Crônicas

Novos desafios

segunda-feira, 12 de abril de 2010 Texto de

Em 2004, numa de mi­nhas vi­a­gens a tra­ba­lho (na época eu dava au­las de jor­na­lismo em duas ci­da­des do In­te­rior), se­guia bem à mi­nha frente um ca­mi­nhão pe­queno, e so­bre a car­ro­ce­ria ba­lan­ça­vam al­guns en­gra­da­dos numa carga muito mal ar­ru­mada em que pes­co­ços de ga­li­nhas ou fran­gos, sei lá, mostravam-se sob aquele ar pers­cru­ta­dor tí­pico des­sas aves. 

Por um des­ses ins­tan­tes de per­di­dos pen­sa­men­tos, em que me es­queci com­ple­ta­mente dos fi­lés em­pa­na­dos, das ga­li­nha­das e das co­xi­nhas, veio-me à mente uma breve co­mi­se­ra­ção. Po­bres bi­chos pre­sos, devo ter pen­sado.

Como a ro­do­via era de pista sim­ples e aproximava-se pe­ri­go­sa­mente uma curva, mantive-me atrás, obe­de­cendo a certa dis­tân­cia que me per­mi­tisse uma ma­no­bra de emer­gên­cia caso uma da­que­las cai­xas vi­esse abaixo. E não deu ou­tra. Pouco an­tes da curva, uma de­las voou fora da pista e espatifou-se no acos­ta­mento, li­ber­tando al­gu­mas aves. 

Di­ante do pe­queno aci­dente, eu pra­ti­ca­mente pa­rei o carro, en­quanto ob­ser­vava dois su­jei­tos cor­rendo atrás dos ex-detentos à beira da es­trada. E, não sei por que mo­tivo, tor­cendo para que eles es­ca­pas­sem.
E um de­les re­al­mente adiantou-se em meio a um pe­queno ma­ta­gal, atra­ves­sou a cerca e dei­xou para trás os per­se­gui­do­res, que cer­ta­mente fa­ziam seus cál­cu­los e con­cluíam que an­tes meia dú­zia de ga­li­nhas ou fran­gos, sei lá, nas mãos do que um a mais ten­tando livrar-se de­les.

O di­abo é que – eu pude ver en­quanto já tra­fe­gava ao lado do ca­mi­nhão es­ta­ci­o­nado – o fu­gi­tivo foi sur­pre­en­dido por um belo vira-lata, que pas­sou a almoçá-lo sem qual­quer ce­rimô­nia.

Às ve­zes, não com­pensa fu­gir de nosso des­tino quando ele se mos­tra con­trá­rio aos nos­sos pla­nos. Pode ha­ver algo ainda pior a nos es­pe­rar numa ou­tra en­cru­zi­lhada. Mas quem sa­berá? Quem diz que aquela ave branca que le­vou a pri­meira bo­cada do ca­chorro não vi­veu na­que­les pou­cos me­tros a maior aven­tura de sua vida e por isso mesmo foi en­go­lida fe­liz? E quem pode afir­mar que tão logo eu me vol­tei no­va­mente à es­trada, a ga­li­nha ou frango, sei lá, não se sol­tou do vira-lata e, em voos cur­tos, meteu-se no meio da plan­ta­ção e foi-se em­bora vi­ver um novo de­sa­fio? Quem?

Ve­lhos de­sa­fios

O jor­na­lismo im­presso está na boca do vira-lata. Sendo al­mo­çado. A re­fei­ção já co­me­çou, mas ainda há tempo para o jor­na­lismo im­presso. Ca­berá aos que o fa­zem es­co­lher en­tre as pe­que­nas e de­fi­ni­das di­men­sões do en­gra­dado e as in­cer­te­zas da vas­ti­dão lá fora. O ca­mi­nhão pa­rou e pa­rece ser um bom mo­mento para a es­co­lha.

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