Crônicas

Sinais de alerta

terça-feira, 13 de abril de 2010 Texto de

Uma das prin­ci­pais ca­rac­te­rís­ti­cas da so­ci­e­dade atual é a sede de ori­en­ta­ção, mas não uma ori­en­ta­ção que a faça se sen­tir pre­pa­rada para es­co­lher um ca­mi­nho. As pes­soas hoje que­rem o ro­teiro pronto. Por onde devo se­guir? Até onde? Qual o me­lhor meio para che­gar lá? Quando che­gar lá, o que devo fa­zer?

É a época da an­si­e­dade, do ime­di­a­tismo e da cor­rida por um lu­gar ao qual muita gente quer che­gar mas nem to­dos che­ga­rão.

Em todo pro­grama aberto à par­ti­ci­pa­ção do pú­blico, o en­tre­vis­tado se de­para com per­gun­tas do tipo “como você con­se­guiu?”, “o que você su­gere que as pes­soas fa­çam para con­se­guir seu su­cesso?”, “quais as chan­ces do recém-formado?”.

No jor­na­lismo, não é di­fe­rente. No pri­meiro ano, os es­tu­dan­tes já es­tão vi­vendo a neura do mer­cado de tra­ba­lho. Eis aí um erro que pode ser fa­tal.

Claro que o aluno, desde o iní­cio (e tal­vez an­tes) pre­cisa es­tar pre­o­cu­pado com o mo­mento em que sairá da uni­ver­si­dade. Mas essa pre­o­cu­pa­ção não pode com­pro­me­ter sua for­ma­ção.

Uma boa uni­ver­si­dade deve pri­o­ri­ta­ri­a­mente in­ves­tir em me­ca­nis­mos efi­ci­en­tes para a boa for­ma­ção de seus alu­nos e não ape­nas ten­tar, numa cor­rida en­lou­que­cida, prepará-lo para o mer­cado de tra­ba­lho.

Con­victo, um amigo jor­na­lista, que exerce um cargo im­por­tante num im­por­tante jor­nal, me diz o se­guinte: boa parte dos es­tu­dan­tes de jor­na­lismo, e mesmo jor­na­lis­tas recém-formados, não sa­bem a di­fe­rença en­tre Gei­sel e Fi­guei­redo.

E eu acre­dito nele. Em vez de ten­tar resolvê-las, em vez de vi­ver a aven­tura for­ma­dora de ten­tar resolvê-las, a so­ci­e­dade busca in­sa­na­mente fór­mu­las aca­ba­das para as equa­ções mais im­por­tan­tes da vida. Ve­jam a cor­re­ria tre­menda para pu­bli­ca­ções – fa­ju­tas ou não – de auto-ajuda. 

E no meio jor­na­lís­tico, a coisa não é di­fe­rente. Bus­cam no Go­o­gle, in­ves­tem no Ctrl C Ctrl V, des­pre­zam sua pró­pria his­tó­ria e põem-se a es­cre­ver so­bre o que não sa­bem e tam­pouco que­rem sa­ber.

Ou­tro amigo, este pro­fes­sor de jor­na­lismo numa uni­ver­si­dade lo­ca­li­zada no es­tado mais rico do país, faz uma con­fi­dên­cia em tom me­lan­có­lico: es­tou dando aula para uma ge­ra­ção per­dida.

Está certo que tal­vez ele exa­gere, mas os in­di­ca­do­res – com base em cons­ta­ta­ções de gente par­ruda do meio – não es­tão para brin­ca­deira.

Lei da selva

A ver­dade nua e crua é que os ani­mais – e o ho­mem é um de­les – beneficiam-se da cha­mada lei da selva ou lei do mais forte. O de­serto ao qual está ati­rada – como diz meu amigo pro­fes­sor – uma ge­ra­ção in­teira pode ser a tá­bua de sal­va­ção para aque­les que sou­be­rem ven­cer sua ari­dez. O su­jeito que se pre­para bem numa boa uni­ver­si­dade não pre­ci­sará de ro­tei­ros pron­tos para es­co­lher sua es­trada. Ele sa­berá abrir no­vos ca­mi­nhos. Ele dará no­vos ru­mos para as fu­tu­ras ge­ra­ções.

Po­e­tas mor­tos

Es­ta­rão mor­tos os po­e­tas? Terá a vida se trans­for­mado ape­nas nesta com­plexa ope­ra­ção ma­te­má­tica de nosso co­ti­di­ano? Al­guém já as­sis­tiu “So­ci­e­dade dos po­e­tas mor­tos”?

Este filme, pra mim, foi mar­cante. É de 1989, mas me pa­rece não ter prazo de va­li­dade, prin­ci­pal­mente quanto à pro­posta do pro­fes­sor John Ke­a­ting (Ro­bin Wil­li­ams): fa­zer com que seus alu­nos pen­sem por si mes­mos.

A di­re­ção do be­lís­simo filme é de Pe­ter Weir, que di­ri­giu tam­bém ou­tras obras das quais gosto muito, como “O mes­tre dos ma­res” e “O show de Tru­man”. Quem tam­bém está no elenco é Ro­bert Sean Le­o­nard (fa­moso por “House”).

“So­ci­e­dade…” foi in­di­cado e ga­nhou vá­rios prê­mios, in­cluindo um Os­car (de me­lhor ro­teiro ori­gi­nal). En­fim, vale a pena as­sis­tir, não pe­los prê­mios que ga­nhou ou dei­xou de ga­nhar, mas pela ca­rên­cia de ins­pi­ra­ção des­tes dias de tan­tas per­gun­tas fei­tas para ob­ter res­pos­tas pron­tas.

Como nos re­co­menda Ho­rá­cio, o po­eta ro­mano: “car­pem die” (co­lha o dia).

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