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Sofredor – Texto de João Pedro Feza

quarta-feira, 31 de outubro de 2007 Texto de

An­gús­tia em es­tado te­le­vi­sivo: ro­tina de co­rin­ti­a­nos. Como eu. Mas va­mos bo­tar o preto no branco: agora, com a fa­tura de­ci­dida a fa­vor do Tri­co­lor, o (ex) Ti­mão é a graça de tudo.

Diz que o cara, co­rin­ti­ano, che­gou em casa e co­briu a mu­lher de pan­cada. Só por­que ela usava um tomara-que-caia.

Mui­tas pi­a­das ainda vi­rão. Mas o fato, agora, é que o Co­rinthi­ans mo­no­po­liza as aten­ções de to­das as tor­ci­das.

Nós, os mi­lha­res, a fa­vor. Os ou­tros, al­guns, con­tra. Com­pre­en­sí­vel. Quem
não tem essa pai­xão so­fre­dora, tem mais é que tor­cer para a der­ro­cada
alvi-negra. Res­peito, sem rus­gas.

Tor­cida inú­til, es­pero eu. Por­que é uma aber­ra­ção ima­gi­nar o Co­rinthi­ans
no an­dar de baixo. Ops, já está. Quero di­zer no an­dar de baixo das
di­vi­sões do fu­te­bol bra­si­leiro. Sé­rie B? Não dá.

Um time cujo santo não é santo, es­tá­dio não é es­tá­dio e di­re­to­ria não é
di­re­to­ria não me­rece cair. Não no Bra­sil, onde o er­rado é o certo.

Di­fí­cil nossa si­tu­a­ção: pelo con­junto da obra, o Co­rinthi­ans de­ve­ria ser
ba­nido do fu­te­bol após tan­tos de­sa­man­dos. Pela pai­xão de berço, o
Cor­tinthi­ans me­rece o olimpo e as uvas.

Nesse caso único de tor­ce­dor con­victo, pre­firo meu lado ir­ra­ci­o­nal a agir.
Quero o Co­rinthi­ans bem co­rado: forte, ca­paz e bo­nito na fita.

A par­tir de agora, mais do que nunca, será in­te­res­sante: to­dos con­tra um.
To­dos con­tra o Mos­que­teiro. Quer di­zer, to­dos me­nos aque­les mi­lha­res en­tre os quais es­tou in­cluído por força pa­terna. Sou grato.

Não, se­nho­res: o Co­rinthi­ans não cairá. Até por­que sa­be­mos que, se
de­sa­bar, será di­fí­cil re­er­guer. Pre­firo so­frer na sé­rie A. Ao me­nos,
res­pi­ra­mos o ar da elite. Mesmo me­re­cendo o gueto e a som­bra.

Nunca so­frer foi tão apro­pri­ado. So­mos so­fre­do­res con­fes­sos. Só não
pre­ci­sava exa­ge­rar. En­tra­mos no limbo sem tí­tu­los. Só não pre­ci­sava
pro­lon­gar a seca. Cru­e­dade boba com tanta in­gê­nua gente.

Fi­gu­ran­tes de luxo, uni-vos. Essa seca vai pas­sar. Te­mos o Lula, te­mos o
Lu­li­nha. Te­mos o po­der da re­a­ção. Te­mos… O que te­mos, mesmo?

Bem, te­mos a dá­diva de ser Co­rinthi­ans. De sa­ber que da pe­sada seca,
sur­girá a far­tura. Te­mos fé e te­mos todo o tempo do mundo. O sé­culo 21
co­me­çou es­ses dias mesmo. Pra que a pressa?

De tanto tor­cer, tor­cer e tor­cer, o so­frer se­cará. E ainda ha­verá al­gum
alvi-negro do Par­que São Jorge a so­car o ar em con­vin­cente im­pulso após
ho­mé­rica fi­nal, da­que­las de tre­mer o mundo.

Es­pero que seja con­tra um Pal­mei­ras, não con­tra um Gama.

E-mail: jfeza@bol.com.br

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