Crônicas, Impressões

Putos da vida

domingo, 11 de julho de 2010 Texto de

Cres­ci no meio de pais e ti­os e avó fa­lan­do es­pa­nhol. Eles to­dos são (ou fo­ram) fi­lhos de es­pa­nhóis. Gen­te que veio do ou­tro la­do do Atlân­ti­co em bus­ca de no­vas opor­tu­ni­da­des, de uma vi­da me­lhor. Mas co­mo é du­ro vê-los em har­mo­nia. Co­mo é di­fí­cil fa­zer com que eles se en­ten­dam. São ra­nhe­tas. São im­pul­si­vos. Têm sem­pre o san­gue nu­ma tem­pe­ra­tu­ra ina­de­qua­da pa­ra o cor­po hu­ma­no.

Lá na Es­pa­nha, na se­ma­na pas­sa­da mes­mo, aca­ba de ha­ver uma mar­cha pe­la in­de­pen­dên­cia da Ca­ta­lu­nha. Vá­ri­as re­giões do país não se en­ten­dem. Que­rem se ver li­vres umas das ou­tras. Uma his­tó­ria ri­ca pa­ra um país so­fri­do.

Na Áfri­ca, a iro­nia do fu­te­bol mais uma vez apre­sen­tou-se de ma­nei­ra ex­tra­or­di­ná­ria: não hou­ve nes­ta Co­pa do Mun­do uma se­le­ção mais harmô­ni­ca. Ne­nhu­ma das equi­pes foi tão so­li­dá­ria. Nin­guém jo­gou tan­to com ba­se em seu con­jun­to.

O tí­tu­lo, dra­má­ti­co co­mo são os es­pa­nhóis, não fa­rá de­les um úni­co po­vo lá na Es­pa­nha. Nem fa­rá com que meus pais e ti­os e avó se en­ten­dam me­lhor. Al­guns de­les, in­cluin­do pai e avó, já mor­re­ram.

E jun­to com ou­tros es­pa­nhóis e fi­lhos de es­pa­nhóis de­vem es­tar lá, em al­gum lu­gar des­co­nhe­ci­do por nós, fe­li­zes com o que não vi­ram na vi­da to­da, em tan­tos anos de fu­te­bol. Mas, em­bo­ra fe­li­zes, tam­bém de­vem es­tar pu­tos da vi­da com al­gu­ma coi­sa bo­ba que não lhes te­nha agra­da­do. De­vem até es­tar xin­gan­do. Eles fa­cil­men­te fi­cam pu­tos da vi­da. Pu­tos da vi­da por qual­quer coi­sa. Pu­tos da vi­da até na fe­li­ci­da­de.

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