Impressões

A falência do homem

quinta-feira, 15 de julho de 2010 Texto de

En­tre os ami­gos mais pró­xi­mos, dis­se­mi­nei a se­guin­te im­pres­são: a hu­ma­ni­da­de fa­liu. Não sei se al­guém por aí já cu­nhou a fra­se an­tes ou a es­tá cu­nhan­do ago­ra. Em tem­pos de tan­tas fer­ra­men­tas tec­no­ló­gi­cas que fa­zem da co­mu­ni­ca­ção um re­de­moi­nho de in­con­tá­veis cis­cos, é ar­ris­ca­do de­fen­der qual­quer fra­se ou ideia ori­gi­nal. Tu­do pa­re­ce já ter si­do di­to ou pen­sa­do.

Mas, in­de­pen­den­te­men­te da ori­gi­na­li­da­de da im­pres­são, ela me vem à ca­be­ça quan­do não me con­for­mo com si­tu­a­ções nas quais o ho­mem ex­põe to­do o seu fra­cas­so.

Es­se cri­me que en­vol­ve o go­lei­ro Bru­no, do Fla­men­go, por exem­plo, é um des­ses ca­sos. Sei que não é o pri­mei­ro cri­me ab­sur­do (e nem se­rá o úl­ti­mo). Mas quan­do al­go as­sim vem à to­na, sem­pre pen­so que a hu­ma­ni­da­de fa­liu.

Nes­sas ho­ras, na­da me faz mu­dar de ideia quan­to à fa­lên­cia do ho­mem. Nem os ami­gos. As ami­gas. Nem a fa­mí­lia. A mãe. Nem o pro­vá­vel Deus no qual acre­di­to me con­so­la­ria. Cla­ro que o pro­vá­vel Deus no qual acre­di­to não te­ria tem­po a per­der co­mi­go. Mas se ti­ves­se e ten­tas­se me con­ven­cer do con­trá­rio, eu olha­ria de ci­ma a bai­xo pa­ra sua lu­mi­no­si­da­de ofus­can­te e di­ria na Sua ca­ra: não, Se­nhor, Vo­cê es­tá er­ra­do quan­to a is­so. E fos­se o que Ele qui­ses­se.

O di­a­bo é que a vi­da nos des­men­te cla­mo­ro­sa­men­te!

Es­sa bri­gui­nha ri­dí­cu­la com o pro­vá­vel Deus no qual acre­di­to po­de­ria vi­rar mo­ti­vo de cha­co­ta tão lo­go, após vi­rar as cos­tas de ca­ra feia, eu, pa­ra es­que­cer, li­gas­se o te­le­vi­sor e sin­to­ni­zas­se o ca­nal es­pa­nhol que nos é for­ne­ci­do pe­la TV pa­ga. Lá es­ta­ria um su­jei­to (não vi o no­me por­que pe­guei o as­sun­to no meio do ca­mi­nho) pu­xan­do um ti­gre pe­la co­lei­ra. Um ti­gre que ele sal­vou das gar­ras de al­gum ser hu­ma­no.

O ti­gre, na ado­les­cên­cia, es­fre­ga-se ca­ri­nho­sa­men­te no tal su­jei­to. O tal su­jei­to aper­ta-lhe a ca­ra com se es­ti­ves­se brin­can­do com um be­be­zi­nho hu­ma­no. E o ti­gre fe­cha os olhos de pra­zer.

E da­li a pou­co, lá es­tá o tal su­jei­to ou­tra vez. Ago­ra com um fi­lho­te de leão no co­lo. Tra­tan­do do bi­cho, iden­ti­fi­can­do-o pa­ra sal­vá-lo de al­gum ser hu­ma­no.

E mais adi­an­te, ei-lo a en­ta­bu­lar uma di­ver­ti­da con­ver­sa com um chim­pan­zé. Os dois abra­ça­dos, co­mo se fos­sem ir­mãos.

Mais tar­de, a bri­gui­nha ri­dí­cu­la já ar­re­fe­ci­da, em ou­tro ca­nal a re­por­ta­gem mos­tra in­ves­ti­ga­do­res sal­van­do pe­que­nos tu­ba­rões pre­sos den­tro de sa­cos plás­ti­cos chei­os de água. Os sa­cos plás­ti­cos já acon­di­ci­o­na­dos em cai­xas fe­cha­das pa­ra se­rem trans­por­ta­das num avião pa­ra al­gum lu­gar que eu não sei, mas com um só ob­je­ti­vo: lu­crar com o trá­fi­co de ani­mais.

Nes­sas ho­ras, es­ses ho­mens e mu­lhe­res que com­pre­en­dem a fra­gi­li­da­de dos ani­mais me fa­zem, ao me­nos por al­guns ins­tan­tes, mu­dar de ideia quan­to à fa­lên­cia do ho­mem.

Ho­je, ou­tra vez em vi­a­gem co­mo to­das as se­ma­nas, pa­rei pa­ra al­mo­çar num lu­gar na bei­ra-es­tra­da. Uma mu­lher le­va­va na co­lei­ra uma ca­chor­ra da­chshund, aque­la que pa­re­ce uma sal­si­cha, co­mo a mi­nha. Ela es­ta­va gor­di­nha. Acho que grá­vi­da. Ao ver um pe­que­no se­me­lhan­te no mes­mo lu­gar, ela fez o mai­or ban­zé. La­tiu, sa­cu­diu-se, pa­te­ou... No fim, sob as re­pri­men­das da do­na, sos­se­gou.

Ali, na­que­la ho­ra, sen­ti sau­da­des da mi­nha ca­chor­ri­nha e de seu olhar pro­fun­do e sin­ce­ro.

Nes­ses tem­pos em que hu­ma­nos ma­tam hu­ma­nos e dão seus pe­da­ços pa­ra os ca­chor­ros, os ca­chor­ros nos olham e já pa­re­cem se­res su­pe­ri­o­res. Os ani­mais já pa­re­cem ter pi­e­da­de de nós.

Pi­a­da (?)

No ba­nhei­ro do pos­to da bei­ra-es­tra­da, ou­vi a pi­a­da (?). “Ca­ra, vo­cê viu que um fil­me pornô da aman­te do Bru­no es­tá fa­zen­do o mai­or su­ces­so? Pois é, de­ve ter um mon­te de gen­te por aí ba­ten­do pu­nhe­ta pra ela, mas quem co­meu mes­mo foi o ca­chor­ro”.

Ou­vi a pi­a­da (?) en­quan­to usa­va o ba­nhei­ro. Na ho­ra, o ja­to da uri­na, in­vo­lun­ta­ri­a­men­te, in­ter­rom­peu-se. Foi co­mo um rá­pi­do cor­te, des­ses que ro­lam quan­do vo­cê ex­pe­le uma pe­dra do rim (quem já te­ve sa­be do que es­tou fa­lan­do).

Não sei, é es­tra­nho pen­sar nis­so. É es­tra­nho pen­sar nu­ma pi­a­da (?) as­sim. É es­tra­nho pen­sar que al­guém po­de fa­zer uma pi­a­da as­sim. É es­tra­nho pen­sar nu­ma fri­e­za tal. Mas é es­tra­nho pen­sar que uma pi­a­da de uma fri­e­za tal po­de sur­gir num mun­do em que um cri­me é co­me­ti­do com uma fri­e­za tal?

Compartilhe