar o cres­ci­mento e o dia-a-dia do ani­mal configurava-se no grande di­ver­ti­mento dos ve­lhi­nhos. Aliás, eles não ti­nham fi­lhos e nunca re­ce­biam vi­si­tas. Se­gundo os por­tei­ros, quase não saíam, mas as en­co­men­das che­ga­vam cons­tan­te­mente, en­tre elas de­certo muita carne para a di­eta do leão. Quando os po­li­ci­ais certificaram-se do in­crí­vel acon­te­ci­mento, os bom­bei­ros e a de­fesa ci­vil fo­ram cha­ma­dos, e os mo­ra­do­res, re­ti­ra­dos. Pas­sa­mos acor­da­dos uma longa noite. No fim, nem si­nal do no­bre fe­lí­deo. Sim­ples­mente, ele de­sa­pa­re­ceu.

No dia se­guinte, muito cedo, uma de mi­nhas fi­lhas veio visitar-me. Eu não avi­sara nin­guém da fa­mí­lia so­bre o epi­só­dio. Si­tu­a­ções desse tipo só de­vem ser ex­pli­ca­das pes­so­al­mente. Por te­le­fone, pa­re­cem tro­tes ou brin­ca­dei­ras bo­bas. Ou, na pior das hi­pó­te­ses, po­de­riam tomar-me como louco. Não foi essa mi­nha re­a­ção a res­peito do Silva? Bem, pre­ci­sei re­pe­tir a his­tó­ria umas cem ve­zes para mi­nha neta de seis anos. Mas o fiz com pra­zer, man­tendo pelo má­ximo de tempo pos­sí­vel aquele bri­lho em seus olhos, o bri­lho pro­vo­cado pela ima­gi­na­ção de ter o avô me­tido numa aven­tura pa­re­cida com os de­se­nhos ani­ma­dos e os li­vros ilus­tra­dos de seu mun­di­nho. Quando fi­nal­mente cansou-se, ela me olhou com toda sua ino­cên­cia e per­gun­tou onde es­tava o leão agora. Foi uma ótima per­gunta. Onde es­ta­ria o leão agora? Na ver­dade, nunca o en­con­tra­ram.

– Vovô, ele pode es­tar por aí, pas­se­ando na rua…

Mui­tas ve­zes ouvi di­zer so­bre os bons re­sul­ta­dos da sim­pli­ci­dade di­ante do que se faz com­plexo. Não em ra­ras oca­siões fi­ca­mos per­ple­xos quando nos apa­re­cem pro­ble­mas gra­ves e pos­te­ri­or­mente des­co­bri­mos para eles res­pos­tas ad­vin­das de pro­ce­di­men­tos ba­nais. Pois bem. A so­lu­ção en­con­trada por mi­nha neta não é de todo des­ca­bida. Se a mul­ti­dão pas­sante des­tas nos­sas ruas api­nha­das pa­rece aperfeiçoar-se no exer­cí­cio do iso­la­mento, ig­no­rando mesmo a pró­pria es­sên­cia de sua com­po­si­ção; se essa mul­ti­dão adianta-se numa mar­cha a cada dia mais sub­missa aos in­te­res­ses ab­so­lu­ta­mente in­di­vi­du­ais em de­tri­mento do pro­veito co­mum; se ela é há­bil no des­prezo às suas bei­ra­das car­co­mi­das, por que, en­tão, em seu seio não pode es­tar, in­có­lume, o leão fu­gi­tivo do apar­ta­mento dos ve­lhi­nhos? Ele de­vora uns e, por sua ca­pa­ci­dade de in­ti­mi­dar, cor­rompe ou­tros – os que se­guem em frente, em­bo­ta­dos, jun­tos e ao mesmo tempo sós, os que olham e não vêem. É lá que está o leão.

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