Impressões

Polêmica

quinta-feira, 8 de abril de 2010 Texto de

A no­ve­lista Gló­ria Pe­rez está cau­sando a maior po­lê­mica por­que hoje (acho que às 18h – no SBT, é di­fí­cil an­te­ci­par ho­rá­rio) o Ra­ti­nho deve apre­sen­tar uma en­tre­vista com o ex-ator e hoje pas­tor evan­gé­lico Gui­lherme de Pá­dua, con­de­nado pela morte da atriz Da­ni­ella Pe­rez (fi­lha de Gló­ria) em 1992. Con­de­nado a 19 anos de pri­são. Mas saiu bem an­tes do prazo, como acon­tece com quase todo mundo que é con­de­nado no Bra­sil.

Com­pre­en­dam bem: não es­tou aqui in­si­nu­ando que neste caso es­pe­cí­fico o con­de­nado de­ve­ria ter fi­cado mais tempo na pri­são. O que es­tou di­zendo, agora cla­ra­mente, é que: acho um ab­surdo que as leis bra­si­lei­ras se­jam tão frou­xas e per­mi­tam aos con­de­na­dos tan­tas pos­si­bi­li­da­des de re­du­zi­rem sua pena ini­cial.
Se o su­jeito é con­de­nado a um ano, ponto fi­nal. Cum­pra um ano. Isso, claro, se não hou­ver ou­tro jul­ga­mento, se não des­co­bri­rem al­gum erro no pro­cesso etc e tal. Todo mundo sabe que em mui­tos ca­sos, ver­da­des ou ate­nu­an­tes sur­gem de­pois da con­de­na­ção. Mas sim­ples­mente ame­ni­zar a pena por causa das bre­chas da lei eu não con­cordo.

A lei de­ve­ria ser mais ri­go­rosa. Foi con­de­nado a vinte anos: cum­pra vinte anos. Gui­lherme de Pá­dua, por exem­plo, foi con­de­nado a 19 anos, mas se não me en­gano está em li­ber­dade desde 2002, ou seja, quase uma dé­cada a me­nos do to­tal im­posto pelo tri­bu­nal. Aliás, quando o con­de­nado cum­pre um terço (!) da pena, já co­me­çam os be­ne­fí­cios. Como diz meu amigo Deda Be­nette, é uma farra. 

Mas vol­tando à po­lê­mica, eis aí uma boa dis­cus­são para jor­na­lis­tas e es­tu­dan­tes de jor­na­lismo: o es­paço aberto pe­los veí­cu­los de co­mu­ni­ca­ção a cri­mi­no­sos, em­bora nesse caso, pela lei bra­si­leira, Gui­lherme de Pá­dua já te­nha acer­tado suas con­tas com a Jus­tiça. É pre­ciso que tam­bém se­ja­mos jus­tos com o ci­da­dão. O cara é con­de­nado, cum­pre a pena (com base na lei frouxa do Bra­sil) e volta à vida so­cial: é pre­ciso respeitá-lo. Ele não tem culpa se a lei é uma farra. 

De todo modo, a dis­cus­são, como se ob­serva, dá muito pano pra manga, como diz mi­nha mãe, 79 anos, rumo a oito dé­ca­das de ge­ne­ro­si­dade e pa­ci­ên­cia com os fi­lhos.

A po­lê­mica

Bem, no fi­nal das con­tas, não tra­duzi em miú­dos a po­lê­mica lan­çada pela Gló­ria Pe­rez. Ela cri­ti­cou no twit­ter a ini­ci­a­tiva do Ra­ti­nho ao dar es­paço a Gui­lherme de Pá­dua. Ra­ti­nho se de­fen­deu. Ele disse mais ou me­nos que pro­cura co­la­bo­rar para que cri­mes he­di­on­dos não se­jam es­que­ci­dos pe­las no­vas ge­ra­ções. Mas a Gló­ria não se con­for­mou e se di­ri­giu as­sim ao Ra­ti­nho (tudo no twit­ter): “Que de­cep­ção! Eu aper­tei sua mão nos tem­pos em que você se in­dig­nava com as­sas­si­na­tos co­var­des!”

Está aí a con­tro­vér­sia. Claro que há nessa dis­cus­são in­gre­di­en­tes que vão muito além da ob­je­ti­vi­dade à qual o jor­na­lismo pro­cura apegar-se. Gló­ria é mãe da atriz que foi as­sas­si­nada. Gui­lherme é o con­de­nado pelo as­sas­si­nato. Não se pode exi­gir de uma mãe a isen­ção ne­ces­sá­ria para que esse tipo de si­tu­a­ção possa ser ana­li­sado de modo frio e isento. Isso cabe aos que es­tão de fora. Por isso, eu disse no texto acima que está aí uma boa chance para que se dis­cuta o es­paço dado a cri­mi­no­sos, con­de­na­dos, tra­fi­can­tes, as­sas­si­nos con­fes­sos etc etc nos veí­cu­los de co­mu­ni­ca­ção.

Agora a Man­chete

A re­vista Man­chete foi uma das pri­mei­ras que vi e ma­nu­seei. Eu ainda mo­rava no sí­tio, quase às por­tas dos anos 1970, e mi­nhas tias tra­ziam da ci­dade a Man­chete e tam­bém O Cru­zeiro, esta ainda mais an­tiga. A Man­chete sur­giu na dé­cada de 1950. O Cru­zeiro, em 1928. A Man­chete pa­rou de cir­cu­lar no ano 2000. O Cru­zeiro, se não me en­gano, em 1975, 1976, por aí. Eu me lem­bro do cheiro de tinta ao folheá-las. Das fo­tos (eu não sa­bia ler – de­via ter uns 5 ou 6 anos) e das co­res. E fi­cava ima­gi­nando que mundo era aquele além da por­teira de sete ou oito tá­buas atra­ves­sa­das que se­pa­ra­vam o sí­tio e a es­trada de terra que de vez em quando nos le­vava à ci­dade.

Sem se­gredo

O jor­na­lista Thi­ago Ro­que, que co­la­bora com este site, pos­tou no twit­ter sua eu­fó­rica apro­va­ção ao filme ar­gen­tino “O se­gredo dos seus olhos”, ven­ce­dor do Os­car. Como está se­di­ado em São Paulo, o Thi­a­gão tem gran­des op­ções cul­tu­rais, en­tre elas ver um filme desse ca­li­bre. Nós, po­bres mor­tais que pas­sa­mos a maior parte do tempo no In­te­rior, quase sem­pre fi­ca­mos a ver na­vios. O jeito é es­pe­rar, com al­guma sorte, pela boa von­tade das lo­ca­do­ras.

A ver­dade é que, fora even­tos pon­tu­ais, o In­te­rior é muito mal­tra­tado em ter­mos de cul­tura. Claro que há ci­da­des onde essa fase já foi ven­cida, mas eu me re­firo ao In­te­rior de modo ge­ral. Os ci­ne­mas só tra­zem fil­mes co­mer­ci­ais e, mesmo as­sim, nem to­dos. Obras al­ter­na­ti­vas, nem pen­sar. O te­a­tro é mer­ca­do­ria rara ou, in­fe­liz­mente, em ex­tin­ção. Shows só de vez em quando. É dura a vida para quem quer cul­tura no In­te­rior.

E o pior: o po­der pú­blico vira as cos­tas para o seg­mento. Pro­je­tos são en­ga­ve­ta­dos à es­pera de di­nheiro que nunca so­bra. Ar­tis­tas são des­pre­za­dos em nome de ou­tras pri­o­ri­da­des. O in­cen­tivo à for­ma­ção de ta­len­tos não está nos pla­nos da­que­les que se sen­tam nas ca­dei­ras do po­der.

Com isso, cria-se um ci­clo trá­gico: sem cul­tura, o su­jeito tem sua for­ma­ção em­po­bre­cida. Tendo sua for­ma­ção em­po­bre­cida, o con­sumo de bens cul­tu­rais para ele é algo des­co­nhe­cido ou des­ne­ces­sá­rio. E as­sim va­mos nós, lu­tando con­tra a lama das en­chen­tes e con­tra a lama imo­ral de nossa po­lí­tica po­bre e sem rumo. 

O se­gredo

O filme, que ainda não vi, é es­tre­lado por Ri­cardo Da­rín, um dos mais bem-sucedidos ato­res da Ar­gen­tina (o úl­timo que as­sisti com ele foi “XXY”, o drama de Alex, que nas­ceu com ca­rac­te­rís­ti­cas dos dois se­xos). A di­re­ção é de Juan José Cam­pa­nella, o mesmo de “O fi­lho da noiva”, que é bas­tante co­nhe­cido do pú­blico bra­si­leiro e que, aliás, tam­bém tem Ri­cardo Da­rín no pa­pel prin­ci­pal. Mas so­bre “O se­gredo dos seus olhos”, eis a si­nopse pu­bli­cada pelo UOL Ci­nema:

Após tra­ba­lhar a vida toda num Tri­bu­nal Pe­nal, Ben­ja­mín Es­pó­sito se apo­senta. Seu tempo li­vre o per­mite re­a­li­zar um so­nho lon­ga­mente pos­ter­gado: es­cre­ver um ro­mance ba­se­ado num acon­te­ci­mento que vi­vera anos an­tes. Em 1974, foi en­car­re­gado de in­ves­ti­gar um vi­o­lento as­sas­si­nato. A Ar­gen­tina en­trava num ci­clo de ex­trema vi­o­lên­cia po­lí­tica e a in­ves­ti­ga­ção co­lo­cou em risco sua vida. Ao es­ca­var ve­lhos trau­mas, Ben­ja­mín con­fronta o in­tenso ro­mance que teve com sua an­tiga chefe, as­sim como de­ci­sões e equí­vo­cos pas­sa­dos. Com o tempo, as me­mó­rias ter­mi­nam por trans­for­mar no­va­mente sua vida.

Di­ta­dura

Zé Celso Mar­ti­nez, Ja­guar e Zi­raldo já re­ce­be­ram a in­de­ni­za­ção do Mi­nis­té­rio da Jus­tiça por causa da per­se­gui­ção que so­fre­ram du­rante o re­gime mi­li­tar. Zé Celso le­vou R$ 570 mil e re­ce­berá cerca de R$ 5 mil men­sais até sua morte. Ja­guar e Zi­raldo re­ce­be­ram, cada um, em torno de R$ 1 mi­lhão e ven­ci­men­tos men­sais acima de R$ 4 mil.

Bom, acho que nin­guém ques­ti­ona a im­por­tân­cia e a com­pe­tên­cia des­ses se­nho­res ma­gis­trais. Acho tam­bém que pou­cos dão ra­zão aos pro­ce­di­men­tos sel­va­gens ado­ta­dos por qual­quer di­ta­dura. Mas uma coisa fica ba­tu­cando aqui na mi­nha ca­beça: é justo in­de­ni­zar fi­gu­ras im­por­tan­tes, que­ri­das e, eu di­ria, fun­da­men­tais para a cul­tura bra­si­leira e não des­ti­nar o mesmo tra­ta­mento a anô­ni­mos – ou a fa­mí­lias des­ses anô­ni­mos – que tal­vez te­nham so­frido bar­ba­ri­da­des ainda mai­o­res?

É ape­nas uma pro­posta de re­fle­xão. Zé Celso, Zi­raldo e Ja­guar são fi­gu­ras sem as quais a cul­tura bra­si­leira se­ria mais po­bre. Mas eu não acho que o ser hu­mano deva ter sua im­por­tân­cia ana­li­sada sob o ponto de vista de sua re­pre­sen­ta­ti­vi­dade so­cial, cul­tu­ral ou seja lá de que âm­bito for. Acre­dito que um anô­nimo pode, pro­por­ci­o­nal­mente, ter uma im­por­tân­cia cem ve­zes maior do que seus se­me­lhan­tes que vi­vem sob os ho­lo­fo­tes.

Como eu disse, é ape­nas uma pro­posta de re­fle­xão.

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