Crônicas, Impressões

A grande ilusão

sexta-feira, 26 de março de 2010 Texto de

Como di­ria mi­nha avó (que mor­reu faz um quarto de sé­culo), on­tem à noite “pe­guei” na TV um bom filme que eu não via há al­gum tempo. An­ti­ga­mente, eu ou­via os mais ve­lhos con­ver­sa­rem en­tre eles referindo-se aos pro­gra­mas de rá­dio ou de te­le­vi­são da noite an­te­rior. Eles per­gun­ta­vam uns aos ou­tros: “Você pe­gou a no­vela on­tem?” ou “Você pe­gou o fu­lano de tal?” (quando o apre­sen­ta­dor do pro­grama era mais fa­moso que o pró­prio pro­grama).

Hoje, se uma ve­lhi­nha (quando mi­nha avó mor­reu, era bem ve­lhi­nha já) per­gun­tar a uma ou­tra se ela “pe­gou” al­guém na noite an­te­rior, cer­ta­mente vai “pe­gar mal”. Ah!Ah!Ah!

Bom, de todo modo, revi “A grande ilu­são”, que é uma re­fil­ma­gem do ven­ce­dor do Os­car em 1949. O car­dá­pio é po­lí­tica e cor­rup­ção, mas in­clui tam­bém dra­mas fa­mi­li­a­res e, claro, re­la­ções amo­ro­sas. A his­tó­ria, ba­se­ada no ro­mance de Ro­bert Penn War­ren, ga­nha­dor do Prê­mio Pu­lit­zer, inspira-se na tra­je­tó­ria de um mag­nata ame­ri­cano que go­ver­nou a Loui­si­ana.

Na re­fil­ma­gem, Sean Penn é o po­pu­lista Wil­lie Stark, um de­ma­gogo fa­bu­loso que vence as elei­ções para go­ver­na­dor desse es­tado norte-americano com um pé nas co­sas ao con­se­guir le­var ao elei­to­rado po­bre a ideia de que ele tam­bém é um “cai­pira” pre­ju­di­cado em tudo pe­los ri­cos e po­de­ro­sos.

O elenco é es­te­lar. Além de Sean Penn, atuam Jude Law , Anthony Hop­kins , Kate Wins­let e Mark Ruf­falo. Lembro-me de ter lido al­gu­mas crí­ti­cas ne­ga­ti­vas à re­fil­ma­gem. Aliás, o filme pas­sou des­per­ce­bido do pú­blico bra­si­leiro por­que, se não me en­gano, che­gou di­reto para as lo­ca­do­ras.

Eu gos­tei. Acho a atu­a­ção de Sean Penn ex­ce­lente no pa­pel do po­lí­tico que se torna igual ou pior se com­pa­rado àque­les que tanto cri­ti­cava. Tam­bém gosto da sim­bo­lo­gia do fi­nal, quando os san­gues de as­sas­si­nado e as­sas­sino se mis­tu­ram nas fres­tas de­se­nha­das no piso do Ca­pi­tó­lio.

Fora isso, é sem­pre bom ver fil­mes que nos lem­brem so­bre a ne­ces­si­dade de es­tar­mos aten­tos à po­dri­dão que ge­ral­mente per­meia a po­lí­tica em qual­quer canto do mundo desde a época da mi­nha avó. Desde a época da avó dela. Ao me­nos para os elei­to­res, a po­lí­tica é sem­pre uma grande ilu­são. E, ao que me pa­rece, são as gran­des ilu­sões que nos per­mi­tem cha­fur­dar nas gran­des de­si­lu­sões, onde muito se aprende.

Mi­nha co­ta­ção: bom

Ilu­sões

Mi­nha avó mor­reu pen­sando que Tan­credo Ne­ves se­ria pre­si­dente do Bra­sil. Ela mor­reu pouco an­tes da­que­les dias tur­bu­len­tos de abril de 1985, quando a morte do pre­si­dente eleito cau­sou co­mo­ção na­ci­o­nal. Será que Tan­credo tam­bém se­ria uma de­si­lu­são para mi­nha avó e para to­dos que es­pe­ra­vam por um pre­si­dente ci­vil há duas dé­ca­das?

Mi­nha avó não sa­bia ler e tam­bém des­co­nhe­cia a data de seu nas­ci­mento. Este se­gundo pro­blema foi re­sol­vido fa­cil­mente pe­los ne­tos mais ve­lhos, que de­ter­mi­na­ram um dia qual­quer para co­me­mo­rar o ani­ver­sá­rio. To­dos os anos na­quela data can­tá­va­mos pa­ra­béns e co­mía­mos bolo. Mas o pri­meiro pro­blema mor­reu com ela. Eu só con­se­gui ensiná-la a ra­bis­car o nome. Acho que ten­ta­mos tarde de­mais.

Mi­nha avó ti­nha medo de chuva. No sí­tio onde mo­rá­va­mos, sem­pre que uma tem­pes­tade se apro­xi­mava, obri­ga­to­ri­a­mente a fa­mí­lia toda pre­ci­sava se reu­nir na cada dela. Se um raio de­sa­basse ali, ris­ca­ria do mapa num se­gundo uma fa­mí­lia in­teira. Para nós, cri­an­ças, aca­bava sendo uma aven­tura, em­bora mui­tas ve­zes fosse do­lo­roso vê-la so­frer en­quanto os raios e tro­vões não se afas­ta­vam.

Mi­nha avó mor­reu dei­tada na cama olhando para o nada e pro­cu­rando com as mãos coi­sas que só ela via ao seu re­dor: pro­va­vel­mente, ape­nas ilu­sões.

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