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achados e perdidos (incompleto)

domingo, 18 de abril de 2010 Texto de

um ma­ca­cão azul des­bo­tado, um bal­cão, um sor­riso.
es­pe­rança é as­sim.
há 35 anos.
se­gunda a sexta, ho­rá­rio co­mer­cial. sá­bado, até 13h.
tra­ba­lha no acha­dos e per­di­dos.
co­nhece tudo o que está lá den­tro.
as de­cep­ções. os es­que­ci­men­tos. os aban­do­nos.
ro­de­ada de mo­ti­vos para lá­gri­mas, raiva, pra­gas ro­ga­das.
en­gra­çado como tudo isso ga­nha forma.
um ce­lu­lar, um guarda-chuva, aquele ca­che­col cinza que tanto adora.
to­dos os dias, uma no­vi­dade. uma nova perda.
uma nova tris­teza no bal­cão da es­pe­rança.
che­ga­vam tão aban­do­na­das. su­jas. mal­tra­ta­das.
ela as re­ce­bia de bra­ços aber­tos.
e o sor­riso no rosto.
es­pe­rança dava ba­nho. ca­ri­nho. beijo na testa.
há 35 anos era as­sim.
de­sen­con­tros e en­con­tros.
mas os pro­pri­e­tá­rios sur­giam.
uns ins­tan­ta­ne­a­mente. ou­tros, bri­ga­dos com o tempo, apa­re­ciam de­pois.
mas es­ta­vam lá. do ou­tro lado do bal­cão.
bri­lho nos olhos. sa­li­vando. úl­tima chance.
es­pe­rança sor­ria.
a ado­les­cente re­en­con­tra o ce­lu­lar.
o guarda-chuva re­torna ao braço trê­mulo do idoso.
o jo­vem com a barba por fa­zer não terá dor de gar­ganta no in­verno.
vem e vão.
en­con­tros e de­sen­con­tros.
es­pe­rança sor­ria.
sem­pre sor­ria.
mas, nes­sas ho­ras, se des­pe­dia.
afi­nal, ao lado de tan­tas per­das, sem­pre se sen­tia viva.
sus­pi­rando as his­tó­rias que nunca po­de­riam ser suas.
to­das de uma vez, em um breve mo­mento.
an­tes que fosse tarde de­mais.
por ins­tan­tes imen­su­rá­veis, era a ado­les­cente com o ce­lu­lar a ti­ra­colo.
ia li­gar para o na­mo­rado? dar uma boa no­tí­cia à mãe? ser o om­bro para uma amiga?
o idoso en­con­trando for­ças e apoio no guarda-chuva.
ca­mi­nha­ria com mais con­fi­ança? pro­te­ge­ria al­guém quando a chuva caísse? apoi­a­ria as per­nas can­sa­das?
o jo­vem com frio no pes­coço.
ti­nha um en­con­tro? uma banda para can­tar sto­nes? uma de­cla­ra­ção de amor a fa­zer?
quan­tos acha­dos…
seu bal­cão con­quis­tava ter­ri­tó­rios e so­nhos feito war, edi­ção de luxo – aliás, tem um ali, no se­tor de brin­que­dos.
sem fa­lar no sor­riso…
ah, o sor­riso…
o ma­ca­cão azul nem pa­re­cia tão des­bo­tado as­sim.
só que o bal­cão tem dois la­dos.
agora, quem per­dia era ela.
pra ser sin­cero, es­pe­rança pa­rece sem­pre per­der.
perde e se perde.
mas sorri.
até o fim do ex­pe­di­ente.

E-mail: roque.thiago@hotmail.com

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