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quarta-feira, 7 de abril de 2010 Texto de

Eu te­nho uma forte queda pelo ou­tono. Acho até que é mi­nha es­ta­ção pre­di­leta. Seu charme vi­sual é fla­grante. Toda se­mana vi­ajo de carro cen­te­nas de quilô­me­tros a tra­ba­lho. E nada mais agra­dá­vel na es­trada do que ob­ser­var a na­tu­reza num es­tado ameno. No ve­rão, o sol chega a ce­gar. No in­verno, é uma tre­menda ju­di­a­ção olhar para as pas­ta­gens e plan­ta­ções res­se­qui­das. A pri­ma­vera é, pra mim, ex­ces­si­va­mente sub­missa ao ve­rão, ao qual eu não sou muito che­gado. Já o ou­tono é de um equi­lí­brio gran­di­oso.

É mag­ní­fico olhar o ca­pim se dei­tando ao vento e to­dos os ver­des re­fle­ti­rem por um mo­mento o bri­lho do sol co­ado pe­las nu­vens tin­gi­das de cinza es­curo. A im­pres­são é de uma or­ques­tra sob a ba­tuta de um ser in­vi­sí­vel, real ou ima­gi­ná­rio, que cha­ma­mos Deus. As gran­des e in­si­nu­an­tes som­bras de­se­nha­das na pai­sa­gem e pe­ne­tra­das pe­los ca­va­los que ga­lo­pam li­vre­mente são suas mu­das pa­la­vras.

Drama

So­bre as tra­gé­dias pro­vo­ca­das pe­las chu­vas em Santa Ca­ta­rina em 2008, es­crevi na época aqui no site o se­guinte:

“… Sem dar vol­tas, é isto: a blas­fê­mia am­bi­en­tal do ho­mem cus­pida de volta pela na­tu­reza. Não vejo como res­pei­tar su­jei­tos que se tra­ves­tem de po­der pú­blico e, ao longo do tempo, das dé­ca­das ou dos sé­cu­los, agem com ta­ma­nha ir­res­pon­sa­bi­li­dade. Ou al­guém vai acei­tar os far­ra­pos de des­cul­pas emol­du­ra­das em ares de sur­presa? Sim, se­nho­res. E se­nho­ras. Eis aí o si­nal ver­me­lho. Onde es­tão as fi­gu­ras que, no po­der, dei­xa­ram de pla­ne­jar nos­sas áreas ur­ba­nas e as ocu­pa­ções ru­rais? Eu os acuso. Eu os con­deno. Mas sei que eles não se con­si­de­ram acu­sa­dos nem con­de­na­dos e es­tão ocu­pa­dos lu­di­bri­ando lá­gri­mas sin­ce­ras que ja­mais se­rão ca­pa­zes de la­var a má­cula do Ita­jaí.”

Por fa­vor, tro­quem ape­nas “Ita­jaí” por “Rio”.

Nem tudo está per­dido 1

O blog do Iná­cio Araújo deu a se­guinte nota:

“Lei­tu­ras
Ah, para com­ple­tar: vejo na TV uma his­tó­ria in­te­res­sante. Uma ga­rota vai à nova bi­bli­o­teca de SP (onde an­tes era o Ca­ran­diru), tira esse li­vro de vam­pi­ros que está na moda. Volta uma se­mana de­pois e tira “O Morro dos Ven­tos Ui­van­tes”, que é men­ci­o­nado no li­vro.”

“O Morro dos Ven­tos Ui­van­tes”, de Emily Brontë, é sem dú­vida um dos gran­des ro­man­ces de to­dos os tem­pos. As ir­mãs Brontë, para quem não sabe, têm uma his­tó­ria fa­bu­losa na li­te­ra­tura in­glesa. Emily nas­ceu em 1818, na In­gla­terra. Ela é fi­lha de um re­ve­rendo e per­deu a mãe ainda muito cri­ança, com me­nos de 3 anos de idade. Sua irmã Char­lotte pu­bli­cou em 1847 seu fa­moso ro­mance: “Jane Eyre”. No mesmo ano, saiu “O Morro…”. A ou­tra irmã, Anne, tam­bém teve grande su­cesso com o li­vro “Ag­nes Grey”. Fa­mí­lia ge­nial! Mas não imune à tra­gé­dia: Emily mor­reu de tu­ber­cu­lose pouco tempo de­pois da pu­bli­ca­ção de seu ro­mance so­bre a pai­xão de Cathe­rine e seu ir­mão ado­tivo, o ci­gano He­ath­cliff.

Eu acho ex­tra­or­di­ná­rios o am­bi­ente som­brio e a aura mis­te­ri­osa que abas­te­cem o li­vro. Es­ses as­pec­tos so­ma­dos aos em­ba­tes de ins­tin­tos re­pri­mi­dos e per­so­na­li­da­des for­tes dos per­so­na­gens são fun­da­men­tais para trans­for­mar “O Morro…” numa obra-prima.

Mi­nha co­ta­ção: vis­ce­ral.

No ci­nema, Lau­rence Oli­vier foi o pri­meiro a in­ter­pre­tar He­ath­cliff, no filme de 1939. Aliás, essa ver­são, di­ri­gida por Wil­liam Wy­ler (o mesmo de “Ben-Hur”), foi in­di­cada ao Os­car em oito ca­te­go­rias, mas le­vou ape­nas uma es­ta­tu­eta: me­lhor fo­to­gra­fia preto e branco. O azar foi ter como con­cor­rente “E o vento le­vou” (13 in­di­ca­ções e oito prê­mios). Em 1992, em nova ver­são, esta di­ri­gida por Pe­ter Kos­minsky, Ralph Fi­en­nes é o pro­ta­go­nista ao lado de Ju­li­ette Bi­no­che, mas os crí­ti­cos a con­si­de­ram, com ra­zão, ape­nas uma som­bra da pri­meira..

E uma nova adap­ta­ção já está em an­da­mento (não sei se já co­me­ça­ram a ro­dar). Não tem erro: quando a his­tó­ria é boa, é pra sem­pre.

Nem tudo está per­dido 2

Às ve­zes, você en­con­tra lei­to­res de li­vros onde me­nos se es­pera. Numa noite des­sas, num ter­mi­nal ro­do­viá­rio, ao va­li­dar meu car­tão de es­ta­ci­o­na­mento, deparei-me com a ga­rota res­pon­sá­vel pelo ser­viço lendo “Olhai os lí­rios do campo”. O ro­mance, do ex­cep­ci­o­nal Erico Ve­ris­simo, che­gou ao pú­blico em 1938. 

Em 1966, em uma das mui­tas edi­ções, o pró­prio au­tor es­creve o se­guinte no pre­fá­cio:

“Com a pu­bli­ca­ção de Olhai os Lí­rios do Campo operou-se uma mu­dança con­si­de­rá­vel em mi­nha vida. O ro­mance ob­teve tão grande su­cesso de li­vra­ria, que se es­go­ta­ram dele vá­rias edi­ções em pou­cos me­ses, dei­xando edi­to­res e es­cri­tor igual­mente sa­tis­fei­tos e per­ple­xos. Ta­ma­nha foi a in­fluên­cia desse li­vro no es­pí­rito de cer­tos lei­to­res, que ele teve a força de ar­ras­tar con­sigo os ro­man­ces que o au­tor pu­bli­cara até en­tão em ti­ra­gens mo­des­tas que le­va­vam quase dois anos para se es­go­ta­rem. Posso afir­mar que só de­pois do apa­re­ci­mento de Olhai os Lí­rios do Campo é que pude fa­zer pro­fis­são da li­te­ra­tura.”

O ro­mance se passa em duas fa­ses e narra o drama do mé­dico Eu­gê­nio. De fa­mí­lia po­bre, ele se casa ape­nas para ob­ter sua as­cen­são so­cial. Mas sua vida torna-se va­zia: não ama a mu­lher e tem um em­prego de fa­chada na em­presa do so­gro. No iní­cio da trama, Eu­gê­nio se­gue para o hos­pi­tal onde a mu­lher que ele ama (Olí­via) está in­ter­nada. É a par­tir de flash­backs que ele co­meça a re­ve­lar seu pas­sado. Am­bi­ci­oso e fú­til na ju­ven­tude, o pro­ta­go­nista vi­verá uma ex­pe­ri­ên­cia trans­for­ma­dora.

A obra foi adap­tada para a te­le­vi­são. No­vela com o mesmo tí­tulo foi ao ar pela Globo em 1980. Cláu­dio Marzo foi Eu­gê­nio e Ní­vea Ma­ria, Olí­via.

Mu­lhe­res lei­to­ras

Não te­nho em mãos pes­quisa so­bre o as­sunto, mas me pa­rece que as mu­lhe­res são lei­to­ras mais as­sí­duas de fic­ção do que os ho­mens. Tal­vez esse seja um dos mo­ti­vos que as fa­zem ser me­lho­res do que nós, ho­mens, bru­tos ani­mais ru­des. Como diz meu amigo Luiz Car­los Car­va­lho, “nós, ho­mens, so­mos sel­va­gens”. E é ver­dade.

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