Impressões

Vestígios

domingo, 28 de março de 2010 Texto de

Quem fi­cou em casa on­tem e es­pe­rou por um bom filme na TV (in­cluindo os ca­nais pa­gos) foi salvo pela Band! Ao me­nos num certo ho­rá­rio da noite, só ha­via me­di­o­cri­dade no ar, en­quanto a Band mos­trava que nem tudo es­tava per­dido exi­bindo “Ves­tí­gios do dia”. 

Este mag­ní­fico filme, am­bi­en­tado na In­gla­terra e di­ri­gido pelo não muito fa­moso en­tre nós Ja­mes Ivory, car­rega con­sigo, na mi­nha mo­des­tís­sima opi­nião, uma das mais pro­fun­das e to­can­tes ce­nas de amor do ci­nema sem que seus pro­ta­go­nis­tas se­quer tro­quem um beijo. 

A cena é com Anthony Hop­kins (o mor­domo Ja­mes Ste­vens) e Emma Thomp­son (a go­ver­nanta Sally Ken­ton). Ela tenta des­co­brir – tomando-lhe das mãos – que li­vro ele está lendo, o que, no con­texto do filme, pode ser re­ve­la­dor quanto à per­so­na­li­dade do in­tros­pec­tivo Sr. Ste­vens. Os dois fi­cam muito pró­xi­mos fi­si­ca­mente, como ja­mais ti­nham es­tado, e o modo como am­bos re­a­gem a essa pro­xi­mi­dade é ca­paz de trans­mi­tir a emo­ção que mui­tas ve­zes não existe em um mi­lhão de bei­jos ou em va­zias ce­nas de sexo.

O filme tem iní­cio em 1958, quando Ja­mes Ste­vens co­meça sua vi­a­gem rumo a um en­con­tro com Sally Ken­ton. Já se pas­sa­ram duas dé­ca­das desde que eles con­vi­ve­ram na man­são de Dar­ling­ton Hall, pro­pri­e­dade de um lorde com grande in­fluên­cia na po­lí­tica in­glesa e eu­ro­péia. Lá são re­a­li­za­das gran­des reu­niões e con­fe­rên­cias en­tre as pri­meira e se­gunda guer­ras mun­di­ais. No fim das con­tas, tal­vez in­ge­nu­a­mente, o lorde é en­vol­vido numa teia que acaba fa­vo­re­cendo os na­zis­tas e em­pur­rando a In­gla­terra para a guerra. 

É nesse am­bi­ente que o re­ser­va­dís­simo Ja­mes Ste­vens re­prime seus sen­ti­men­tos e sa­cri­fica sua vida pes­soal em nome de sua pos­tura pro­fis­si­o­nal: um mor­domo ab­so­lu­ta­mente vol­tado para a per­fei­ção de seu tra­ba­lho e que tem sua im­pe­ne­trá­vel ca­ra­paça cons­tan­te­mente es­pe­tada pela in­qui­e­tude e pela pai­xão não con­fes­sada de sua go­ver­nanta. Nada é ca­paz de fazê-lo de­mons­trar suas emo­ções tran­ca­fi­a­das, nem mesmo a morte do ve­lho pai, tam­bém um mor­domo como ele. 

Elenco ótimo: além dos dois pro­ta­go­nis­tas, atuam Hugh Grant, Ch­ris­topher Re­eve e Ja­mes Fox. 

In­for­ma­ção: o filme, de 1993, é ba­se­ado no ro­mance do es­cri­tor bri­tâ­nico Ka­zuo Ishi­guro “Os ves­tí­gios do dia”, ven­ce­dor em 1989 do Bo­o­ker Prize, um dos mai­o­res prê­mios li­te­rá­rios de lín­gua in­glesa. Ka­zuo nas­ceu no Ja­pão, mas mudou-se cedo para a In­gla­terra.

Mi­nha co­ta­ção para o filme: ma­ra­vi­lhoso.

Obs: la­men­ta­vel­mente, não li o li­vro (ainda).

Jor­na­lismo

Além de toda sua carga de densa dra­ma­ti­ci­dade, “Ves­tí­gios do dia” tam­bém é ca­paz de dar uma boa li­ção aos jor­na­lis­tas que pro­cu­ram cada vez mais con­tar suas his­tó­rias de modo a fu­gir do lu­gar co­mum, de modo a atrair a aten­ção de um lei­tor hoje bom­bar­de­ado com tan­tas e tan­tas in­for­ma­ções. A tra­je­tó­ria do mor­domo Ja­mes Ste­vens sobrepõe-se à pró­pria guerra, sem, no en­tanto, ignorá-la ou diminuí-la. Mui­tas ve­zes, um só drama hu­mano con­se­gue di­zer mais do que mi­lha­res de­les jun­tos.

Sig­ni­fi­cado

Ves­tí­gios são atra­en­tes, se­du­to­res, mis­te­ri­o­sos. Po­dem nos frus­trar, claro, mas nos cu­tu­cam a per­cep­ção, aflo­ram nossa ca­pa­ci­dade de usar a in­te­li­gên­cia, ex­ci­tam nosso pra­zer, tor­nam ví­vida nossa exis­tên­cia. O que é me­lhor do que o ves­tí­gio de um grande amor para se­guir­mos quando en­fren­ta­mos aquele ve­lho va­zio no peito?

Aten­ção, jor­na­lis­tas, para um con­tra­ponto: ves­tí­gios são um rico ali­mento para o jor­na­lismo. Mas como todo ali­mento, eles po­dem fazê-los en­gas­gar.

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