Crônicas, Impressões

A primeira Teta ninguém esquece

quinta-feira, 15 de abril de 2010 Texto de

A pri­meira Teta que vi, claro, foi a da mi­nha mãe. Aliás, fo­ram as pri­mei­ras te­tas. Por­que, afi­nal, elas são duas. Mas eu não me re­cordo, em­bora eu te­nha ma­mado até 4 anos de idade (eu sei, um ab­surdo!) e mi­nhas lem­bran­ças te­nham ori­gem bem an­tes disso – aos 2 anos.

Cu­ri­o­sa­mente, na­quela época pro­nun­ciar “teta” era quase di­zer um pa­la­vrão. E pen­sando bem até hoje ela é pouco usual (digo a pa­la­vra – rs­sss), mesmo sendo an­tes de mais nada nossa pri­meira fonte de ali­mento.

Mas uma coisa é certa: sua pre­sença en­tre nós, sob o ponto de vista das re­fe­rên­cias psico-sexuais (existe?) é de uma com­ple­xi­dade mag­ní­fica. Tal­vez a única coisa ca­paz de derrotá-la nesse as­pecto seja o pê­nis. Aliás, o Pinto (para aqui igua­lar a ter­mi­no­lo­gia ao mesmo pa­ta­mar de Teta). 

E mesmo as­sim por­que esse ser mi­to­ló­gico (o Pinto) é ob­jeto de nu­me­ro­sos es­tu­dos da psi­ca­ná­lise e afins, en­quanto a Teta acaba, por mo­ti­vos ób­vios, sendo de certa ma­neira pre­ser­vada no sen­tido de que ela é como uma de­li­ci­osa rai­nha: nos­sas fan­ta­sias fi­cam es­con­di­das sob o res­peito que de­ve­mos a ela. 

A pri­meira vez (que eu me lem­bre) que vi uma – aliás, duas – foi no meio de um ca­fe­zal perto de onde nasci, na La­goa Seca, em Ca­fe­lân­dia. Era uma moça de pele mo­rena, tal­vez uma ado­les­cente. Não sei mais quem era. Ela es­tava tra­ba­lhando na roça e, sem per­ce­ber que ha­via al­guém olhando, er­gueu a ca­misa e livrou-se do su­tiã (que de­via es­tar in­co­mo­dando).

Eu era um ga­roto que fa­zia pouco ti­nha aca­bado de ser des­ma­mado. Tam­bém não sei mais o que senti. Mas uma coisa fi­cou pra sem­pre na mi­nha ca­beça: inex­pli­ca­vel­mente, um beija-flor a son­dou bem de perto, acho até que o pe­queno bico do pás­saro atre­vido aproximou-se tanto tanto de um de seus ma­mi­los bem es­cu­ros, que a fez arrepiar-se e pro­te­ger as te­tas com as mãos en­quanto ves­tia de novo a ca­misa lis­trada.

Ou­tra teta 

Eu ainda não ti­nha visto “A teta as­sus­tada” (2009), pe­ru­ano in­di­cado ao Os­car de me­lhor filme es­tran­geiro e ga­nha­dor do Urso de Ouro no Fes­ti­val de Ber­lim. Vi agora. A nar­ra­tiva en­volve a su­pers­ti­ção de po­pu­la­ções in­dí­ge­nas do Peru so­bre a trans­mis­são de uma do­ença pelo leite ma­terno das mu­lhe­res es­tu­pra­das nos tem­pos do ter­ro­rismo do Sen­dero Lu­mi­noso (dé­cada de 1980). 

Essa do­ença pode ser tra­du­zida num medo in­sano da vi­o­la­ção. Por isso mesmo, para se de­fen­der, a pro­ta­go­nista (Fausta) en­fia uma ba­tata na va­gina.

Tam­bém achei um bom filme. Mas não mais que isso. O filme, aliás, ex­plora bas­tante as con­tra­di­ções so­ci­ais pe­ru­a­nas. Fausta mora na pe­ri­fe­ria e a certa al­tura é hu­mi­lhada pela pa­troa, mu­lher da alta so­ci­e­dade de Lima. 

Mi­nha co­ta­ção: bon­zi­nho.

Ni­nho

Apro­vei­tei para pe­gar tam­bém “Ni­nho va­zio”, filme do ar­gen­tino Da­niel Bur­man, di­re­tor de ape­nas 37 anos que vem ga­nhando fama in­ter­na­ci­o­nal com seus tra­ba­lhos.

A his­tó­ria é so­bre um ca­sal de meia idade que vê os fi­lhos par­ti­rem para suas pró­prias vi­das e passa a sen­tir o peso dessa au­sên­cia. Ela busca enfiar-se numa vida so­cial in­tensa e ele, um im­por­tante es­cri­tor, torna-se cada vez mais in­tros­pec­tivo.

Essa di­ver­gên­cia de pos­tu­ras ajuda a acen­tuar a crise nesse ca­sa­mento à beira do nau­frá­gio.

Gos­tei do filme. Bons ato­res. Tema fun­da­men­tal nos dias de hoje. Di­re­ção ótima. Di­zem que foi um dos fil­mes mais vis­tos dos úl­ti­mos anos na Ar­gen­tina.

Mi­nha co­ta­ção: ine­vi­tá­vel (para os ca­sa­dos)

Mar­cha

Meu ni­nho tam­bém está va­zio. Mi­nha fi­lha está na fa­cul­dade e o quarto dela guarda ape­nas suas coi­sas que fi­ca­ram, in­cluindo os bi­chos de pe­lú­cia, que vi­vem o dia in­teiro na cama, e a gui­tarra e o vi­o­lão, mu­dos. É a vida, di­zem. É a vida, eu re­pito.

Li­nha

De vez em quando, liga no meu ce­lu­lar um cara pro­cu­rando um tal pas­tor Amaro. Não sei quem é o cara nem quem é o pas­tor Amaro. Mas já es­ta­mos quase ami­gos. Por­que a coisa está se tor­nando pró­xima.

Co­me­çou ape­nas com “ah, foi en­gano, me des­culpe”. De­pois, eu per­gun­tei se ele era da mesma área, ele disse que sim e fi­ca­mos meio atô­ni­tos. Mais al­gu­mas li­ga­ções e tanto ele como eu pas­sa­mos a xin­gar, de­si­lu­di­dos, as ope­ra­do­ras.

De vez em quando, em vá­rias áreas di­fe­ren­tes, ligo de al­gum te­le­fone fixo para meu pró­prio nú­mero para, in­tri­gado, ver se o pas­tor Amaro atende. Mas nunca o en­con­trei. De mi­nha parte, de­sisto. Se o pas­tor Amaro qui­ser, ele que me pro­cure.

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